Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


O que é que se pode esperar de uma história do cinema? Por um lado, uma lista de filmes, provavelmente enorme. Por outro, um desfilar de termos técnicos, de explicações de como filmar, ângulos de câmara, técnicas de montagem, etc. Talvez nada de muito interessante, portanto. Mas, ao mesmo tempo, senti durante anos a vontade de saber mais, de estudar um pouco da hitória do cinema. Apesar de me interessar muito mais a literatura do que o cinema, acredito que este último é, muitas vezes, uma forma de arte. E até chega a ser daquelas em que é mais fácil ser bom e ser popular. Obviamente, não estou a falar do cinema do Star Wars (que adoro!), nem do Indiana Jones (que até gosto mas que não precisava de ser tão descaradamente irrealista, no sentido de cenas forçadas para serem espetaculares mas absurdas). Também não me refiro ao cinema tão intelectual que pouco se consegue sentir de emoção, ou de empatia com os personagens (alguns dos filmes de Malick são um bocado assim). Refiro-me a cinema de todo o tipo mas que fica algures no meio destes extremos. Filmes simples como os Before Sunrise e Before Sunset, escritos pelos atores, cheios de vontade de serem especiais por serem concretos e cheios dos sonhos e da vida de pessoas comuns (se bem que não se encontra por aí muita gente como aqueles dois), e filmes como Morte em Veneza de Visconti, que são estética e emoção à flor da pele, mas que exigem uma concentração até superior à do livro de Thomas Mann.

Posto isto, tive a sorte de me terem aconselhado esta Biografia do Filme de Marc Cousins. Deixo que seja ele a apresentar o livro:

Disse no início deste livro que ele era a história da inovação, porque a inovação é o que estimula o cinema. Também referi que escrevera este livro para um público inteligente. Espero que nele tenham descoberto filmes que gostavem mesmo de ver e partes da história do cinema a explorar mais profundamente, porque não há dúvia que um público inteligente estimula o cinema inovador.

Na minha introdução prometi fazer três ajustamentos às já existentes histórias do cinema convencional.O primeiro era que esta seria a história do cinema mundial e não apenas do cinema ocidental. O segundofoi que iria descrever – num meio termo entre os filmes excessivamente emocionais de Hollywood e Bollywood e os filmes minimalistas de Bresson e outros – de obras singulares, equilibradas e clássicas como as de Ozu. [Terceiro], argumentar que, desde os anos 90, os filmes de realizadores como Kiarostami, Lhurmann, Sokurov, Gonzálzs Iñarritu, Von Trier e David Lynch mostraram que o mundo global do cinema estava mais saudável do que alguma vez estivera nos história do cinema.

Creio que este excerto da conclusão é elucidativo. Este não é um livro de saudosismo, embora elogie enormemente  o cinema mais antigo. É um filme de reconhecimento da evolução de uma arte cuja vitalidade não parou ainda de surpreender.

O único aspeto negativo é o facto de Cousins revelar completamente as histórias. Às vezes é evidente que não era preciso contar tudo para apresentar um filme. Nada que não se resolva saltanto umas linhas. Mas que é estranho vindo de alguém que mostra um grande interesse pelas histórias ou pelos momentos marcantes dos atores.

E não resisto a deixar mais um parágrafo, a propósito do extraordinário A Arca Russa de Sokurov:

Este plano único de Sokurov, conseguido logo no segundo take, teve lugar a 23 de Dezembro de 2001 e mostra que, longe de estar a acabar, a história desta fantástica forma de arte está ainda no início.

Escusado será dizer que fiquei com uma lista terrível de filmes para ver. Muitos deles, vão dar luta para serem encontrados.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Medo, muito medo, era o que eu tinha. Mas o Ang Lee sempre me deu razões para acreditar nele. E, por isso, lá fui ver a adaptação de um livro  que adorei há uns meses. Bom, o livro tem um ponto fraco, o seu final. O filme, não. É uma adaptação muito, muito bem feita. Não estava nada a ver como é que se podia transformar isto num filme. Mas, afinal, é um filme tão bom como o livro.

 

Não sei como será para quem não leu o livro... Talvez seja um bocado esquisito. Se alguém vir, diga coisas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

De vez em quando, muito de vez em quando, aparece-me um filme que me alimenta tanto como um bom livro. Foi o caso com este. Um grupo de amigos que passam férias juntos, um ritual de há anos. Desta vez, no entanto, as coisas não correm assim tão bem, talvez porque as pequenas mentiras são cada vez mais insidiosas mas também cada vez mais necessárias.

 

Sempre senti alguma distância em relação a um filme que marcou muita gente, Os Amigos de Alex. Parece-me que este pode ser Os Amigos de Alex da minha geração. Os atores são notáveis, o argumento é simples e subtil mas sempre em crescendo, o desenlace é perturbador. Brilhante.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Dowton Abbey

15.10.12

 

Pronto, já vi a 1ª Série toda. É boa, é tão boa!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Before...

06.09.12

E agora a notícia da década!

Os Before Sunrise e Before Sunset vão ter continuação…

E, mais uma vez, eu tremo de emoção. E também de medo. O final perfeito do Sunset pode ser continuado? Bom, a verdade é que fiz a mesma pergunta sobre o Sunrise e a verdade é que sim, deu para continuar e foi tão bom como o primeiro.

Ainda por cima, passa-se na Grécia. Será que os apanho por lá?...

http://oarrumadinho.clix.pt/2012/09/before-midnight.html

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Poucas vezes usei o pedrices para falar de filmes. E quando o fiz foi porque tinha visto algo que me apeteceu destacar. Desta vez é bem diferente, estou a escrever sobre um filme porque o acho péssimo e, ao mesmo tempo, para que haja opinião divergente daquela que tenho encontrado por aí.

Não consigo compreender a aclamação que é feita deste filme. Por isso, vou começar por descrevê-lo: neste filme vemos… imagens de Ceausescu, as verdadeiras. Trata-se de um trabalho de colagem de imagens reais que, provavelmente, nunca tinham estado juntas. Imaginem que alguém ia para os arquivos da RTP e pegava em todas as imagens que houvesse do Salazar, depois montava-as e apresentava isso como um filme. Pronto, foi isto que foi feito. Ah, mas esperem, esqueci-me de dizer que não vale acrescentar nada, não vale contextualizar, nem uma legenda que explique em que ano se está e que país é aquele que o ditador está a visitar, ou que presidente é aquele que ele foi receber ao aeroporto. E outra coisa que é capaz de ser importante: como as imagens são de arquivo, imagens do tempo de uma ditadura, só vemos a parte "boa", por assim dizer, do regime. Portanto, no nosso imaginado filme, veríamos um Salazar exemplar, grande diplomata, grande milagreiro das finanças públicas, grande líder e inspirador do povo. Claro que não veríamos nada da brutalidade da PIDE e coisas dessas que, no fundo, não interessam nada.

Bom, é assim este filme sobre o ditador da Roménia. O que vemos é um Ceausescu a chegar ao poder, a discursar, a ser amigo de todos (comunistas e capitalistas), a conduzir o seu país, a ser aclamado pelo partido, a parecer uma boa pessoa mas que joga muito mal volei, a receber flores - claramente o povo adora-o, a ser fiel às suas ideias. E, de repente, ele está preso! Não sabemos bem porquê mas está preso, como se ele tivesse feito algo de mal. Se fez, foi fora do filme mas… então, para que serve este filme?

Parece-me que há aqui uma intenção óbvia de tratar isto como uma autobiografia. Pelos visto, é esse o conceito. Por isso, não podia ser mais do que aquilo que é, não podia mostrar o lado "mau". Pronto, ok,  mas assim eu não consigo perceber qual é a diferença entre isto e os filmes de propaganda que, certamente, o regime romeno fez. Pois, é isso, não há diferença porque o material deste filme são… esses filmes. Mas todos juntos, num mastodonte de 3 horas de aclamação de um ditador.

O que mais me surpreende, no entanto, é a receção ao filme. Os críticos, pode ver-se no site do público ou do expresso, só para começar, tecem os mais rasgados elogios. Falam da realização (mas qual realização? Todo o filme é apenas montagem de cenas que foram filmadas ao longo dos anos), falam do documento (mas qual documento? Não há uma data, uma legenda, numa opção que só posso considerar estúpida, porque nada de mal viria ao mundo, ou ao filme, se tivesse uma simples legenda a dizer, por exemplo, o ano e o país em causa), falam de uma lição (mas qual lição? Quem aprenderá seja o que for se não conhecer já a história?). Chega-se até a dizer que este filme é uma denúncia. Como?? Onde? Em quê?

Desculpem lá mas… é preciso saber bastante de história para compreender este filme, para ver ali uma crítica. Assim, como está, é uma nulidade. E, ainda por cima, é um filme perigoso porque mostra um lado cor-de-rosa de uma realidade que tinha muito de negro.

Como reagiriam os críticos e intelectuais se isto fosse sobre Hitler? Se se omitisse de uma biografia de Hitler o que ele mandou fazer?... Creio que a resposta é óbvia, já vi críticas a filmes por retratarem Hitler com alguma humanidade. Aqui, vemos 3 horas de um Ceausescu a quem não se aponta um dedo, e os elogios chovem.

Sinceramente, nem o próprio faria uma autobiografia tão vazia. No mínimo, colocaria legendas.

P.S.: Admito que se impõe uma pergunta: ah e tal, tás para aí a falar mal mas estiveste a vê-lo durante três horas?? Não pode ser assim tão mau!". Pois, a verdade é que o filme tem um interesse notável enquanto coleção de imagens. É até fascinante vê-las, mas se calhar podia-se pedir a um estagiário para as ir buscar e a gente via-as, o efeito era mais ou menos o mesmo....

Por outro lado, quem tiver livros do Tony Judt ou do Timothy Garton Ash ao lado, e for parando para os consultar também vai poder usufruir do tal lado de documento. E é isso que mais me faz pensar: que oportunidade perdida!

Já no fim deste texto, encontrei isto, e gostei:

http://c7nema.net/index.php?option=com_content&view=article&id=6470%3Athe-autobiography-of-nicolae-ceausescu-a-autobiografia-de-nicolae-ceausescu-por-joao-miranda&

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Vários

20.10.11

Pronto, lá abandonei eu o meu pobre blog. Não é que não tenha lido nos últimos tempos. O tempo para escrever é que tem andado mais escasso. Pior, eu até vou escrevendo umas coisas, mas depois não chego a publicar.

 

Enfim, lamentos à parte, aqui fica um post que é uma manta de retalhos. São pequenas coisas que fui despejando para um documento word sobre várias coisas.

 

As Vinhas da Ira, de John Steinbeck

Já há muitos anos que não lia um livro de Steinbeck, e também já há muito que o queria voltar a fazer. Em boa hora peguei nestas Vinhas da Ira, um monumental romance sobre a procura de oportunidades num contexto de grandes dificuldades.

O final deste livro é absolutamente brutal e inesquecível. Claro que não vou contar. E não vale a pena espreitar, o efeito nunca será o mesmo, se é que se percebe.

 

Lost, a série

Pronto, vá, admito. Se calhar não tenho tempo para o blog porque passoa a vida a ver séries, né? Pois, sim, pode ser… Culpado.

Isto das séries tem que se lhe diga. Eu até não sou dos mais viciados, o meu problema é outro: não consigo ver um episódio esporádico. Se gostar, tenho que ver tudo. O que, no caso que se segue, não é nada bom… O texto, a partir do próximo parágrafo, foi escrito em momentos diferentes:

- quem nunca viu não deve ler o texto que se segue -

 Sinceramente, apesar de já ter visto quase todos os episódios (faltam apenas dois para chegar ao fim), ainda não sei se me posso considerar um fã da série LOST.

A primeira impressão não foi brilhante. Fiquei até desapontado porque tive que fazer algum esforço para ver os primeiros três ou quatro episódios. É certo que, logo ali, começam a acontecer coisas misteriosas que provocam alguma curiosidade. Por isso, lá fui prosseguindo. A certa altura, estava relativamente “agarrado”. Mas aquilo que me movia era uma curiosidade de “já agora”, bem diferente daquilo que me aconteceu com outras séries, nas quais o interesse era o grande motivo, e a curiosidade funcionava como desulpa para “vou ver só mais um”. Talvez convenha dizer que sou fão de séries como Sete Palmos de Terra (para mim, a melhor de sempre), Desperate Housewives (isso sim, um vício), ou Dexter.

Gostei muito da segunda série. Aí sim, acho que me tornei um fã. Havia a curiosidade mas havia também o interesse. Note-se que, nessa altura, ainda me parecia possível que houvesse uma explicação racional para tudo aquilo. E descobri-la era um interessante desafio.

A partir da terceira, começa a ser difícil aceitar que o desfecho não vá ter que meter o sobrenatural ao barulho. E isso traz-me um travo amargo. Nada contra o sobrenatural, mas quando ele é assumido sem reservas. O Lost parece ser sempre verosímil ou, pelo menos, há sempre essa expetativa. De qualquer forma, o final da terceira série é, para mim, absolutamente avassalador. O último episódio é o mais fascinante de todos, sendo um daqueles momentos que justificam o visionamento de todos os outros. Quando se pensa que se está a ver uma projeção do futuro e a série acaba deixando a dúvida, há ali um momento intensíssimo. Só que daí parte-se para as 4ª e 5ª séries…

Viagens no tempo, gente que não envelhece, ressureições, física e mística, religião e paganismo, tudo se começa a misturar num bolo que perde consistência. Enfim, vê-se, claro que sim, como entretenimento, e do bom, mas se fosse assim do início era muito mais honesto. Desta forma, parece que não se conseguiu dar vazão ao que se foi criando e, portanto, vem o sobrenatural explicar porque é a única maneira de o fazer.

E pronto, a última temporada. Ainda não vi um episódio de jeito. E há momentos de profundo ridículo como a missão do guardião da ilha ser… proteger a luz. Pronto, ok, faltam dois episódios e ainda bem. É que mais achas para esta fogueira iam provocar, certamente, muitos feridos.

Pronto, já vi. Epá… os meus piores receios confirmaram-se. Não conseguiram estar à altura… Foi fraco, muito fraco, especialmente pela conclusão que é dada a um tempo paralelo que se tinha criado, no qual o avião não tinha caído. Esse elemento, o único verdadeiramente interessante da série 6, tornou-se um fiasco por se assumir como uma espécie de purgatório inconsequente. Uma treta…

Claro que a série valeu a pena. Mas que fica irremediavelmente mais fraca por causa deste final, lá isso fica.

 

O Cisne Negro, o filme de Darren Aronofsky

(alguns spoilers, não aconselho a leitura a quem não viu)

Não sei muito bem se devia escrever algo sobre este filme. Por um lado, claro que sim, porque é um objeto interesantíssimo mas, por outro, não gostei de tanta coisa que não sei se vale a pena. Pois, o problema é esse: gostei muito e não gostei nada de imensas coisas neste filme.

Comecemos pelo talvez óbvio, a dança, vista por dentro, com uma câmara que acompanha os movimentos do bailado de uma forma quase indecente (aliás, esta câmara é definitivamente indecente, muito para lá das cenas de dança, e não só nas cenas de sexo. Bom, mas quanto a isso, viva a indecência!). Isto já bastava para eu querer ver o filme mas foi muito melhor do que eu esperava.

Depois há a Natalie. Acho que a interpretação é notável, ainda para mais, implicando tudo o que implicou, em termos de esforço físico de aprendizagem. Mas não é só isso, ela é aquilo que esta personagem podia ser, e é-o inteiramente. Veja-se a cena em que ela fala com a mãe ao telefone, a dizer-lhe que ficou com o papel. A alegria contida é tão extrordinariamente interpretada que fica, para mim, como uma cena clássica.

Mas, depois, há, aqui e ali, um mistério, ou um elemento de surrealismo. Enfim, qualquer coisa que parece querer levar este filme a ficar entre o The Others e o Persona. E isso era profundamente dispensável.

Há o final extraordinário também. Mas parece-me ensombrado pelos tais laivos de surrealismo que parecem só existir para dar alguma ocupação aos efeitos visuais e mostrar talento de quem os fez. É chato, é estúpido, e tira ao filme uma aura profundamente humana que ele tinha.

 

Bel-ami, de Guy de Maupassant

Um livro delicioso, com uma dessas histórias de alpinismo social como se lê em tantos outros romancistas do séc. XIX. Só que este é um dos melhores.

 

Paris, o filme de Cédric Klapisch

Quando escrevi este post não sabia que, alguns meses depois, iria voltar a Paris J:

Um filme que vale pela cidade, antes de mais. Depois, há o que acontece. Ou melhor, o que não acontece. Não há bem uma história, não há bem personagens bem construídos. Há momentos, acontecimentos, aqui e ali, na vida de algumas pessoas. E vamos assistindo a tudo isto da mesma forma que, no final, um dos personagens percorre Paris de táxi e se vai cruzando com os outros. Assistimos e revemo-nos, num ou noutro caso. Ou não. Este não é um filme de exemplos ou de lições, é apenas um filme sobre aquilo que acontece, ou vai acontecendo, tendo como pano de fundo uma cidade que é, como sempre, ela própria, uma grande personagem.

 

The Humbling, de Philip Roth

Mais um livro de Philip Roth e, desta vez, creio que é um livro a aconselhar a quem quiser conhecer este escritor. Em primeiro lugar, por ser bastante pequeno, mas, por outro lado, contém um pouco de tudo o que Roth é capaz de fazer.

A história é curta e limitada. Desenvolve-se em três atos, sendo que, no primeiro, temos um Roth clássico, a desenvolver os seus personagens. Depois, no segundo, é a estranheza que se começa a desenvolver, quando o improvável começa a acontecer e a mudar tudo. O terceiro ato, leva-nos ao Roth provocador, com descrições sexuais ao nível do Portnoy.

O livro é limitado porque estes personagens poderiam ser desenvolvidos a um nível muito maior. Num livro de 300 ou 400 páginas, muitos dos acontecimentos que aqui mais marcam seriam apenas episódios. Neste caso, tornam-se o principal da história. Não sei bem até que ponto isso é bom. O que sei é que este é um livro para ler de um trago, para nos prendermos apenas naquilo a que a história nos leva. É um livro de liberdade de um autor que já fez tanto e tão bem que não precisa de justificar linha a linha as opções que toma.

À parte algumas inverosimilhanças, e eu não sei até que ponto isso interessa aqui, há nestas breves páginas uma espécie de peça de teatro, um livro que se lê no mesmo tempo em que se vê uma peça, um livro que termina com uma perfeição formal impressionante. Mesmo quando é previsível, Roth é um mestre.

 

No Coração desta Terra, de J.M. Coetzee

Um dos melhores livros de Coetzee, ao nível de Desgraça e A Idade do Ferro. Frio, seco, brutal, sempre brutal. Frases inesquecíveis de um personagem que acompanhamos sem perceber onde está o real e o imaginado, com o estilo concretíssimo de Coetzee. Como é que algo tão bruto pode ser tão belo? Como é que Coetzee consegue ter um estilo tão único e vincado, parecendo que não tem estilo e apenas sendo simples?

ou

Acho que já esgotei os meus elogios ao Coetzee e, no entanto, pego em mais um livro dele e, de repente, tudo o que eu já disse parece pouco. Este No Coração desta Terra tem entrada direta para o top dos meus livros preferidos de Coetzee. Lado a lado com o Desgraça e com A Idade do Ferro. Porém, este é um livro muito diferente, com laivos de surrealismo que não existem normalmente no autor. Por exemplo, aqui nunca se sabe o que é real e o que é imaginado. Somos levados a explorar o interior de uma personagem de uma forma tão íntima que é perturbadora. Mas sempre sem sabermos onde está a fronteira entre aquilo que é uma alucinação, ou um desejo, e aquilo que efetivamente aconteceu.

Mas o mais interessante disto é ficar a pensar: como é que algo tão bruto, tão cru, tão perturbador, pode ser tão belo? Como é que um livro tão desencantado pode ser tão extraordinário?

É Coetzee… Pois.

 

 

 

Auto-de-Fé, de Elias Canneti

Este livro provocou-me uma curiosidade enorme. Vi-o nas livrarias e apaixonei-me logo por ele. Li as primeiras páginas e fiquei encantado. Continuei a ler, até ao fim da primeira parte, completamente fascinado.

Depois. Foi-se. Parece que o livro que eu estava a ler morreu e se transfomou numa coisa bizarra e sem interesse.

Pode ser muito bom na mesma mas, para mim, acabou quando acabou a primeira parte.

 

Solaris

Epá, desisti quando já ia em cento e tal páginas. Não, não é para mim. ‘Bora ver o filme do Tarkovsky.

 

A Melhor Juventude, o filme de Marco Tullio Giordana

Este filme, divido em duas partes de umas três horas cada, merece cada segundo da duração que tem. Ainda bem que me deu na cabeça para tentar vê-lo. Nunca mais pensar em não ver um filme por ser demasiado grande. Como diz o Roger Ebert na sua crítica (http://rogerebert.suntimes.com/apps/pbcs.dll/article?AID=/20050331/REVIEWS/50310004/1023) são seis horas de duração mas também são seis horas de profundidade. E que nenhum filme, quando é bom, pode ser grande demais.

 

Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira

Este livro é uma pérola. Onde é que eu andava? Pequeno mas escrito de forma tão magistral e tão cheio de literatura que apetece guuardá-lo para ler mais vezes, muitas vezes.

 

O Eterno Marido, de Dostoievsky

Há algum tempo que eu não me dava mal com um livro de Dostoievsky. Quer dizer, não é mau e tal. Mas eu espero sempre tanto dele que nem sempre acontece. Não aconteceu.

Não me interpretem mal, é um ótimo livro e aconselhável. Mas se nunca se leu O Crime e Castigo ou Irmãos Karamazov é  para esses que é urgente correr.

 

A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano

Pronto, sim, é giro. Tem uma boa estrutura, uma história que entretém. Mas porque é que este livro teve tanto sucesso? É mesmo só giro.

 

Canino, o filme

Muito mau o que foi feito com algo que podia ser tão bom. Veja-se Haneke e os seus Jogos Perigosos para perceber como este filme podia ter sido extraordinário. Este Canino não serve para nada. E é pena, uma grande pena.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Acho que ando há demasiado tempo para escrever este texto. Talvez seja hoje que ele finalmente sai, talvez daqui a pouco comece a apagar o que escrevi, talvez não chegue a salvar o documento. De qualquer forma, preciso de escrever, e enquanto estas palavras vão saindo, há algo em mim que se vai sentindo mais aliviado.

Consigo lembrar-me do tempo em que olhava para os livros de Saramago cheio de curiosidade. O Evangelho parecia chamar-me. Era aquela edição em que, na capa, está o quadro que é descrito no primeiro capítulo (quantas pessoas não desistem da leitura por nada perceberem daquele primeiro capítulo…). Um dia, enchi-me de coragem e comprei o livro. Fiquei perplexo com a dificuldade em ler aquela forma de escrever. Parecia tudo tão diferente, com uma construção tão estranha, desconcertante e, ao mesmo tempo, estúpida. Sim, parecia-me estúpido escrever assim. Sem ter dado conta, houve uma altura que deixei de estranhar, ou, como se costuma dizer, entranhou-se-me a coisa, tendo passado eu a ler Saramago de forma tão natural como se sempre assim os textos tivessem sido escritos. Ainda hoje não encontrei nada que, a meu ver, seja tão perfeito como forma de expressão. Tirem-se daqui todas as considerações de objetividade, este é o meu postulado, é meu, inteiramente meu e completamente subjetivo. Tão simples quanto isto, a forma como Saramago escreve é aquela que mais prazer me dá a ler, aquela que mais coincide com a voz que ouço quando leio.

Depois do fascínio do Evangelho, continuei, tendo avançado para o incontornável Memorial, do qual, não obstante saber que era apenas um adiamento, desisiti. Dele desisti mais duas vezes, antes de o conseguir finalmente ler. Olhando para trás, é concerteza um dos mais belos livros de Saramago, mas não é menos verdade que foi aquele em que tive mais dificuldade em entrar. Por isso, depois do Evangelho acabei por entrar na História do Cerco de Lisboa, o livro onde esse revisor, Raimundo Silva de seu nome, resolve que onde estava antes uma afirmativa, deveria estar um não, e como esse não pode mudar a vida de quem o escreve, embora o alcance para a história, por melhor que se tente, não a apague mas a reescreva, o que não é de menor interesse. A partir daqui a ordem das leituras torna-se confusa, mas lá parti para o Manual de Pintura e Caligrafia, livro que pouco recordo e a que muito tenho que voltar. Lá passei pelo Levantado do Chão, impressionante retrato do único lado saramaguiano que sempre fui ignorando, o do comunismo. Não é que seja um livro sobre o comunismo, mas é definitivamente o livro de um comunista. A Jangada de Pedra talvez tenha confirmado, se confirmado não estava, o meu fascínio total com Saramago. O Evangelho identificava-se comigo pelo ateísmo convicto, a Jangada indentificava-se pelo iberismo. As ideias que me tinham surgido, e que pouco tivera oportunidade de discutir ou desenvolver, apareciam-me à frente, expostas com todo o poder e alcance que só a literatura pode ter. E depois foram os Cadernos de Lanzarote. Nessa altura, dizia eu, Gosto da obra, não gosto do homem. E convictamente mantive essa ideia até chegar a esses diários de um homem invulgar, de alguém que me merece um respeito e admiração que são tão grandes como a minha oposição às suas ideias mais profundas. Pode parecer paradoxal, se calhar porque é, mas é talvez por isso que o meu fascínio é tão intenso. Saramago abala-me. Ora ilustra tudo aquilo em que sempre pensei, ora apresenta ideias que rejeito profundamente. Daqui resulta um apreço estético, da minha parte, que não encontro em mais nada. Mas dizia eu que os diários me fizeram passar a gostar do homem. Talvez muito por causa de Pilar, e das coisas que ele escreveu sobre ela. Passei a olhar para aquela figura relativamente antipática com outros olhos. A perceber que aquela imensa sensibilidade, que aliás está em tantas passagens do amor de Raimundo Silva no Cerco de Lisboa, não era como as que habitualmente se veem por aí. Saramago é um homem que guarda para as palavras a expressão dos sentimentos, e poucas vezes daí resultam frases vulgares. Depois veio o Ensaio, o da Cegueira. Ainda hoje não voltei a ler nada que tanto impacto tivesse na minha vida. Que de forma tão violenta abanasse as minhas convicções, que de de forma tão certeira me mostrasse que os homens são, enfim, esta coisa horrível e, ao mesmo tempo, tão bela. A seguir, o Todos os Nomes, depois a Caverna, depois o Homem Duplicado, depois a Lucidez, esse outro ensaio onde voltam a surgir os cegos, depois, As Intermitências, depois o Elefante, depois, Caim, depois.

Depois, Saramago morreu. E ainda me falta ler a Viagem a Portugal, que tenho guardado para quando tiver, talvez, a idade que ele tinha quando o escreveu. Não sei porquê. Resolvi guardar esse, como também ainda guardo As Pequenas Memórias, e o D. Giovanni. De resto li tudo (não posso deixar de mencionar o Ricardo Reis, o melhor Saramago). Já reli o Evangelho, já reli o Cerco. Mas agora já não tenho Saramago. Já não há o lançamento dos livros dele, aquelas conferências espantosas, onde ele falava como quem não tivesse nada para dizer e encantava como se dissesse tudo o que eu sempre quisera ouvir. Agora já não há o autógrafo dele em cada livro. As pequenas palavras, pequenas as minhas, não as dele, que trocávamos por ocasião desses autógrafos. Agora já não há a emoção de comprar o novo livro, de acariciá-lo, de tremer ao abri-lo, de ler devagar para não acabar depressa. Agora já não há Saramago e, no entanto, escrevo isto e não o sinto. Porque neste último ano Saramago esteve comigo todos os dias. E ainda mais na semana passada. Primeiro, no Sábado, as cinzas. Ficar a ver a Pilar, a Oliveira, o Banco, a Frase no chão. Depois, no Domingo, o concerto no CCB, a Pilar novamente, o belo discurso da ministra da cultura, a música, as palavras, as fotografias dele, ele sempre. Depois, finalmente a coragem de ver o filme, José e Pilar. Filme que não posso comentar. Que se pode dizer de algo que nos faz chorar durante todo o tempo que o estamos a ver. Perguntem a outro, para mim ver Saramago e Pilar na sua intimidade é como que entrar naquela casa onde sempre nos sentimos felizes. Mesmo que um dos donos já lá não viva. E por isso é triste, triste demais.

Inaugurei também um hábito, acho eu. Ler Saramago no aniversário da sua morte. Porque nada mais justo se pode dar a um escritor do que lê-lo. Posso não voltar a vê-lo, mas posso sempre voltar a tê-lo. E por isso voltei ao Todos os Nomes, um dos livros que mais carinhosamente recordo. Voltei a ler e voltei a sentir o mesmo que há catorze anos. Como uma criança deslumbrada, acompanhei o Sr. José que um dia olha para um nome e quer conhecer quem é essa pessoa por trás dele. Como eu olhava para as capas amarelas que diziam José Saramago e queria saber quem era, e o que dizia aquele nome. O Sr. José, o do Todos os Nomes, nunca chega a encontrar a mulher, eu encontrei Saramago, embora nunca o tenha conhecido, o Sr. José acaba por saber que a mulher já morrera, eu sei que Saramago morreu, mas continuo com ele.

E nada me tira da ideia que é a Pilar quem o faz tão vivo. Enquanto ela estiver por cá, Saramago não morre tanto como comummente acontece a quem morre. Enquanto a força da Pilar o recordar, há algo dele que não parte. Sei que eles não se reencontrarão, e eles também sabem. Mas ambos sabiam que ao iniciar a vida em conjunto que iniciaram, partiriam para uma dimensão nova da vida, uma dimensão que raros conseguem explorar. E isso, só isso, me faz crer que talvez haja por aí uma exceção. Talvez Saramago e Pilar sejam, afinal, um só. Um afluente do outro, uma rua que se cruza com a outra, como na Azinhaga. E eu sei que sim, que Saramago está ali quando olho para ela. Ele próprio disse que o que queria dela era isto, Continuar-me. Pilar continua Saramago e, sem ser necessário ressuscitar, Saramago continua vivo.

Tentando em espanhol, Gracias, Pilar, por mantenerlo tan vivo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nietzsche haveria de me perdoar a subversão da sua famosa frase, por isso, cá vai: é preciso ter muita beleza interior para ser uma estrela que dança. E isto vem a propósito do caos interior que ficou dentro de mim depois de ver este filme. Um caos feito de imagens tão belas que se tornam difíceis de compreender e ordenar.

 

Este filme, que não é bem um filme, é um maravilhoso espetáculo de dança, uma demonstração do enorme talento de Pina e dos seus bailarinos. Este é um filme para Pina, mas é, acima de tudo, um filme para quem gosta de contemplar o belo. Desconfio que Platão abandonaria a ideia da caverna se visse isto. A beleza não está para lá do mundo terreno, está aqui, bem dentro de nós. Quem a quiser ver tem agora um atalho: este filme.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Há uns tempos, vi um filme absolutamente maravilhoso, chamado O Homem da Sua Vida. Ontem, vi outro, Se souvenir des Belles Choses. A realizadora/atriz responsável por este meu encantamento chama-se Zabou Breitman e este post serve apenas para alertar para a obra singular e extraordinária desta cineasta.

 

Não vou comentar O Homem da Sua Vida porque já o vi há uns meses. Apenas direi que é dos filmes mais sofisticados que já vi. E consegue mostrar coisas nunca vistas, de um altíssimo valor estético.

 

Quanto ao Se souvenir des Belles Choses, talvez nunca venha a ser capaz de escrever sobre ele. Começa em tom de comédia, chega a parecer um Almodovar de princípio de carreira e, aos poucos, vai-se transformando num terrível murro no estômago. Trata da memória, ou melhor, da luta das pessoas que sofrem de doenças que afectam a memória. Mas o foco aqui é nas condições de uma resiliência sustentada pelo amor. Sofre-se muito a ver este filme, demasiado até. Por isso, este post acaba aqui, sem belas coisas para recordar.

 

Quem quiser saber mais, veja aqui: http://filmsdefrance.com/FDF_Se_souvenir_des_belles_choses_rev.html

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Fevereiro 2017

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Tags

mais tags