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Poucas vezes usei o pedrices para falar de filmes. E quando o fiz foi porque tinha visto algo que me apeteceu destacar. Desta vez é bem diferente, estou a escrever sobre um filme porque o acho péssimo e, ao mesmo tempo, para que haja opinião divergente daquela que tenho encontrado por aí.

Não consigo compreender a aclamação que é feita deste filme. Por isso, vou começar por descrevê-lo: neste filme vemos… imagens de Ceausescu, as verdadeiras. Trata-se de um trabalho de colagem de imagens reais que, provavelmente, nunca tinham estado juntas. Imaginem que alguém ia para os arquivos da RTP e pegava em todas as imagens que houvesse do Salazar, depois montava-as e apresentava isso como um filme. Pronto, foi isto que foi feito. Ah, mas esperem, esqueci-me de dizer que não vale acrescentar nada, não vale contextualizar, nem uma legenda que explique em que ano se está e que país é aquele que o ditador está a visitar, ou que presidente é aquele que ele foi receber ao aeroporto. E outra coisa que é capaz de ser importante: como as imagens são de arquivo, imagens do tempo de uma ditadura, só vemos a parte "boa", por assim dizer, do regime. Portanto, no nosso imaginado filme, veríamos um Salazar exemplar, grande diplomata, grande milagreiro das finanças públicas, grande líder e inspirador do povo. Claro que não veríamos nada da brutalidade da PIDE e coisas dessas que, no fundo, não interessam nada.

Bom, é assim este filme sobre o ditador da Roménia. O que vemos é um Ceausescu a chegar ao poder, a discursar, a ser amigo de todos (comunistas e capitalistas), a conduzir o seu país, a ser aclamado pelo partido, a parecer uma boa pessoa mas que joga muito mal volei, a receber flores - claramente o povo adora-o, a ser fiel às suas ideias. E, de repente, ele está preso! Não sabemos bem porquê mas está preso, como se ele tivesse feito algo de mal. Se fez, foi fora do filme mas… então, para que serve este filme?

Parece-me que há aqui uma intenção óbvia de tratar isto como uma autobiografia. Pelos visto, é esse o conceito. Por isso, não podia ser mais do que aquilo que é, não podia mostrar o lado "mau". Pronto, ok,  mas assim eu não consigo perceber qual é a diferença entre isto e os filmes de propaganda que, certamente, o regime romeno fez. Pois, é isso, não há diferença porque o material deste filme são… esses filmes. Mas todos juntos, num mastodonte de 3 horas de aclamação de um ditador.

O que mais me surpreende, no entanto, é a receção ao filme. Os críticos, pode ver-se no site do público ou do expresso, só para começar, tecem os mais rasgados elogios. Falam da realização (mas qual realização? Todo o filme é apenas montagem de cenas que foram filmadas ao longo dos anos), falam do documento (mas qual documento? Não há uma data, uma legenda, numa opção que só posso considerar estúpida, porque nada de mal viria ao mundo, ou ao filme, se tivesse uma simples legenda a dizer, por exemplo, o ano e o país em causa), falam de uma lição (mas qual lição? Quem aprenderá seja o que for se não conhecer já a história?). Chega-se até a dizer que este filme é uma denúncia. Como?? Onde? Em quê?

Desculpem lá mas… é preciso saber bastante de história para compreender este filme, para ver ali uma crítica. Assim, como está, é uma nulidade. E, ainda por cima, é um filme perigoso porque mostra um lado cor-de-rosa de uma realidade que tinha muito de negro.

Como reagiriam os críticos e intelectuais se isto fosse sobre Hitler? Se se omitisse de uma biografia de Hitler o que ele mandou fazer?... Creio que a resposta é óbvia, já vi críticas a filmes por retratarem Hitler com alguma humanidade. Aqui, vemos 3 horas de um Ceausescu a quem não se aponta um dedo, e os elogios chovem.

Sinceramente, nem o próprio faria uma autobiografia tão vazia. No mínimo, colocaria legendas.

P.S.: Admito que se impõe uma pergunta: ah e tal, tás para aí a falar mal mas estiveste a vê-lo durante três horas?? Não pode ser assim tão mau!". Pois, a verdade é que o filme tem um interesse notável enquanto coleção de imagens. É até fascinante vê-las, mas se calhar podia-se pedir a um estagiário para as ir buscar e a gente via-as, o efeito era mais ou menos o mesmo....

Por outro lado, quem tiver livros do Tony Judt ou do Timothy Garton Ash ao lado, e for parando para os consultar também vai poder usufruir do tal lado de documento. E é isso que mais me faz pensar: que oportunidade perdida!

Já no fim deste texto, encontrei isto, e gostei:

http://c7nema.net/index.php?option=com_content&view=article&id=6470%3Athe-autobiography-of-nicolae-ceausescu-a-autobiografia-de-nicolae-ceausescu-por-joao-miranda&

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