Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Há livros que sabemos o que são mesmo sem os lermos. Podemos até falar sobre eles com alguma propriedade e, no entanto, nunca os termos conhecido realmente. Este é um desses casos. Muitos sabem o que é o big brother e tem noção do que “orweliano” pode querer dizer. Acontece muito com estas chamadas distopias, o número de leitores é bastante diferente do número daqueles que conhecem a história. E isto não deixa de revelar algo sobre a qualidade dessa mesma história, ou do seu poder. Infelizmente, na minha opinião, esses livros também podem ser fracos em termos literários. É o que se passa com o Nós de Zamiatine ou o Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, ambos comentados aqui no pedrices, ambos livros em que apreciei a importância da história, mas em que a leitura não foi propriamente agradável.

1984 distingue-se por ser um livro que leva mais a sério as suas premissas, que literariamente não é extraordinário mas está muito bem escrito, que se preocupa não só em ser coerente consigo próprio mas também com  o mundo em que se inseria, na época do autor, e em que se inseriria, se esta distopia se concretizasse. Até uma nova língua Orwell inventa, e usa-a durante o livro, dedica-lhe um apêndice, explica-nos com assinalável detalhe como ela funciona.

Escrever livros sobre algo que afeta todas as dimensões da vida e à escala planetária, é uma tarefa gingantesca. Por isso, normalmente usam-se pequenos microcosmos que sejam representativos do todo, e daí tiram-se as consequências para o resto do conjunto. Mas Orwell atira-se com coragem à tarefa de explicar todo o mundo (até com o requinte de um ensaio sobre geopolítica e geoeconomia). E nem sequer se fica por apenas um dos lados, explicando o ponto de vista do estado totalitário do Grande Irmão, mas também o ponto de vista dos seus detratores. As teses são, aqui e ali, forçadas. Especialmente a ideia de que a multiplicação do bem estar leve a cidadãos mais conscientes e mais exigentes em termos políticos. No entanto, raramente ficamos com a ideia de que aquilo que Orwell preconiza é completamente descabido.

Não é, de facto, preciso ler 1984 para poder falar sobre ele, ou saber do que ele trata. Mas é um livro demasiado importante para não ser lido, e lê-lo é uma experiência quase radical, de imersão num mundo alternativo, que toca o nosso de tantas formas que, no limite, é capaz de criar algum embaraço. Ainda bem, se assim for.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já há muito tempo, escrevi eu aqui no pedrices que andava a ler uns contos de Bolaño em espanhol, e que dava para perceber que ele era um grande escritor. Os contos eram realmente viciantes e diferentes do habitual.

Agora estou a olhar para este Os Detetives Selvagens, um livro de 500 páginas que se fosse um livro de contos, e em grande medida até o é, eu provavelmente consideraria excelente, e não consigo evitar esta sensação de que estive a assistir a um enorme exagero.

Bolaño é um grande escritor. E isto é pura literatura, de grande nível. Certo. Mas Bolaño devia também ser o primeiro admirador de si próprio. Posso estar a ser injusto, claro, mas é a sensação que me dá. Escreve tanto, tanto, que enjoa. As ideias repetem-se, os tiques estilísticos são muitas vezes os mesmos, a história tem um rumo tão desordenado que parece pretender ser um puzzle só porque o efeito de ser um puzzle é giro e provoca sensação.

Mas claro que no meio disto se percebe que há ali uma escrita assombrosa. O livro é quase todo constituído por fragmentos (e nem sequer acho interessante a tarefa de tentar dar-lhes sentido) e, por isso, pode ser lido como se leem contos. Aí sim, há grandes histórias e o livro chega a ser brilhante.

Mas 500 páginas disto é claramente chover no molhado. Ao princípio, enquanto esta sensação não se instala, especialmente na primeira parte do livro, que tem uma estrutura de diário, a leitura é altamente viciante e agradável, pena é que dure apenas cento e tal páginas e depois comecem os fragmentos, quase até ao fim, altura em que é retomado o diário. Tarde demais, o enjoo já se instalou.

Grande livro, sim senhor, grande escritor, sim senhor. Mas menos…

Autoria e outros dados (tags, etc)


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Janeiro 2012

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Tags

mais tags