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Infelizmente, só há muito pouco tempo ouvi falar de Musil. Talvez um pouco antes de ter saído o primeiro volume de O Homem Sem Qualidades. Nesse, terei que dar uma olhadela, para perceber se, para já, o vou ler ou não. Uma boa forma de entrar no universo musiliano é começar por este seu primeiro romance que, por acaso, até é relativamente breve.

 Musil tem uma escrita sólida e dura, com escolhas de palavras que provocam um efeito forte no leitor. Os acontecimentos vão sendo revelados a um ritmo quase cirúrgico, num encadeamento que causa estranheza e apreensão, como não me lembro de sentir desde Kafka.

 A forma como Musil penetra nos pensamentos dos seus personagens aparece como quase indecente. Ao mesmo tempo, parece ser este, um romance à procura das palavras. Há muito de indizível, de inexplicável, de desconhecido. Se o jovem Torless parece ter medo dos seus pensamentos, daquilo que realmente sente, também Musil parece rodear todas as hipóteses, passar por várias palavras até, finalmente, atingir conclusões que, mesmo assim, mostram mas não explicam.

 O jovem Torless aparece como uma figura solitária na teia dos seus pensamentos, pouco preso às acções mas inextrincavelmente comprometido com as suas reflexões. No entanto, muitas vezes, deixa-as para depois. Abandona-se a atitudes que só são suas porque ainda não teve a coragem de as renegar. Mas renegá-las é trair-se. De contradição em contradição, de pausa em pausa, Torless vai-se descobrindo naquilo que vê os outros serem e ele não quer ser. Kant, a matemática, os livros, tudo são pretextos para Torless descobrir que há um rumo distante, um ponto para onde poderão convergir todos os seus múltiplos desvarios. Mas mantém-se à distância, porque não sabe lá chegar, ou não quer lá chegar. A mestria de Musil atinge pontos quase insuportáveis nesta busca desesperada, não se sabe de quê. Ou então, se calhar, sabe-se sempre, porque a verdade, ou a profundidade das coisas é como um olhar: “(…) é verdade que se pode conhecer muito melhor uma pessoa pelo olhar do que pelas palavras…”. E, por tudo isto, o livro de Musil é um olhar, é a descrição de impressões, de confusões e de quimeras. A violência e a doçura contrariada fundem-se numa exploração detalhada, demasiado detalhada e insistente nos seus contornos mais cruéis. Porém, evita-se o confronto com o concreto, nada se explica, o indizível torna-se a forma de expressão de Musil, assumidamente umas vezes, num sussurro noutras.

 De página em página, caminhamos para um poço que penetra fundo não se sabe bem onde mas com a certeza que o caminho para dali sair, se existe, está ao alcance de poucos. Não cabe ao autor dar respostas, cabe ao leitor encontrar o que quiser, ou puder: “Sei que as coisas são as coisas e assim será sempre, e que eu as verei sempre, ora de uma maneira, ora de outra. Ora com os olhos da razão, ora com os outros… E nunca mais tentarei comparar as duas coisas…”.
 

P.S. Acredito que O Homem Sem Qualidades seja um dos expoentes máximos da literatura, e isso tudo... Mas não haverá nada a dizer sobre este Torless? João Barrento faz uma interessantíssima introdução, em que fala de Musil e d'O Homem Sem Qualidades, justificando até a tradução do título. Uma introdução que serve para falar de tudo menos do livro que se vai ler, e é pena.

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E pronto, já está! Muitos anos depois, não sei mesmo quantos, voltei a conseguir ler um livro de António Lobo Antunes até ao fim. Para quem eventualmente siga este blog, deverá já ter pensado que eu tinha desistido, depois do post que aqui deixei sobre o autor. Não desisti e consegui.

Fica o registo, porque sobre o livro não há muito a dizer. Creio que escrevi tudo o que havia para eu dizer sobre ele no tal post anterior. Um pensamento que me ocorreu entretanto: daqui a muitos anos, se alguém quiser ler um autor genial, António Lobo Antunes poderá ser uma referência, uma escrita única, que leva um género, o seu, até às últimas consequências (e não tanto neste mas mais nos últimos, como ele diz, desde O Esplendor de Portugal). No entanto, se alguém perguntar, que livro dele devo eu ler? A resposta poderá ser: não interessa, qualquer um, e isto diz muito sobre um autor, especialmente um que tanto fala do medo de se tornar repetitivo. Não sei se se repete ou não, mas sei que a insistência no virtuosismo literário, em detrimento da substância daquilo que é dito, poderá levar a algo parecido com a repetição, o cansaço… do leitor.

Curiosamente, numa entrevista recente, a autor declarou que os livros mais antigos, por ele, podiam ir todos para o lixo. Ainda bem que, muitas vezes, os livros conseguem fugir dos seus escritores. Mas, neste caso, talvez então António Lobo Antunes devesse escolher apenas um, para ficar publicado, é que parece que neste, ou noutro qualquer, já está quase tudo o que o escritor tem para mostrar.

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