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Pensei melhor. Em vez de, tal como tinha prometido, vir a escrever um texto sobre os terríveis acontecimentos de Kalavrita na 2ª Guerra Mundial, achei que era melhor ser o Ricardo a fazê-lo. E é também um momento especial poder partilhar o meu blog com ele. Volta sempre!

 

 

O Holocausto de Kalavrita

A melhor forma de chegar a Kalavrita (na região de Achaia, no norte do Peloponesso) é apanhar a famoso comboio que, partindo de Diakopto, numa lenta ascenção, nos leva pelo grande desfiladeiro de Voraikos, acompanhando o rio com o mesmo nome, numa viagem de cerca de 22 kms inesquecíveis(e assustadores), de que já se falou aqui. A viagem dura cerca de uma hora e, à chegada à estação, estamos praticamente no centro da vila.

O museu é muito perto. Inaugurado em 2005 com o nome de Museu Municipal do Holocausto de Kalavrita, ocupa o lugar da antiga escola primária, onde no dia 13 de Dezembro em 1943, conhecido por “Segunda-Feira Negra”, os nazis cometeram uma das terríveis atrocidades da Segunda Guerra Mundial: o assassinato de cerca de 500 homens e crianças.

O museu / escola primária preserva a terrível história desta pequena povoação, primeiro no início do século passado, onde, pelas fotografias e documentos, quase só vemos semelhanças com uma qualquer das nossas vilas do interior do país do mesmo período (mesmo as pessoas são parecidas connosco), e depois, com o início da guerra, que naquele canto da Europa só se fez sentir verdadeiramente com a invasão da Grécia pela Itália. É nessa altura que tudo muda, a começar pela ocupação de Kalavrita pelos italianos em Maio de 1941 (que chegam a transformar a escola primária e pátio de recreio num de campo de concentração). Os italianos mantiveram o controlo militar do Peloponesso até ao Verão de 1943, aquando da capitulação da Itália. Depois, abandonaram a Grécia. As forças alemãs passaram então ao ataque, numa tentativa de tomar o mesmo território. Para os nazis, a Resistência grega era uma ameaça crescente, quer por estar espalhada por toda a região em volta de Kalavrita (montanhas quase inacessíveis), quer pelo receio de que, segundo rumores, os Aliados estariam a preparar uma invasão pelo sudoeste do Peloponeso. Em Outubro de 1943, a Resistência conseguiu capturar  83 soldados alemães. É possível que este facto, e o malograr das negociações que se seguiram, tenha contribuído para aumentar os receios e frustrações alemãs quanto ao objectivo de um controlo rápido do Peloponeso, enfurecendo os invasores mais ainda. O certo é que, depois disso, os alemães decidiram por em prática aquilo que ficou conhecido como “Operação Kalavrita”, desenhada há muito pelos oficiais nazis e a ser executada pela Wehrmacht (i.e., o conjunto das forças armadas alemãs unificado por Hitler desde 1935 e que agregava o exército, a marinha e a força aérea), passando a pente fino várias vilas e aldeias da região em busca de membros ou apoiantes da resistência sem olhar a meios. A 7 de Dezembro, na montanha de Helmos, a Resistência executou os 83 soldados nazis cativos. No dia seguinte, os oficiais alemães emitiram uma ordem de execuções em massa para as aldeias de Kerpini, Roghi, Zahlorou, Souvardo, Vrahni e para o Mosteiro Mega Spileo. A 9 de Dezembro, chegavam a Kalavrita.

Primeiro, disseram à população que procuravam apenas os membros da Resistência. Depois, exigiram que lhes revelassem o paradeiro dos mesmos. Depois, incediaram o hotel e algumas casas que lhes pareceram suspeitas. Depois, impuseram um recolher obrigatório e a proibição de sair da vila. Seguiu-se a pilhagem de tudo o consideraram de valor, bem como a execução todos os animais. Contudo, a 12 de Dezembro, perante uma população cada vez mais aterrorizada, anunciaram que sairiam de Kalavrita no dia seguinte.

A 13 de Dezembro, segunda-feira, ao nascer do sol, os alemães fizeram os sinos da igreja soar descontroladamente, para que toda a população se reunisse. Depois, de armas em punho, procederam como nas hediondas histórias que já conhecemos sobre os campos de concentração, separando toda a população: os homens e os rapazes (com mais de 13 anos) foram obrigados a entrar para as duas salas da direita da escola primária, e as mulheres e crianças para as outras duas, à esquerda. Depois, enquanto este último grupo ficou trancado e vigiado dentro da escola, levaram o grupo dos homens e rapazes pela porta das traseiras para o monte Kapi e executaram-nos. Depois atearam fogo a toda a vila. Desesperadas, ao aperceberem-se das chamas e do fumo sufocante, as mulheres conseguiram finalmente derrubar as portas da escola e fugir. Aguns alemães ainda se encontravam à volta da escola, mas não dispararam. Bebiam vinho e contemplavam o caos e a destruição. Alguns, riam-se. Só mais tarde estas mulheres descobririam os corpos dos filhos e dos maridos, dos pais e dos irmãos, dos amigos, todos juntos numa grande poça negra no sopé do monte Kappi.

No museu, há testemunhos impressionantes em vídeo (legendados em inglês) dos sobreviventes, sobretudo destas mulheres: da absoluta violência de tudo aquilo, da descoberta dos corpos, do choque, e depois do esforço doloroso e inimaginável de, sozinhas, os arrastarem pelo chão até ao cemitério, um a um, com a ajuda de alguma manta ou cobertor que não tivessem ardido no incêndio, e de como servindo-se apenas de paus ou mesmo de mãos nuas, tentavam partir o chão gelado (o inverno já se tinha instalado em força) para enterrar os cadáveres, antes de os cães esfomeados e das aves de rapina aparecerem. E falavam também na vida depois desse dia, da miséria, da fome...

A última sala do museu, quase sem luz, está coberta por fotografias com os rostos dos mortos. Quase cinco centenas. Mas de muitos não se encontrou qualquer imagem. Desses, está só um espaço em branco e um nome numa grande placa. No centro da sala, numa caixa envidraçada ao nível do chão, jaz uma bandeira nazi.

Ao sair do museu, uma placa convida-nos a ir até ao lugar da execução, no monte Kappi (agora um memorial, com o nome de Calvário), e a acender uma vela. Não é longe, apenas umas centenas de metros.

Trata-se de um monte quase nu, rodeado de ciprestes e coroado por uma grande cruz branca, com a data 13-12-43 feita com pedras.

Na base do monte há uma placa com inscrições aos mortos, uma escultura de uma mulher vergada de dor (“Doleful Stony Mother”) 

e uma capela minúscula. O mais comovente desta capela é o tecto, tornado invisível sob o peso de centenas de lanternas ortodoxas prateadas.

 Ao deixarmos este lugar, lá do alto, lançámos um último olhar, mais demorado, sobre a vila, com as grandes montanhas ao fundo e o desfiladeiro de Vouraikos.

 Ricardo Sousa Alves

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4 comentários

De miguel a 07.04.2015 às 09:14

um belíssimo texto, que me contou uma história, terrível, que eu não conhecia.

não consegui visualizar as duas últimas fotos, será problema do meu computador?

De Ricardo sousa Alves a 07.04.2015 às 12:09

Obrigado, Miguel. De facto, fora da Grécia poucos conhecem esta historia terrível. (As últimas 2 fotos já estão disponíveis. Tenho pena de não ter fotos do interior do museu, sobretudo da última sala, mas não era permitido e respeitámos isso). 1 abraço

De Anónimo a 10.04.2015 às 20:58

Ricardo, achei esta ideia da partilha muito interessante.
Este texto está excelente.
Não conhecia esta parte da história, foi o horror. Pela forma envolvente como escreves e pelo que as fotos nos mostram, senti muita emoção.

Sempre que passo os olhos por este blog, aumento o meu conhecimento. Bjs . Lídia

De Ricardo sousa Alves a 11.04.2015 às 00:28

E estar lá em Kalavrita é ainda mais emotivo. Bjo

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