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No dia seguinte, antes de entrar no Peloponeso, o destino principal desta viagem, havia uma paragem a fazer para visitar os Mistérios de Eleusis.

A viagem entre Eleusis e Atenas fez-me pensar, como nunca, numa espécie de limbo em que me sinto quando estou na Grécia. É evidente que estou na Grécia moderna, mas ao percorrê-la estou, quase sempre, a caminho de pontes com o passado. A Grécia moderna é um portal para entrar na Grécia antiga, o que às vezes provoca alguns choques. Este percurso, em particular, é um exemplo disso. Na atiguidade era uma rota de peregrinação. Ia-se de Atenas a Eleusis a pé. Hoje, percorrendo este caminho de carro, e por fora da auto-estrada parece impossível a diferença. Bom, Atenas de facto começa a perder beleza logo que nos afastamos do seu centro histórico, isso é certo, mas quando nos fazemos à estrada e começamos a ir do Pireu até Corinto o cenário torna-se assustador. Fábricas, chaminés, barcos gigantescos. Um dos grandes portos do mundo implica uma paisagem densamente industrializada. A visão romântica de ver a ilha de Salamina ou a baía de Elefsina esbarram na realidade que está bem perto de ser um pesadelo. Junte-se a isso a sempre presente desorganização dos gregos (em termos de estrada, de falta de civismo e de lixo) e parece que nada há que nos salve. Porém, no meio da horrível paisagem eis que se chega à cidade de Elefsina e, no meio dela, a antiga Eleusis.

Eu até ia preparado: guia arqueológico aberto para fazer sentido daquelas ruínas. Mas... simplesmente não consegui. Quando se chega lá, é isto que nos aparece à frente: 

E, acreditem, por muitas ruínas que eu tenha visitado, nunca nenhumas foram tão desafiantes para entender o que era aquilo. A parte boa é que isso faz parte do encanto de Eleusis. Afinal, o que se passava ali era altamente secreto.

Felizmente, o sítio tem um museu, que é por onde devia ter começado. Diria que mais vale atravessar todo o sítio sem olhar à volta. É que o Museu faz verdadeiramente diferença. Tudo o que vi antes de lá ter entrado tive que ir rever, com olhos mais bem informados.

Uma das coisas essenciais que os Museus devem ter e em que muitas vezes falham são mapas e modelos. É precisamente com um modelo que se percebe o que era este Santuário e como foi evoluindo, desde os tempos gregos até às grandes alterações feitas pelos romanos.

 

Mas comecemos pela razão de tudo: Deméter e esta caverna:

Deméter era uma deusa particularmente importante porque a agricultura dependia dela. De tal forma que quando a sua filha, Perséfone, foi perseguida e capturada por Hádes, qua a levou para o submundo, Deméter não deixou de a procurar e "abandonou" as suas funções de deusa. A terra deixou de dar alimentos e foi necessário Zeus interceder para que Hades devolvesse Perséfone ao mundo dos vivos. O resultado foi que Perséfone, agora rainha dos mortos, passou a visitar o nosso mundo a cada primavera, altura em que o que é plantado volta a nascer. No fundo, é esta a origem das 4 estações.
Eleusis entra nesta história porque parte da ação ocorreu aqui, nomeadamente na caverna de onde saiu Perséfone para se reencontrar com a mãe. Naturalmente o local tornou-se sagrado e ligado ao culto da deusa. E daqui chegamos aos enigmáticos mistérios. Pois, exato, eram mistérios e, por isso, não consigo propriamente contar o que era porque... ninguém sabe muito bem. Mas aparentemetne era um ritual religioso secreto que por ali foi feito desde o séc VI ac até ao IV dc. Parece que envolvia danças, luzes, falos, e mesmo bebidas capazes de provocar aluncinações. Grandes nomes como o próprio imperador Augusto estiveram envolvidos nestes rituais. E Adriano e Marco Aurélio promoveram grandes obras em Eleusis.
Para se chegar aos mistérios que eram uma espécie de festival, fazia-se primeiro uma peregrinação a partir de Atenas, fazendo o caminho até ao santuário, como que percorrendo os caminhos de Deméter à procura da filha; à chegada começavam então os tais rituais misteriosos, durante dias. A parte mais importante ocorria à porta fechada, num edifício do qual só podemos ver o espaço que ocupava e imaginar com a ajuda do museu - o Telestério.Note-se que toda a gente devia participar nos mistérios mas só devia fazê-lo uma vez na vida e não devia jamais falar sobre o que lá acontecia.  

 

Foi uma visita fascinante, mas só a recomendo se se investir um pouco em encontrar o sentido das ruínas. O momento em que se começa a perceber o que aquilo era e o que lá acontecia, é como que o desvendar de um mistério.

Nota: muito do que está neste texto pode estar completamente errado. É assim a história da Grécia: múltiplas versões, as mais diversas interpretações, a revisão permanente daquilo que se acreditava... Por isso, conto uma versão que me parece equilibrada e muito minimalista, dentro das várias que fui lendo. E é sempre essa a opção quando falo de história da Grécia.
Enfim, nada como ir lá ver e pensar livremente.

Ah, e rever os velhos amigos de viagem, ou seja, o Antinoo, que encontro sempre estava por lá.

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1 comentário

De 222 a 21.11.2014 às 12:15

É ir lá (e voltar...lá) lol

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