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Espinosa é capaz de ser um dos filósofos mais inacessíveis, pelo menos no que diz respeito a ler as suas obras. Quem passar pelas primeiras páginas da sua Ética vai provavelmente ter muita dificuldade em avançar. No entanto, o seu conceito de Deus é, na minha opinião, o mais realista, e até bonito, porventura o único que vale a pena aprofundar. Posto isto, é natural que tivesse alguma expetativa em relação a este livro e à possibilidade de o mesmo me conseguir dar umas luzes sobre o filósofo. Já aconteceu com os outros livros de Yalom, um sobre Niezstche e outro sobre Schopennauer. Em relação ao primeiro, que conhecia relativamente bem, tive uma leitura mais descontraída, mais de romance, mais de apreciar as possibililidades que a ficção abria a um homem, no mínimo, complicado. Schopennauer foi diferente porque não o conhecia nada bem e, por isso, o livro foi mais informativo, mas também menos intenso em termos emocionais.

Ponto de situação que é preciso referir: estes livros de Yalom são todos muito parecidos, em estrutura e em escrita. São, até, quase esquemáticos. Só servem para nos abrir o apetite para mais, mais filosofia, mais obras dos autores. Nesse sentido, são excelentes.

Voltando agora a este Espinosa. Apreciei particularmente as histórias paralelas e o autor explica logo no início porque é que as fez assim: por um lado, acompanhamos Espinosa na altura da vida em que é “expulso” do mundo dos judeus pelas suas opiniões contrárias à doutrina vigente. Por outro, acompanhamos, no século XX um terrível nazi - Alfred Rosenberg na sua ascensão ao poder e no desenvolvimento das suas ideias antissemitas, as quais se confrontam frequentemente com a figura de Espinosa.

No final do livro, como é hábito do autor, há uma nota explicativa sobre o que é ficção e o que é realidade. Recriar um Espinosa não é tarefa fácil e fica-se com a sensação de que houve um grande esforço de equilíbrio. Talvez seja dos vários romances de Yalom o menos empolgante, mas fica-me a sensação de que também é o mais ponderado e sério.

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Catalogar este livro não é fácil. Vê-lo como romance não é convincente. Vê-lo como autobiografia é melhor, mas não se percebe onde começar a acaba a realidade. Por outro lado, talvez isso não interesse muito. Encarei-o como um ensaio. E é um ensaio sobre a morte e como é que se vive com essa ideia de que vamos morrer. Ou melhor, como é que o narrador vive com isso. Sinceramente, não é o livro mais interessante sobre o assunto. Para quem se interesse pelo tema, o livro De Frente para o Sol, de Irvin D. Yalom, acho eu, é bem mais compensador. Mas Barnes é um escritor, e Yalom um contador de histórias. Por isso, a comparação é capaz de não ser justa.

Foi o meu segundo livro de Barnes depois de ter lido o magnífico O Sentido do Fim. Claro que, se for comparar, este Nada a Temer fica a perder, mas talvez também não seja uma comparação justa. Lá está, este é um ensaio, o outro é ficção. Concluo apenas que vale a pena ler Barnes mas, para já, fico com a ideia de que é muito melhor ler a sua ficção. Mas ainda voltarei a este tema porque está cá em casa um outro livro de Barnes, e também de ensaio...

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Prenda

11.12.12

Já tenho o meu primeiro livro-prenda-de-Natal :)

 

A ver se é desta que eu consigo ler uma introdução ao estranho mundo de Espinosa e perceber alguma coisa... Se há pessoa a quem eu reconheço capacidade para isso é o Yalom. Depois digo coisas!

 

Obrigado Lídia!

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 Este foi o meu segundo livro de Yalom, depois de Lying on the bed (em português, chama-se Mentiras no Divã, e perde-se metade da piada…) e continuo a pensar que ainda bem que existem autores assim. Não só os seus livros são imensamente divertidos, no sentido de serem empolgantes e nos levarem a ler de forma compulsiva, como também são uma forma de entrar no mundo da psiquiatria e, neste caso concreto, permite conhecer um pouco desse filósofo extraordinário que foi Nietzsche.

 

Yalom é verdadeiramente eficaz na sua escrita. Vai lançando a acção, dá pequenas deixas que abrem a curiosidade para o capítulo seguinte e, como qualquer bom professor, sintetiza e reforça os pontos essenciais frequentemente. Para além disso, há reviravoltas surpreendentes no enredo, capazes de aproximar este livro de uma espécie de thriller filosófico.

 

Yalom está, no entanto, preocupado com aquilo que passa aos leitores em termos de rigor. A sua nota explicativa no final do livro permite distinguir o que é real do que é ficcionado. Em poucas páginas, esclarece tudo para que não haja dúvidas no espírito de quem leu e para que aquilo que é essencial fique registado. Esta é uma opção bem diferente da de outros autores que, ficcionando a vida de ilustres personagens, não dão ao leitor qualquer esclarecimento sobre as suas escolhas. Optando por este método, Yalom torna-se muito mais confiável do que seria se não houvesse esta nota final.

 

Não é fácil compreender Nietzsche e a sua filosofia. Se podemos, para muitos filósofos, atribuir-lhes uma ideia-força que é raiz e estrutura do seu pensamento, tal não é fácil quando a figura em causa é Nietzsche. Para além da complexidade do seu próprio pensamento, das inúmeras ramificações que o mesmo alcança e da abrangência, em termos de consequências, que se podem retirar das suas reflexões, Nietzsche é um filósofo que tem sido, ao longo do tempo, abundantemente mal interpretado, ou analisado de forma demasiado ligeira. O esforço de Yalom é notável, sendo capaz de pegar em várias das ideias de Nietzsche, criando um contexto ficcional verosímil e eficaz para as explicar. Não deixa de haver aqui a componente teórica do pensamento nietzscheziano mas a mesma é acompanhada com aquilo que vai acontecendo aos personagens, tornando-a concreta nos seus ensinamentos, mostrando para que pode ela servir, que acções podem ser desencadeadas com origem nas suas premissas.

 

Mas não é só de Nietzsche que se fala aqui, é também de Breuer e de Freud. Em grandes diálogos, de uma clareza esquemática, vamos tomando contacto com o pensamento destes homens. No caso de Freud, ele é ainda um jovem mas já se detectam aí as raízes daquilo que viria a ser um dos seus mais fascinantes objectos de estudo, os sonhos. Breuer, um dos pais da psicoterapia consegue reflectir a incapacidade que a medicina começou a sentir no tratamento de doenças psicológicas. Curiosamente, aqui, recorre a um filósofo, Nietzsche, para o ajudar. E há também o ambiente de Viena, onde começam a surgir os primeiros sinais de anti-semitismo que contribui para enriquecer a caracterização das personagens e da época.

 

Falta-me agora ler A cura de Schopenhauer,com o qual espero ter uma boa introdução a este filósofo. Para além disso, saiu há pouco tempo mais um livro, desta vez relacionado com o medo da morte. A julgar pelo que já neste é abordado sobre esse tema, baseado no pensamento de Nietzsche, não posso deixar de o ler.

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