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- Estou a ler um livro novo.

- Ai sim, qual é?

- É do Roth.

- Então deve ser bom. Gostas muito dele, não é.

- Sim, e só ele me faria ler um livro que, à partida tem muito para correr mal.

- Então porquê?

- Porque é todo em diálogo.

- O diálogo é uma arte muito difícil.

- Sim, e quando é demasiado abundante, e não muito bem feito pode tornar um texto bastante pobre. Claro que não é o caso do Roth. A verdade é que é delicioso de ler. Às vezes perde-se no norte, é preciso voltar atrás, é preciso perceber quem, afinal, é que está a falar. Mas é sempre empolgante, vivo, sabes?

- Mas tem muitos personagens?

- Sei lá, ainda não acabei. Para já, há dois, tipo, dois amantes, ou pelo menos parecem sê-lo. É como se se encontrassem uma vez por semana, ou assim. Parece que falam depois do sexo, umas vezes; ou antes, noutras. Por vezes, não chegam a fazê-lo. Os diálogos são breves, ou então longos. Como o contexto só vem através do que eles dizem, é como se estivéssemos a escutar atrás de uma porta.

- Isso parece interessante, se for bem feito.

- É o Roth, claro que é bem feito. Ainda por cima, para quem o conhece, dá para perceber aquelas brincadeiras, entra o Zuckerman, o personagem principal masculino parece ser ele próprio…

- Isso não é novidade nele.

- Mas é sempre tão bom.

- Devias tentar escrever um texto assim para o blog.

- Não, para escrever só em diálogo é preciso saber muito.

- Não interessa, podes tentar dar só a impressão.

- Posso, mas só a nível formal. Porque não?

- Ainda não disseste como se chama o livro.

- Chama-se Engano.

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2013

30.12.13

Em 2013 não consegui ler tantos livros como no ano passado. Mas fiquei perto: 64. Estes são os destaques do ano, em que oscilei entre a rendição a novos (para mim) autores:

 

- Jonathan Franzen e o fenomenal Freedom (e o excelente Correções)

- A descoberta de um escritor incrível, incrível - Nikos Kazantzakis, de Creta, cujo túmulo pude visitar no verão

- Mo Yan e o fantástico e surpreendente Peito Grande, Ancas Largas  

 

E a rendição aos  que já conhecia mas a quem gosto sempre de voltar:

 

- Orhan Pamuk, com The Museum of Innocence que saltou diretamente para a lista dos livros da minha vida

- José Saramago, a minha releitura anual. Desta vez foi o regresso ao meu livro de sempre, Ensaio sobre a Cegueira

- Philip Roth e o grandioso Teatro de Sabbath

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Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado.

 

É assim, exatamente assim, que começa aquele que é provavelmente o melhor livro de Philip Roth (ainda me falta ler muitos mas diria que este fica a par de Pastoral Americana).

Mas se alguém pensar que esta é a simples história de uma mulher traída a tentar restabelecer a sua legitimidade, não, não é bem isso:

 

Foi este o ultimato, o exasperante, inacreditável e absolutamente imprevisto ultimato que a amante de cinquenta e dois anos fez lavada em lágrimas ao seu amante de sessenta e quatro (...) agora, na proximidade do fim de tudo, estava a ser intimado a virar-se do avesso sob pena de a perder.

  

O amante de 64 é Sabbath, um personagem que não é fácil conhecer. Enfim, por mais livros que leia de Roth, há coisas às quais não me consigo habituar. Há qualquer coisa de repugnante nestes personagens mas, ao mesmo tempo, eles parecem tão genuínos (num mau sentido) que se tornam irresistívies. Roth é um voyeur. E, pelos vistos, interessa-se por espiar aqueles que são mais reles. O resultado, para quem lê, é uma surpresa constante e uma perturbação intensa que dura do princípio ao fim da história. Não me consigo habituar num sentido estranho: fico sempre incrédulo perante a capacidade de Roth escrever coisas que até seriam meio caminho andado para fechar o livro.

 

Este Teatro Sabbath tem quase 500 páginas para contar a história de  um boémio sexual, permitam-me a expressão. Uma das suas amantes regulares é Drenka, de 52, casada e com o seu quê de ninfomaníaca. É ela que abre o romance com o tal ultimato, ela, profundamente infiel, quer “fidelizar” um homem que nunca o foi, ainda por cima a partir da posição de amante (e ele também é casado). A partir daqui pode pensar-se que iremos assistir às aventuras de um Sabbah a tentar escapar ao ultimato, ou algo assim. Mas rapidamente este ultimato deixa de fazer sentido, devido a uma circunstância que, apesar de ocorrer bem cedo, não quero revelar. É no final do primeiro capítulo que essa ocorrência perturba o rumo que parecia estar a anunciar-se e que o livro começa a desenvolver-se como uma extensa revisão daquilo que ficou para trás, de quem foi Sabbath e do que foi fazendo ao longo da vida. Marcado por um insidioso desejo de morrer, descrito assim:

 

O-desejo-de-não-continuar-vivo acompanhou Sabbath até à escada da estação e, depois de ele ter comprado um bilhete, passou o torniquete bem na sua cola. Quando Sabbath entrou no comboio, sentou-se no seu colo.

 

Sabbath lança-se numa revisitação e num andar em frente, a caminho dessa vontade, que nos fazem acompanhá-lo numa viagem sem remorsos e impiedosa. Sabbath é Sabbath. O que não é lá muito bom.

 

Este é um dos livros que o autor mais gostou de escrever, dizendo que nele há imensa liberdade. Sem dúvida. Uma liberdade que chega a incomodar. Atenção, eu não sou propriamente um puritano. Longe disso. Já li Sade, Genet, até o Teleny, não sou estranho à literatura mais “pornográfica”. Só os grandes livros nos abanam assim. O choque não está nas ações, o choque está na verosimilhança das ações, no sentido preciso que elas têm, ou podem ter. Há a vida real e há a vida dos nossos pensamentos. Mas há quem viva sem limites, praticando aquilo em que pensa. Este é um livro para quem não tem medo de saber. O que não quer dizer que não se sinta profundamente chocado na mesma. Felizemente, há também o humor de Roth que torna tudo profundamente cómico, se bem que, como se sabe, o riso serve muitas vezes para sublinhar o trágico.

 

Para quem leu O Complexo Portnoy, é difícil não lembrar esse livro ao ler este. As ações e depravações de Portnoy talvez se suportassem com maior leveza. Havia qualquer coisa em Portnoy que relativizava a sua obscenidade. É um porco porque é um revoltado, enfim, coitado, podia ser este o sentimento. Mas aqui, com Sabbath, as coisas são bem diferentes. A sua idade dá-lhe um estatuto diferente mas, ao mesmo tempo, é mais inaceitável o seu comportamento. O pior é que acaba por se comportar muito pior que Portnoy.

 

Podemos pensar nele como um porco, um prevertido, um nojento, isso tudo. Que Roth consiga transformar tal personagem em alguém sobre quem vale a pena ler  é, digo eu, do domínio do génio. Isso, com Roth, não é nenhuma surpresa. Mas, melhor ainda, é a forma como esse personagem odioso vai ficando connosco até se começar a confundir a repulsa com a curiosidade, a raiva com a ternura. Talvez, no fundo, Sabbath seja tão humano como qualquer um de nós. E essa não é uma lição fácil de engolir.

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Ainda Roth

12.11.12

Ontem esqueci-me do link. E fica-me mal dar notícias sem dizer a fonte:

 

http://www.lesinrocks.com/2012/10/07/livres/philip-roth-nemesis-sera-mon-dernier-livre-11310126/

 

Mais propriamente:

 

Avez-vous toujours le désir d’écrire ?

Non. D’ailleurs, je n’ai pas l’intention d’écrire dans les dix prochaines années. Pour tout vous avouer, j’en ai fini. Némésis sera mon dernier livre. Regardez E. M. Forster, il a arrêté d’écrire de la fiction vers l’âge de 40 ans. Et moi qui enchaînais livre sur livre, je n’ai rien écrit depuis trois ans. J’ai préféré travailler à mes archives pour les remettre à mon biographe. Je lui ai remis des milliers de pages qui sont comme des mémoires mais pas littéraires, pas publiables tels quelles. Je ne veux pas écrire mes mémoires, mais j’ai voulu que mon biographe ait de la matière pour son livre avant ma mort. Si je meurs sans rien lui laisser, par quoi commencera-t-il ?

 

Ainda tem o desejo de escrever?

Não. Para além disso, eu não tenho intenção nehuma de escrever nos próximos dez anos. Para ser sincero, acabei o que tinha para fazer. Nemésis será o meu último livro. Veja-se o caso de E. M. Forster, ele deixou de escrever ficção por volta dos 40 anos. E eu que continuava a lançar livros atrás de livors, não escrevo  nada há 3 anos. Prefeir trabalhar nos meus arquivos para os confiar ao meu biógrafo. Enviei-lhe milhares de páginas que são como memórias, mas não literárias, não publicáveis enquanto tal. Eu não quero escrever memórias, mas quis que o meu biógrafo tivesse material para o seu livro depois da minha morte. Se eu morresse sem lhe deixar nada, por onde começaria ele?

(a tradução é minha)

 

Tendo em conta o exemplo do Forster, que ainda por cima nos deixou tão poucos livros, até foi uma sorte que ele tenha escrito tantos....

 

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"I'm Done"

11.11.12

Philip Roth anunciou que não vai escrever mais nenhum livro. Felizmente deixa-nos uma obra extraordinária. E eu ainda tenho muitos livros dele para ler.

 

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Vários

20.10.11

Pronto, lá abandonei eu o meu pobre blog. Não é que não tenha lido nos últimos tempos. O tempo para escrever é que tem andado mais escasso. Pior, eu até vou escrevendo umas coisas, mas depois não chego a publicar.

 

Enfim, lamentos à parte, aqui fica um post que é uma manta de retalhos. São pequenas coisas que fui despejando para um documento word sobre várias coisas.

 

As Vinhas da Ira, de John Steinbeck

Já há muitos anos que não lia um livro de Steinbeck, e também já há muito que o queria voltar a fazer. Em boa hora peguei nestas Vinhas da Ira, um monumental romance sobre a procura de oportunidades num contexto de grandes dificuldades.

O final deste livro é absolutamente brutal e inesquecível. Claro que não vou contar. E não vale a pena espreitar, o efeito nunca será o mesmo, se é que se percebe.

 

Lost, a série

Pronto, vá, admito. Se calhar não tenho tempo para o blog porque passoa a vida a ver séries, né? Pois, sim, pode ser… Culpado.

Isto das séries tem que se lhe diga. Eu até não sou dos mais viciados, o meu problema é outro: não consigo ver um episódio esporádico. Se gostar, tenho que ver tudo. O que, no caso que se segue, não é nada bom… O texto, a partir do próximo parágrafo, foi escrito em momentos diferentes:

- quem nunca viu não deve ler o texto que se segue -

 Sinceramente, apesar de já ter visto quase todos os episódios (faltam apenas dois para chegar ao fim), ainda não sei se me posso considerar um fã da série LOST.

A primeira impressão não foi brilhante. Fiquei até desapontado porque tive que fazer algum esforço para ver os primeiros três ou quatro episódios. É certo que, logo ali, começam a acontecer coisas misteriosas que provocam alguma curiosidade. Por isso, lá fui prosseguindo. A certa altura, estava relativamente “agarrado”. Mas aquilo que me movia era uma curiosidade de “já agora”, bem diferente daquilo que me aconteceu com outras séries, nas quais o interesse era o grande motivo, e a curiosidade funcionava como desulpa para “vou ver só mais um”. Talvez convenha dizer que sou fão de séries como Sete Palmos de Terra (para mim, a melhor de sempre), Desperate Housewives (isso sim, um vício), ou Dexter.

Gostei muito da segunda série. Aí sim, acho que me tornei um fã. Havia a curiosidade mas havia também o interesse. Note-se que, nessa altura, ainda me parecia possível que houvesse uma explicação racional para tudo aquilo. E descobri-la era um interessante desafio.

A partir da terceira, começa a ser difícil aceitar que o desfecho não vá ter que meter o sobrenatural ao barulho. E isso traz-me um travo amargo. Nada contra o sobrenatural, mas quando ele é assumido sem reservas. O Lost parece ser sempre verosímil ou, pelo menos, há sempre essa expetativa. De qualquer forma, o final da terceira série é, para mim, absolutamente avassalador. O último episódio é o mais fascinante de todos, sendo um daqueles momentos que justificam o visionamento de todos os outros. Quando se pensa que se está a ver uma projeção do futuro e a série acaba deixando a dúvida, há ali um momento intensíssimo. Só que daí parte-se para as 4ª e 5ª séries…

Viagens no tempo, gente que não envelhece, ressureições, física e mística, religião e paganismo, tudo se começa a misturar num bolo que perde consistência. Enfim, vê-se, claro que sim, como entretenimento, e do bom, mas se fosse assim do início era muito mais honesto. Desta forma, parece que não se conseguiu dar vazão ao que se foi criando e, portanto, vem o sobrenatural explicar porque é a única maneira de o fazer.

E pronto, a última temporada. Ainda não vi um episódio de jeito. E há momentos de profundo ridículo como a missão do guardião da ilha ser… proteger a luz. Pronto, ok, faltam dois episódios e ainda bem. É que mais achas para esta fogueira iam provocar, certamente, muitos feridos.

Pronto, já vi. Epá… os meus piores receios confirmaram-se. Não conseguiram estar à altura… Foi fraco, muito fraco, especialmente pela conclusão que é dada a um tempo paralelo que se tinha criado, no qual o avião não tinha caído. Esse elemento, o único verdadeiramente interessante da série 6, tornou-se um fiasco por se assumir como uma espécie de purgatório inconsequente. Uma treta…

Claro que a série valeu a pena. Mas que fica irremediavelmente mais fraca por causa deste final, lá isso fica.

 

O Cisne Negro, o filme de Darren Aronofsky

(alguns spoilers, não aconselho a leitura a quem não viu)

Não sei muito bem se devia escrever algo sobre este filme. Por um lado, claro que sim, porque é um objeto interesantíssimo mas, por outro, não gostei de tanta coisa que não sei se vale a pena. Pois, o problema é esse: gostei muito e não gostei nada de imensas coisas neste filme.

Comecemos pelo talvez óbvio, a dança, vista por dentro, com uma câmara que acompanha os movimentos do bailado de uma forma quase indecente (aliás, esta câmara é definitivamente indecente, muito para lá das cenas de dança, e não só nas cenas de sexo. Bom, mas quanto a isso, viva a indecência!). Isto já bastava para eu querer ver o filme mas foi muito melhor do que eu esperava.

Depois há a Natalie. Acho que a interpretação é notável, ainda para mais, implicando tudo o que implicou, em termos de esforço físico de aprendizagem. Mas não é só isso, ela é aquilo que esta personagem podia ser, e é-o inteiramente. Veja-se a cena em que ela fala com a mãe ao telefone, a dizer-lhe que ficou com o papel. A alegria contida é tão extrordinariamente interpretada que fica, para mim, como uma cena clássica.

Mas, depois, há, aqui e ali, um mistério, ou um elemento de surrealismo. Enfim, qualquer coisa que parece querer levar este filme a ficar entre o The Others e o Persona. E isso era profundamente dispensável.

Há o final extraordinário também. Mas parece-me ensombrado pelos tais laivos de surrealismo que parecem só existir para dar alguma ocupação aos efeitos visuais e mostrar talento de quem os fez. É chato, é estúpido, e tira ao filme uma aura profundamente humana que ele tinha.

 

Bel-ami, de Guy de Maupassant

Um livro delicioso, com uma dessas histórias de alpinismo social como se lê em tantos outros romancistas do séc. XIX. Só que este é um dos melhores.

 

Paris, o filme de Cédric Klapisch

Quando escrevi este post não sabia que, alguns meses depois, iria voltar a Paris J:

Um filme que vale pela cidade, antes de mais. Depois, há o que acontece. Ou melhor, o que não acontece. Não há bem uma história, não há bem personagens bem construídos. Há momentos, acontecimentos, aqui e ali, na vida de algumas pessoas. E vamos assistindo a tudo isto da mesma forma que, no final, um dos personagens percorre Paris de táxi e se vai cruzando com os outros. Assistimos e revemo-nos, num ou noutro caso. Ou não. Este não é um filme de exemplos ou de lições, é apenas um filme sobre aquilo que acontece, ou vai acontecendo, tendo como pano de fundo uma cidade que é, como sempre, ela própria, uma grande personagem.

 

The Humbling, de Philip Roth

Mais um livro de Philip Roth e, desta vez, creio que é um livro a aconselhar a quem quiser conhecer este escritor. Em primeiro lugar, por ser bastante pequeno, mas, por outro lado, contém um pouco de tudo o que Roth é capaz de fazer.

A história é curta e limitada. Desenvolve-se em três atos, sendo que, no primeiro, temos um Roth clássico, a desenvolver os seus personagens. Depois, no segundo, é a estranheza que se começa a desenvolver, quando o improvável começa a acontecer e a mudar tudo. O terceiro ato, leva-nos ao Roth provocador, com descrições sexuais ao nível do Portnoy.

O livro é limitado porque estes personagens poderiam ser desenvolvidos a um nível muito maior. Num livro de 300 ou 400 páginas, muitos dos acontecimentos que aqui mais marcam seriam apenas episódios. Neste caso, tornam-se o principal da história. Não sei bem até que ponto isso é bom. O que sei é que este é um livro para ler de um trago, para nos prendermos apenas naquilo a que a história nos leva. É um livro de liberdade de um autor que já fez tanto e tão bem que não precisa de justificar linha a linha as opções que toma.

À parte algumas inverosimilhanças, e eu não sei até que ponto isso interessa aqui, há nestas breves páginas uma espécie de peça de teatro, um livro que se lê no mesmo tempo em que se vê uma peça, um livro que termina com uma perfeição formal impressionante. Mesmo quando é previsível, Roth é um mestre.

 

No Coração desta Terra, de J.M. Coetzee

Um dos melhores livros de Coetzee, ao nível de Desgraça e A Idade do Ferro. Frio, seco, brutal, sempre brutal. Frases inesquecíveis de um personagem que acompanhamos sem perceber onde está o real e o imaginado, com o estilo concretíssimo de Coetzee. Como é que algo tão bruto pode ser tão belo? Como é que Coetzee consegue ter um estilo tão único e vincado, parecendo que não tem estilo e apenas sendo simples?

ou

Acho que já esgotei os meus elogios ao Coetzee e, no entanto, pego em mais um livro dele e, de repente, tudo o que eu já disse parece pouco. Este No Coração desta Terra tem entrada direta para o top dos meus livros preferidos de Coetzee. Lado a lado com o Desgraça e com A Idade do Ferro. Porém, este é um livro muito diferente, com laivos de surrealismo que não existem normalmente no autor. Por exemplo, aqui nunca se sabe o que é real e o que é imaginado. Somos levados a explorar o interior de uma personagem de uma forma tão íntima que é perturbadora. Mas sempre sem sabermos onde está a fronteira entre aquilo que é uma alucinação, ou um desejo, e aquilo que efetivamente aconteceu.

Mas o mais interessante disto é ficar a pensar: como é que algo tão bruto, tão cru, tão perturbador, pode ser tão belo? Como é que um livro tão desencantado pode ser tão extraordinário?

É Coetzee… Pois.

 

 

 

Auto-de-Fé, de Elias Canneti

Este livro provocou-me uma curiosidade enorme. Vi-o nas livrarias e apaixonei-me logo por ele. Li as primeiras páginas e fiquei encantado. Continuei a ler, até ao fim da primeira parte, completamente fascinado.

Depois. Foi-se. Parece que o livro que eu estava a ler morreu e se transfomou numa coisa bizarra e sem interesse.

Pode ser muito bom na mesma mas, para mim, acabou quando acabou a primeira parte.

 

Solaris

Epá, desisti quando já ia em cento e tal páginas. Não, não é para mim. ‘Bora ver o filme do Tarkovsky.

 

A Melhor Juventude, o filme de Marco Tullio Giordana

Este filme, divido em duas partes de umas três horas cada, merece cada segundo da duração que tem. Ainda bem que me deu na cabeça para tentar vê-lo. Nunca mais pensar em não ver um filme por ser demasiado grande. Como diz o Roger Ebert na sua crítica (http://rogerebert.suntimes.com/apps/pbcs.dll/article?AID=/20050331/REVIEWS/50310004/1023) são seis horas de duração mas também são seis horas de profundidade. E que nenhum filme, quando é bom, pode ser grande demais.

 

Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira

Este livro é uma pérola. Onde é que eu andava? Pequeno mas escrito de forma tão magistral e tão cheio de literatura que apetece guuardá-lo para ler mais vezes, muitas vezes.

 

O Eterno Marido, de Dostoievsky

Há algum tempo que eu não me dava mal com um livro de Dostoievsky. Quer dizer, não é mau e tal. Mas eu espero sempre tanto dele que nem sempre acontece. Não aconteceu.

Não me interpretem mal, é um ótimo livro e aconselhável. Mas se nunca se leu O Crime e Castigo ou Irmãos Karamazov é  para esses que é urgente correr.

 

A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano

Pronto, sim, é giro. Tem uma boa estrutura, uma história que entretém. Mas porque é que este livro teve tanto sucesso? É mesmo só giro.

 

Canino, o filme

Muito mau o que foi feito com algo que podia ser tão bom. Veja-se Haneke e os seus Jogos Perigosos para perceber como este filme podia ter sido extraordinário. Este Canino não serve para nada. E é pena, uma grande pena.

 

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E outros livros

29.07.10

Li há uns dias A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de Junot Díaz, e recomendo vivamente, em particular para aqueles que não têm grandes hábitos de leitura (é imensamente divertido, sem ser superficial). O livro é extraordinário, com personagens excelentemente caraterizadas e com histórias profundamente interessantes. Lembrei-me muito do Tigre Branco mas, neste caso, o país é a República Dominicana. A história centra-se em várias personagens e vai acompanhando as suas vidas ao longo do tempo. A escrita pode ser irritante ao início (especialmente pelas notas de rodapé), mas vai-se tornando cada vez mais ágil e brilhante.

 

Outra descoberta foi José Rodrigues Miguéis. Confesso que não o conhecia e a curiosidade vem da edição recente da troca de correspondência entre este escritor e Saramago. A verdade é que as temáticas são, para mim, desinteressantes. No entanto, estão tão bem escritas que se leem com um prazer inesperado. O livro de que falo é uma coletânea de contos, Lhea e outras histórias.

 

Finalmente, li O Complexo Portnoy. Já devo ter dito por aqui que o Philip Roth é, na minha opinião, um dos melhores escritores da atualidade. Não será neste livro que isso mais se nota, porém, para quem o acompanha é imperdível. Para quem nunca leu Roth, talvez não seja o melhor livro para começar. Isto porque há tanto sexo, depravação e obscenidade que se pode ficar com uma ideia um pouco desviada do que são as obras de Roth. Numa leitura mais a fundo, este deve ser o livro onde Roth vai mais longe na análise do que é a “maldição” de ser judeu.

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