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O dia exige poema. E acho que este é belíssimo. No entanto, parece-me que as traduções para português têm um problema qualquer com a última frase, que é  o verdadeiro músculo do poema, o que lhe dá um impulso para outra dimensão. Por isso, deixo aqui o original alemão e uma tradução para inglês. 

 

Archaïscher Torso Apollos


Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,
darin die Augenäpfel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,

sich hält und glänzt. Sonst könnte nicht der Bug
der Brust dich blenden, und im leisen Drehen
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.

Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
und flimmerte nicht so wie Raubtierfelle

und bräche nicht aus allen seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du mußt dein Leben ändern.



Torso of an Archaic Apollo

Translated by C. F. MacIntyre


Never will we know his fabulous head
where the eyes' apples slowly ripened. Yet
his torso glows: a candelabrum set
before his gaze which is pushed back and hid,

restrained and shining. Else the curving breast
could not thus blind you, nor through the soft turn
of the loins could this smile easily have passed
into the bright groins where the genitals burned.

Else stood this stone a fragment and defaced,
with lucent body from the shoulders falling,
too short, not gleaming like a lion's fell;

nor would this star have shaken the shackles off,
bursting with light, until there is no place
that does not see you. You must change your life.

 

From Rilke: Selected Poems (Univ. of California Press, 1957)
 
Tirado daqui: http://unix.cc.wmich.edu/~cooneys/poems/gr/Rilke.html

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Este post é uma espécie de continuação do que escrevi sobre o livro Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. Ou melhor, foi escrito por causa dele. Apeteceu-me rever as fotos e recordações de uma viagem que fiz a Itália em 2010, na qual Adriano esteve sempre bem presente.

Aqui ficam as minhas Memórias de Adriano. E aqui fica o link para o post que originou este:

http://pedrices.blogs.sapo.pt/67093.html 

Começo pela Vila Adriana, em Tivoli, não muito longe de Roma, o local de refúgio do imperador. Aqui pode ver-se uma maquete:

A foto abaixo mostra um dos locais mais especiais e curiosos da Vila.No livro de Yourcenar, é descrito assim:

(...) tinha mandado construir para mim, no coração deste retiro, um asilo mais retirado ainda, uma ilhota de mármore no centro de um tanque rodeado de colunatas, um quarto secreto que uma ponte rotativa, tão leve que posso fazê-la girar nas suas ranhuras com uma só mão, liga à margem, ou antes, separa dela. 

E esta espécie de alameda simulava uma nascente do Nilo. Estar aqui e imaginar o que foi, é esmagador.


Este é Adriano, no Museu do Vaticano:

E Antinoo, no mesmo local:

E aqui no Museu Arqueológico de Nápoles:  

Dois edifícios emblemáticos de Roma foram projetados por Adriano. Não, não se limitou a mandar fazer, Adriano projetou realmente edifícios. Um deles é o Panteão de Roma, um dos mais antigos e bem conservados monumentos da Roma atual. Só tenho estas duas foto da fantástica cúpula vista de dentro e de um pouco do interior:

 

Mas aconselho uma pesquisa no Google imagens para uma melhor noção de como se desenvolve a cúpula e de como é extrordinário este “buraco” a céu aberto (sim, chove lá dentro!).

 

E o Mausoléu de Adriano, mais connhecido por Castelo Sant’Angelo, que é museu nacional e que já conserva pouco da memória do imperador.

 

 Voltando a Antinoo, deixo um poema:

 Antinoo

Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua divina do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra

Sophia de Mello Breyner Andresen

Que, claro, deve ser lido a olhar para uma estátua de Antinoo. Mas o melhor é que Sophia escreveu um poema sobre uma estátua específica, o Antinoo que vi em Delfos na minha recente viagem à Grécia. Ficam aqui, estátua e poema:


ANTINOOS DE DELPHOS

Tua face taurina tua testa baixa
Teus cabelos em anel que sacudias como crina
Teu torso inchado de ar como uma vela
Teu queixo redondo tua boca pesada
Tua pesada beleza
Teu meio-dia nocturno
Tua herança, dos deuses que no Nilo afogaste
Tua unidade inteira com teu corpo
Num silêncio de sol obstinado
Agora são de pedra no museu de Delphos
Onde montanhas te rodeiam como incenso
Entre o austero Auriga e a arquitrave quebrada

Delphos, Maio de 1970
Sophia de Mello Breyner Andresen

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Tenho gostado de ver o alvoroço que os poemas de Gunter Grass têm provocado, pelo menos na Alemanha.

 

Não que concorde com as suas mensagens, até acho que o último defende a Grécia com argumentos pré-históricos. Mas há qualquer coisa de fantástico ao ver que um poema ainda causa impacto. Que um prémio Nobel ainda faz poesia, e a publica num njornal, como forma de intervenção.

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Outro poema

08.03.12

O 222 deixou-me este poema num comentário ao poema da Sophia sobre a Cleopatra. Acho que merece ser promovido a post. Até porque Cavafis é um dos poetas que mais admiro.

Obrigado e aqui fica.

 

The god forsakes Antony

When suddenly, at midnight, you hear 
an invisible procession going by 
with exquisite music, voices, 
don’t mourn your luck that’s failing now, 
work gone wrong, your plans 
all proving deceptive—don’t mourn them uselessly. 
As one long prepared, and graced with courage, 
say goodbye to her, the Alexandria that is leaving. 
Above all, don’t fool yourself, don’t say 
it was a dream, your ears deceived you: 
don’t degrade yourself with empty hopes like these. 
As one long prepared, and graced with courage, 
as is right for you who were given this kind of city, 
go firmly to the window 
and listen with deep emotion, but not 
with the whining, the pleas of a coward; 
listen—your final delectation—to the voices, 
to the exquisite music of that strange procession, 
and say goodbye to her, to the Alexandria you are losing. 

- Constantine P. Cavafy (1911)

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Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Poema de amor de António e Cleopatra

  

Pelas tuas mãos medi o mundo

E na balança pura dos teus ombros

Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.

  

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Terror de te amar

 

Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen


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Mas a minha relação com o poema do post anterior não se fica por ali. Há dois anos, estava eu a passear pelo fascinante Museo del Prado, em Madrid, quando me deparo com um quadro que ilustra, precisamente, a meditação do poema da Sophia.

 

Não fazia ideia de que o quadro existia. E, no meio de tantos, acabou por ser uma sorte ter-me fixado naquele. A emoção foi forte mas, o melhor de tudo, foi sentir como o poema se aplica tão bem àquele quadro.

 

Conversión del duque de Gandía

Conversión del duque de Gandía, 1884, por José Moreno Carbonero

 

Fonte:http://www.artehistoria.jcyl.es/artesp/obras/11027.htm

 

 

 


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Nunca mais

A tua face será pura limpa e viva

Nem teu andar como onda fugitiva

Se poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser. Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossos

Tomando a tua mão na sua mão.

 

Nunca mais amarei quem não possa viver sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

 

 

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E agora, a propósito do reencontro com um poema, recordei as minhas aulas de português.

Acho que tive muita sorte com alguns dos professores de português que tive. Pelo que fui percebendo, muita gente passou pela escola sem ter aproveitado as aulas para… ler. Felizmente, desde leituras coletivas, até apresentações dos livros que cada um ia lendo, tive várias atividades relacionadas com a leitura.

Uma das minhas preferidas era ler poemas. Cada um de nós (podia ser em grupo) escolhia um poema e tinha que o ler à turma. Mas com música e tudo. Portanto, era quase uma performance à volta de um poema. A professora dava-nos umas fichas com tabelas para preencher, as quais serviam de base para comentarmos/avaliarmos a apresentação dos colegas.

Claro que isto só podia resultar em momentos lindíssimos (ok, também os houve muito maus, claro, mas vive-se bem com isso).

Lembro-me de ter lido com um colega um poema da Sophia. Quando chegávamos ao último verso de cada estrofe, líamos em coro, enquanto que o resto do poema era lido apenas com uma voz. Creio que o resultado foi simples mas belo. Ainda assim, não tão belo como o próprio poema, claro,a conferir no próximo post.

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