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Este livro tem o melhor dos defeitos: é muito pequeno. É realmente o único aspeto em que ele deixa a desejar. De resto, é um daqueles romances em jeito de autobiografia em que conseguimos entrar dentro de um personagem e conhecê-lo. Trata-se da reconstituição de um breve trecho da vida de um homem às portas da morte devido a doença. As palavras são retiradas dos seus cadernos de apontamentos e são apenas pequenas histórias. Restos tão breves que parecem incapazes de sustentar tudo aquilo que fazem sentir. Um grande livro em muito poucas páginas.

Anda por aí uma nova edição que, por acaso, me fez ter vontade de ler esta que cá andava em casa há uns 14 anos. É incrível os tesouros que uma estante pode conter em segredo durante tanto tempo. 

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- Estou a ler um livro novo.

- Ai sim, qual é?

- É do Roth.

- Então deve ser bom. Gostas muito dele, não é.

- Sim, e só ele me faria ler um livro que, à partida tem muito para correr mal.

- Então porquê?

- Porque é todo em diálogo.

- O diálogo é uma arte muito difícil.

- Sim, e quando é demasiado abundante, e não muito bem feito pode tornar um texto bastante pobre. Claro que não é o caso do Roth. A verdade é que é delicioso de ler. Às vezes perde-se no norte, é preciso voltar atrás, é preciso perceber quem, afinal, é que está a falar. Mas é sempre empolgante, vivo, sabes?

- Mas tem muitos personagens?

- Sei lá, ainda não acabei. Para já, há dois, tipo, dois amantes, ou pelo menos parecem sê-lo. É como se se encontrassem uma vez por semana, ou assim. Parece que falam depois do sexo, umas vezes; ou antes, noutras. Por vezes, não chegam a fazê-lo. Os diálogos são breves, ou então longos. Como o contexto só vem através do que eles dizem, é como se estivéssemos a escutar atrás de uma porta.

- Isso parece interessante, se for bem feito.

- É o Roth, claro que é bem feito. Ainda por cima, para quem o conhece, dá para perceber aquelas brincadeiras, entra o Zuckerman, o personagem principal masculino parece ser ele próprio…

- Isso não é novidade nele.

- Mas é sempre tão bom.

- Devias tentar escrever um texto assim para o blog.

- Não, para escrever só em diálogo é preciso saber muito.

- Não interessa, podes tentar dar só a impressão.

- Posso, mas só a nível formal. Porque não?

- Ainda não disseste como se chama o livro.

- Chama-se Engano.

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Sempre tive uma relação difícil com este livro, e tenho pena que não houvesse blogs quando o li pela primeira vez (e eu nunca tive muita queda para os diários). Se os houvesse talvez eu tivesse contado que iniciara a leitura do Memorial e que desisitira. Mais tarde, haveria outra entrada a dizer o mesmo, e depois mais outra. Mesmo com os autores preferidos se pode ter problemas e eu tive muita dificuldade em ler este, talvez o mais famoso.

Desta vez, na minha releitura anual de Saramago, não foi diferente. Tive dificuldade em avançar, e algum desinteresse. Não há defeito nenhum no livro que leve a isto, é apenas uma coisa minha. O interesse pela época histórica e pelos personagens nunca descola, embora Baltazar e Blimunda sejam inesquecíveis e maravilhosos.

Mas depois há aqueles dois últimos capítulos... Não sei bem como explicar, é como se o livro começasse de novo, ou então chegasse onde era esperado. Pura beleza, vou só dizer isto, por favor, não leiam se não conhecem a história, mas Baltazar desparece, por acidente, levanta voo na passarola e nós ficamos sem saber o que acontece. O pior é que também fica Blimunda assim mas ela, por estar dentro do livro, pode partir em busca dele e construir das mais belas páginas da literatura saramaguiana. Durante nove anos Blimunda procura Baltazar, durante algumas dezenas de páginas o mundo para e o leitor é absorvido pelo papel e não pode ficar fora do livro. Quando acaba, também se parte algo dentro de nós.

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Certos livros leem-se mais por obrigação do que por convicção mas, felizmente, no caso dos grandes clássicos, isso é quase sempre sinónimo de uma grande experiência. É difícil ler algo como este Guerra e Paz e não ficar impressionado. Desde logo, pelo rigor da reconstituição, o trabalho minucioso de construção de personagens e situações, a profundidade geral que se sente a cada passagem

Quem leu os meus outros posts sobre Tolstói sabe que eu nem sempre me senti convencido com ele. Tenho, evidentemente, o maior respeito pela sua obra, mas senti durante muito tempo que não era para mim. Até que cheguei à Karenina e tive que me render, mais do que render, ajoelhar. Com Guerra e Paz faço uma vénia profunda, mas volto um pouco à minha posição inicial. Dar-lhe-ia nota 20 se estivessemos a falar da qualidade, mas a minha sensação subjetiva não é assim tão boa. Sinto-me recompensado, mas também sinto que sofri bastante - são 4 volumes - para chegar ao fim.

Mas sim, é uma obra-prima, das maiores de sempre.

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Há livros que têm que ser lidos com urgência, sob pena de já estarem desatualizados quando lá chegarmos. Este é talvez o melhor exemplo de um livro que deve ser lido, de preferência, no dia em que saiu. Isto porque Friedman é absolutamente extraordinário na forma como identifica as tendências e tira conclusões dos casos particulares para chegar ao geral. De qualquer forma, mesmo lendo-o com atraso de anos ,é ainda altamente compensador. Por um lado, até se torna divertido perceber onde é que Friedman acertou e onde é que falhou.

Falando um pouco do conteúdo. Friedman apercebeu-se, a certa altura, que o mundo estava a ficar plano. O que é que isto significa? No fundo, trata-se da possibilidade cada vez maior de interagir com pessoas bem longe de nós, deslocalizar serviços, recorrer a outsourcing no estrangeiro, ter a mesma música em zonas completamente diferentes e distantes, vestirmo-nos de forma parecida, termos os mesmos ídolos, etc, etc. Numa expressão: a globalização tornou o mundo plano. Ora, o que é aqui feito é uma análise do fenómeno, tanto do ponto de vista das mudanças que provoca, como das tendências que se começaram a desenhar.

A perspetiva de Friedman é intensamente otimista, para não dizer eufórica. Por isso, claro que será criticado por muitos. É verdade que um pouco mais de equilíbrio, e até mesmo prudência, não ficariam mal. Mas é uma obra fascinante pelos casos que conta, pelo entusiasmo da escrita, pela capacidade de partir do micro para chegar ao global. Há tanta falta de visão no que se vê por aí que é uma autêntica lufada de ar fresco ler quem está mais interessado na realidade do que nos preconceitos.

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Espinosa é capaz de ser um dos filósofos mais inacessíveis, pelo menos no que diz respeito a ler as suas obras. Quem passar pelas primeiras páginas da sua Ética vai provavelmente ter muita dificuldade em avançar. No entanto, o seu conceito de Deus é, na minha opinião, o mais realista, e até bonito, porventura o único que vale a pena aprofundar. Posto isto, é natural que tivesse alguma expetativa em relação a este livro e à possibilidade de o mesmo me conseguir dar umas luzes sobre o filósofo. Já aconteceu com os outros livros de Yalom, um sobre Niezstche e outro sobre Schopennauer. Em relação ao primeiro, que conhecia relativamente bem, tive uma leitura mais descontraída, mais de romance, mais de apreciar as possibililidades que a ficção abria a um homem, no mínimo, complicado. Schopennauer foi diferente porque não o conhecia nada bem e, por isso, o livro foi mais informativo, mas também menos intenso em termos emocionais.

Ponto de situação que é preciso referir: estes livros de Yalom são todos muito parecidos, em estrutura e em escrita. São, até, quase esquemáticos. Só servem para nos abrir o apetite para mais, mais filosofia, mais obras dos autores. Nesse sentido, são excelentes.

Voltando agora a este Espinosa. Apreciei particularmente as histórias paralelas e o autor explica logo no início porque é que as fez assim: por um lado, acompanhamos Espinosa na altura da vida em que é “expulso” do mundo dos judeus pelas suas opiniões contrárias à doutrina vigente. Por outro, acompanhamos, no século XX um terrível nazi - Alfred Rosenberg na sua ascensão ao poder e no desenvolvimento das suas ideias antissemitas, as quais se confrontam frequentemente com a figura de Espinosa.

No final do livro, como é hábito do autor, há uma nota explicativa sobre o que é ficção e o que é realidade. Recriar um Espinosa não é tarefa fácil e fica-se com a sensação de que houve um grande esforço de equilíbrio. Talvez seja dos vários romances de Yalom o menos empolgante, mas fica-me a sensação de que também é o mais ponderado e sério.

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Hesito entre dizer sobre o que é este livro ou não dizer nada sobre a história e limitar-me a um pequeno comentário. Encontrei-o há dias, usado, a 5 euros, e nem queria acreditar porque nem sequer sabia que existia em português. Maior sorte do que encontrá-lo, foi lê-lo, isto porque Remanescente é um romance radical, na linha daquilo que gosto de sentir quando leio, um incómodo e uma perturbação permanentes.

Acho que, afinal, vou ter que dizer qualquer coisa sobre o que se passa neste livro. Por isso, quem quiser a sensação de ir completamente em branco para ele, como eu fui e recomendo que se vá, é parar de ler o texto por aqui.

O livro é escrito na primeira pessoa e ficamos a saber, logo no início que o narrador sofreu um acidente (qualquer coisa que caiu do céu) e isso levou-o a perder a memória e passar por um longo e difícil período de recuperação (coma incluído). Apesar de tudo, parece uma pessoa normal. Um dia recebe a notícia de que lhe vai ser dada uma indemnização pelo acidente, de repente, passa a ter vários milhões ao seu dispor. Ainda assim, não parece particularmente entusiasmado. Tudo muda no dia em que, na casa de alguém, vê uma racha na parede que o leva a recordar uma casa onde tinha vivido, não só o sítio mas também alguns detalhes sobre os vizinhos. Ora, é aqui que o romance começa a evoluir numa direção perturbadora. O dinheiro vai permitir-lhe montar um prédio ao seu gosto, contratar pessoas para fazerem de vizinhos e, dessa forma, reconstituir os momentos de que se lembra. O pior é que isto se torna uma obsessão - reconstituir momentos - e com consequências imprevisíveis. O leitor, ou pelo menos eu, perante isto, vai ficando surpreendido, primeiro; incrédulo, depois; fascinado, a certa altura; e furioso, no final. Não há contemplações, apenas o deixar o personagem evoluir na sua vontade. E é muito perigoso deixar à solta quem tem dinheiro para tudo. Há um enorme porquê que atravessa a leitura e que vai sendo alimentado por uma ou outra pista, mas tudo isso vai dar num enorme nada, ou num enorme leque de possibilidades, quem quiser que escolha o que sente. Não há filosofia barata aqui, mas há muitas coisas para pensar.

Fico com a impressão de que este tipo de sensação/história é algo que já vi algumas vezes no cinema, em filmes mais experimentais, ou menos convencionais. Agora isto, assim, num livro, é demasiado invulgar e, no fundo, não é fácil de catalogar em termos de gosto ou não. Não é fácil acompanhar os detalhes de algumas das recriações mas, por outro lado, não é fácil largar estas páginas.

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Unknown

Eu devia parar para escrever um post sério sobre este livro, não era? Mas não consigo. A cabeça ainda anda às voltas e não é fácil assentar ideias. A história até pode ser parva e pouco sustentada e, no entanto, não são assim, muitas vezes, as grandes metáforas? Agitar, sacudir, chocar, são as imagens de marca de Houllebecq, mas não é isso o que mais dá gozo na literatura que rompe com o óbvio e nos empurra contra as fronteiras, que nos incomoda? Houvesse mais livros assim e, se calhar, tinhamos temas muito mais interessantes para conversar. Não gostei de quase nada, não achei grande parte daquilo verosímil, mas os livros de Houellebecq ficam-me no sangue, e este ainda está a ferver.

 

P.S. A edição portuguesa já saíu, chama-se Submissão.

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 Véspera de viagem, uma corrida à estante à procura de um livro pequeno e leve (no peso, não no conteúdo). Encontrar o Philip Roth e parar de procurar - Roth é garantido, é esta a minha companhia para a viagem.

Foi assim que levei comigo este livro que, na edição portuguesa, se chama O Animal Moribundo. Bom, só não foi boa escolha no sentido de que a leitura acabou por ser tão compulsiva que, no final de uma viagem de avião entre Lisboa e Marselha, já estava praticamente lido.

The Dying Animal é mais um Roth sobre o envelhecimento, ou sobre um homem bastante velho, bastante sexual e bastante capaz ainda. No fundo, parece às vezes que Roth está sempre a escrever o mesmo livro. Porém, não sei como consegue mas essa impressão acaba logo ao fim de poucas páginas. Parece que há sempre ângulos novos, situações inesperadas, reflexões que vão ainda mais fundo. Sim, Roth é garantia de um bom livro. 

Já agora, na edição portuguesa, este livro chama-se O Animal Moribundo, mas lê-lo no original é ainda melhor, pois claro.

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Eu não sou muito dado às biografias. Se for de alguma figura histórica, ainda vá. Mas escritores, compositores, filósofos, etc… não. Prefiro a obra e, às vezes, até acho que saber alguns detalhes da vida das pessoas me estraga a experiência de usufruto da obra. Ok, isto é parvo. Mas tem sido assim.

Ora, se as biografias não são bem a minha praia, imagine-se a autobiografia.Então como é que eu vim parar a este livro, sim, uma autobiografia de Stephen Zweig? Tudo começou com o Ken Follett que me reacendeu o bichinho da história da Primeira Guerra Mundial. Do Follett passei para o A Guerra Que Acabou com a Paz e esse, logo no início, fez-me saltar para este.

E estou siderado.

Stepehen Zweig, de quem ainda só conhecia a belíssima Novela de Xadrez , trouxe-me aqui... um momento... sim, é isso...: um dos mais belos livros que li na vida. Fá-lo contando a história da sua vida numa perspetiva de europeu, de homem profundamente humanista que vê o continente perder-se nas duas guerras que o devoraram. Zweig assitiu a tudo numa tribuna de honra e depois numa de desonra (por ser judeu, por ser austríaco, por ser um intelectual, por ser um pacifista, por se recusar a odiar "o outro", por tantos motivos...).

Há episódios aqui que, provavelmente, ficarão comigo para o resto da vida: a carta que Zweig escreveu a Mussolini pedindo a libertação de um preso; a carta anónima que alguém lhe colocou no bolso aquando de uma viagem à Rússia, carta essa que lhe permitiu perceber o quanto lhe estava a ser ocultado; as amizades com grandes vultos, como Romain Rolland (é agora que me atiro de vez ao Jean Cristophe?), para dar só um exemplo; os anos de infância e a escola; a sua mania com o colecionismo; a sua vontade de fazer, de refazer, de reiventar; a comovente imagem que nos deixa o coração suspenso ao contar que a mãe, já com 80 e tal anos, teve que viver a humilhação de, por ser judia, não poder sentar-se nos bancos da rua para descansar um pouco.

Imperdível e incontornável.

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