Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


 Pode-se gostar, e muito, de uma obra que se considera estar cheia de defeitos, e alguns deles bem graves?

 

Bom, sempre achei que sim, mas nunca de forma tão radical. Quase me sinto bipolar mas tenho que confessar que, pelo menos um destes, é capaz de ser o pior livro de que mais gostei. Não são livros maus, de forma alguma, mas têm defeitos graves que me deviam ter feito gostar pouco. Mas a verdade é que não me lembro de quando foi a última vez que li dois livros no mesmo dia. Aconteceu agora. Depois de, há uns dias, ter lido o primeiro volume, fui à biblioteca, trouxe os outros dois, e li-os sem parar. O que quer dizer que evidentemente gostei muito de os ler.

O meu interesse por estes livros resulta de Frederico Lourenço ser “só” o tradutor da Ilíada e da Odisseia, as únicas traduções em verso que temos em português (de Portugal, pelo menos). Mas, para além disso, já li vários ensaios seus sobre a cultura clássica e são fabulosos (o livro Grécia Revisitada, por exemplo. E já tenho reservado, na biblioteca o Novos Ensaios Helénicos e Alemães). Posto isto, como seria um livro de ficção escrito por tão notável autor?

 Primeiro esta trilogia saíu em três livros e por esta ordem: Pode um Desejo Imenso - O Curso das Estrelas - À Beira do Mundo. Anos mais tarde, saíram todos num mesmo volume, passando a obra a chamar-se apenas Pode um Desejo Imenso. Nesse volume, a ordem é cronológica. Portanto, primeiro O Curso das Estrelas, depois Pode um Desejo imenso e, finalmente, À Beira do Mundo.

Uma vez que li a versão dos três livros em separado, é dessa experiência que falarei:

 

Pode um Desejo Imenso

Este título, lindíssimo, vem de Camões que, aliás, está presente por todo o livro. A história passa-se no mundo académico - nunca tinha encontrado um livro português que se passasse nesse contexto, tão comum em autores ingleses e americanos. Nele conhecemos o professor Nuno Galvão, um apaixnonado por Camões que vai mostrando o quanto sabe enquanto serve de personagem a uma história de professor que se apaixona pelo aluno lindo de morrer (tipo Adriano e Antinoo, estão a ver…).

Não é um livro completamente acessível. Tem um nível de erudição que chega a tornar difícil acompanhá-lo. Não pela linguagem, mas pelo excessivo academismo de algumas passagens. Nada que prejudique a leitura do romance propriamente dito, mas parece-me que Frederico Lourenço não se assumiu completamente como autor de ficcção, não abandonou a camada de académico e forçou essa componente em demasia. Acho de todo o interesse aquilo que escreve sobre Camões no livro, mas não acho que contribua para o livro de forma inteiramente positiva. Ou é romance ou é ensaio literário. Ou então o autor consegue-se juntar os dois de forma sólida. Não me parece que seja o caso. O problema está, aliás, naquilo que me parece uma certa indecisão entre uma linguagem simples ou mais cuidada. Os próprios personagens parecem pessoas normais nuns diálogos, enquanto que noutros parecem professores a discursar.

 

O Curso das Estrelas

Mais um belo título para o livro em que o escritor de ficção se começa realmente a assumir. Este segundo volume volta atrás na história. Aqui conhececemos Nuno Galvão antes de ele ser professor, sabemos da sua relação com Helena (e como terminou) e com Vicente.

A história agarra-nos e há pouco que nos distraia. A leitura torna-se voraz porque a história tem um ritmo rápido e intenso. Já não há grandes pedantismos de linguagem e o nível geral parece mais homógeneo. Fosse o primeiro livro escrito assim e parece-me que o resultado final do conjunto teria a ganhar.

Mas, a certa altura, o autor dá aquilo que me parece ser uma terrível facada nas costas do leitor. Vou explicar mas, antes disso, avisar que aquilo que vou dizer a seguir estraga completamente a experiência de leitura destes livros. Por isso, para quem não leu e pense em fazê-lo, apelo para que não leia as linhas seguintes - podem saltar para o próximo parágrafo. O que acontece e me deixou chocado é que numa passagem relativamente irrelevante lê-se que Nuno nunca tinha passado pela experiência da morte de alguém querido, só mais tarde, a morte da mãe e a morte de Filipe, o seriam. É este o problema. Neste momento, quem está a ler esta história não sabe ainda o que aconteceu a Filipe. E provavelmente, como eu, está a ler avidamente para voltar a saber dele, o que é que ele tinha, o que lhe aconteceu. O primeiro livro termina precisamente deixando-nos suspensos apensas sabendo que Filipe está doente e nem sabemos o que tem. Por isso, ficar a saber, nesta altura, que Filipe vai morrer (ainda por cima, só vamos mesmo sabê-lo na última página do último volume) é uma absoluta desilusão. Não consigo compreender esta opção. Há coisas erradas nesta trilogia, há várias opções estranhas, mas esta é, para mim, a que mais impacto negativo tem. Como se a meio de um filme me viessem dizer "ele morre no fim" só mesmo para me estragarem a experiência de continuar a viver aquela história sem saber o que vai acontecer a seguir. Não sei se o mesmo acontece na versão em que os 3 livros aparecem juntos. Se assim for, fica-se a saber disto ainda antes de Filipe aparecer na história… 

 

À Beira do Mundo

Este é o livro mais maduro, mais bonito, mais empolgante e mais interessante dos três. Aqui a ficção torna-se realmente dona e senhora da história. Há cruzamentos e coincidências, pequenos nadas que se tornam significativos, subtilezas nas ações de uns e outros, que o tornam um romance num sentido mais completo. Acho que é o único livro que pode ser considerado, de facto, de forma isolada (os outros, lidos separadamente, não se aguentam). Há mesmo um cuidado especial no início e fecho da história que é quase cinematográfico, no bom sentido.


Um último comentário sobre a edição posterior dos 3 livros num só. O autor incluíu uma parte final em que fala um pouco da sua trilogia, em forma de visita guiada. Lá ficam explicadas muitas referências e muitas opções de estilo (mostra-nos até que pensou em escrever primeiro em inglês). Na minha opinião, continuam a ser más opções para ficção.

 

Mas tudo isto interessa muito pouco quando um livro nos agarra como estes me agarraram.

Autoria e outros dados (tags, etc)


calendário

Fevereiro 2017

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Tags

mais tags