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Só para dizer que o Expresso do sábado passado tinha uma entrevista de J. M. Coetzee. O que é uma coisa rara e, por isso, um acontecimento que merece destaque.

A entrevista é curta. Mas dá para perceber bem como este autor é especial.

 

Ah, e ele vem cá!

 

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Novo Coetzee

17.04.13

Ainda não tem edição portuguesa. Por isso, é desta que eu o leio no original. Está lá em casa, à minha espera. Mas já foi lido e diz que é bom. Pois claro, é Coetzee. 

Já agora, não, não é esse Jesus, não tem nada a ver!

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Li Naipaul há muitos anos e sempre tive vontade de voltar. Especialmente porque, embora o “tema” África não me seduza nada, adorei o livro. Naipaul dá às suas histórias, e aos seus personagens, contornos tão ricos em termos de diversidade de origens (ele próprio é assim) que consegue tornar tudo muito mais sedutor do que poderia ser.

 

Finalmente, voltei a lê-lo. Neste caso, a estrutura do livro é curiosa. É um misto entre romance e livro de contos. Primeiro, lê-se uma história, depois outra e, às tantas, chega-se a uma maior, com o mesmo título do livro. As histórias são, de facto independentes, e até se passam em locais diferentes. Mas a impressão de unidade é notável. São pessoam num limbo, talvez desenraizadas, talvez só perdidas, talvez só insatisfeitas.

 

Não é, suponho, do melhor Naipaul que se pode ler, mas serve como introdução e é, de facto, uma viagem porque o poder de nos transportar para o cenários em que as histórias ocorrem é, aqui, invulgarmente poderoso.

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Vários

20.10.11

Pronto, lá abandonei eu o meu pobre blog. Não é que não tenha lido nos últimos tempos. O tempo para escrever é que tem andado mais escasso. Pior, eu até vou escrevendo umas coisas, mas depois não chego a publicar.

 

Enfim, lamentos à parte, aqui fica um post que é uma manta de retalhos. São pequenas coisas que fui despejando para um documento word sobre várias coisas.

 

As Vinhas da Ira, de John Steinbeck

Já há muitos anos que não lia um livro de Steinbeck, e também já há muito que o queria voltar a fazer. Em boa hora peguei nestas Vinhas da Ira, um monumental romance sobre a procura de oportunidades num contexto de grandes dificuldades.

O final deste livro é absolutamente brutal e inesquecível. Claro que não vou contar. E não vale a pena espreitar, o efeito nunca será o mesmo, se é que se percebe.

 

Lost, a série

Pronto, vá, admito. Se calhar não tenho tempo para o blog porque passoa a vida a ver séries, né? Pois, sim, pode ser… Culpado.

Isto das séries tem que se lhe diga. Eu até não sou dos mais viciados, o meu problema é outro: não consigo ver um episódio esporádico. Se gostar, tenho que ver tudo. O que, no caso que se segue, não é nada bom… O texto, a partir do próximo parágrafo, foi escrito em momentos diferentes:

- quem nunca viu não deve ler o texto que se segue -

 Sinceramente, apesar de já ter visto quase todos os episódios (faltam apenas dois para chegar ao fim), ainda não sei se me posso considerar um fã da série LOST.

A primeira impressão não foi brilhante. Fiquei até desapontado porque tive que fazer algum esforço para ver os primeiros três ou quatro episódios. É certo que, logo ali, começam a acontecer coisas misteriosas que provocam alguma curiosidade. Por isso, lá fui prosseguindo. A certa altura, estava relativamente “agarrado”. Mas aquilo que me movia era uma curiosidade de “já agora”, bem diferente daquilo que me aconteceu com outras séries, nas quais o interesse era o grande motivo, e a curiosidade funcionava como desulpa para “vou ver só mais um”. Talvez convenha dizer que sou fão de séries como Sete Palmos de Terra (para mim, a melhor de sempre), Desperate Housewives (isso sim, um vício), ou Dexter.

Gostei muito da segunda série. Aí sim, acho que me tornei um fã. Havia a curiosidade mas havia também o interesse. Note-se que, nessa altura, ainda me parecia possível que houvesse uma explicação racional para tudo aquilo. E descobri-la era um interessante desafio.

A partir da terceira, começa a ser difícil aceitar que o desfecho não vá ter que meter o sobrenatural ao barulho. E isso traz-me um travo amargo. Nada contra o sobrenatural, mas quando ele é assumido sem reservas. O Lost parece ser sempre verosímil ou, pelo menos, há sempre essa expetativa. De qualquer forma, o final da terceira série é, para mim, absolutamente avassalador. O último episódio é o mais fascinante de todos, sendo um daqueles momentos que justificam o visionamento de todos os outros. Quando se pensa que se está a ver uma projeção do futuro e a série acaba deixando a dúvida, há ali um momento intensíssimo. Só que daí parte-se para as 4ª e 5ª séries…

Viagens no tempo, gente que não envelhece, ressureições, física e mística, religião e paganismo, tudo se começa a misturar num bolo que perde consistência. Enfim, vê-se, claro que sim, como entretenimento, e do bom, mas se fosse assim do início era muito mais honesto. Desta forma, parece que não se conseguiu dar vazão ao que se foi criando e, portanto, vem o sobrenatural explicar porque é a única maneira de o fazer.

E pronto, a última temporada. Ainda não vi um episódio de jeito. E há momentos de profundo ridículo como a missão do guardião da ilha ser… proteger a luz. Pronto, ok, faltam dois episódios e ainda bem. É que mais achas para esta fogueira iam provocar, certamente, muitos feridos.

Pronto, já vi. Epá… os meus piores receios confirmaram-se. Não conseguiram estar à altura… Foi fraco, muito fraco, especialmente pela conclusão que é dada a um tempo paralelo que se tinha criado, no qual o avião não tinha caído. Esse elemento, o único verdadeiramente interessante da série 6, tornou-se um fiasco por se assumir como uma espécie de purgatório inconsequente. Uma treta…

Claro que a série valeu a pena. Mas que fica irremediavelmente mais fraca por causa deste final, lá isso fica.

 

O Cisne Negro, o filme de Darren Aronofsky

(alguns spoilers, não aconselho a leitura a quem não viu)

Não sei muito bem se devia escrever algo sobre este filme. Por um lado, claro que sim, porque é um objeto interesantíssimo mas, por outro, não gostei de tanta coisa que não sei se vale a pena. Pois, o problema é esse: gostei muito e não gostei nada de imensas coisas neste filme.

Comecemos pelo talvez óbvio, a dança, vista por dentro, com uma câmara que acompanha os movimentos do bailado de uma forma quase indecente (aliás, esta câmara é definitivamente indecente, muito para lá das cenas de dança, e não só nas cenas de sexo. Bom, mas quanto a isso, viva a indecência!). Isto já bastava para eu querer ver o filme mas foi muito melhor do que eu esperava.

Depois há a Natalie. Acho que a interpretação é notável, ainda para mais, implicando tudo o que implicou, em termos de esforço físico de aprendizagem. Mas não é só isso, ela é aquilo que esta personagem podia ser, e é-o inteiramente. Veja-se a cena em que ela fala com a mãe ao telefone, a dizer-lhe que ficou com o papel. A alegria contida é tão extrordinariamente interpretada que fica, para mim, como uma cena clássica.

Mas, depois, há, aqui e ali, um mistério, ou um elemento de surrealismo. Enfim, qualquer coisa que parece querer levar este filme a ficar entre o The Others e o Persona. E isso era profundamente dispensável.

Há o final extraordinário também. Mas parece-me ensombrado pelos tais laivos de surrealismo que parecem só existir para dar alguma ocupação aos efeitos visuais e mostrar talento de quem os fez. É chato, é estúpido, e tira ao filme uma aura profundamente humana que ele tinha.

 

Bel-ami, de Guy de Maupassant

Um livro delicioso, com uma dessas histórias de alpinismo social como se lê em tantos outros romancistas do séc. XIX. Só que este é um dos melhores.

 

Paris, o filme de Cédric Klapisch

Quando escrevi este post não sabia que, alguns meses depois, iria voltar a Paris J:

Um filme que vale pela cidade, antes de mais. Depois, há o que acontece. Ou melhor, o que não acontece. Não há bem uma história, não há bem personagens bem construídos. Há momentos, acontecimentos, aqui e ali, na vida de algumas pessoas. E vamos assistindo a tudo isto da mesma forma que, no final, um dos personagens percorre Paris de táxi e se vai cruzando com os outros. Assistimos e revemo-nos, num ou noutro caso. Ou não. Este não é um filme de exemplos ou de lições, é apenas um filme sobre aquilo que acontece, ou vai acontecendo, tendo como pano de fundo uma cidade que é, como sempre, ela própria, uma grande personagem.

 

The Humbling, de Philip Roth

Mais um livro de Philip Roth e, desta vez, creio que é um livro a aconselhar a quem quiser conhecer este escritor. Em primeiro lugar, por ser bastante pequeno, mas, por outro lado, contém um pouco de tudo o que Roth é capaz de fazer.

A história é curta e limitada. Desenvolve-se em três atos, sendo que, no primeiro, temos um Roth clássico, a desenvolver os seus personagens. Depois, no segundo, é a estranheza que se começa a desenvolver, quando o improvável começa a acontecer e a mudar tudo. O terceiro ato, leva-nos ao Roth provocador, com descrições sexuais ao nível do Portnoy.

O livro é limitado porque estes personagens poderiam ser desenvolvidos a um nível muito maior. Num livro de 300 ou 400 páginas, muitos dos acontecimentos que aqui mais marcam seriam apenas episódios. Neste caso, tornam-se o principal da história. Não sei bem até que ponto isso é bom. O que sei é que este é um livro para ler de um trago, para nos prendermos apenas naquilo a que a história nos leva. É um livro de liberdade de um autor que já fez tanto e tão bem que não precisa de justificar linha a linha as opções que toma.

À parte algumas inverosimilhanças, e eu não sei até que ponto isso interessa aqui, há nestas breves páginas uma espécie de peça de teatro, um livro que se lê no mesmo tempo em que se vê uma peça, um livro que termina com uma perfeição formal impressionante. Mesmo quando é previsível, Roth é um mestre.

 

No Coração desta Terra, de J.M. Coetzee

Um dos melhores livros de Coetzee, ao nível de Desgraça e A Idade do Ferro. Frio, seco, brutal, sempre brutal. Frases inesquecíveis de um personagem que acompanhamos sem perceber onde está o real e o imaginado, com o estilo concretíssimo de Coetzee. Como é que algo tão bruto pode ser tão belo? Como é que Coetzee consegue ter um estilo tão único e vincado, parecendo que não tem estilo e apenas sendo simples?

ou

Acho que já esgotei os meus elogios ao Coetzee e, no entanto, pego em mais um livro dele e, de repente, tudo o que eu já disse parece pouco. Este No Coração desta Terra tem entrada direta para o top dos meus livros preferidos de Coetzee. Lado a lado com o Desgraça e com A Idade do Ferro. Porém, este é um livro muito diferente, com laivos de surrealismo que não existem normalmente no autor. Por exemplo, aqui nunca se sabe o que é real e o que é imaginado. Somos levados a explorar o interior de uma personagem de uma forma tão íntima que é perturbadora. Mas sempre sem sabermos onde está a fronteira entre aquilo que é uma alucinação, ou um desejo, e aquilo que efetivamente aconteceu.

Mas o mais interessante disto é ficar a pensar: como é que algo tão bruto, tão cru, tão perturbador, pode ser tão belo? Como é que um livro tão desencantado pode ser tão extraordinário?

É Coetzee… Pois.

 

 

 

Auto-de-Fé, de Elias Canneti

Este livro provocou-me uma curiosidade enorme. Vi-o nas livrarias e apaixonei-me logo por ele. Li as primeiras páginas e fiquei encantado. Continuei a ler, até ao fim da primeira parte, completamente fascinado.

Depois. Foi-se. Parece que o livro que eu estava a ler morreu e se transfomou numa coisa bizarra e sem interesse.

Pode ser muito bom na mesma mas, para mim, acabou quando acabou a primeira parte.

 

Solaris

Epá, desisti quando já ia em cento e tal páginas. Não, não é para mim. ‘Bora ver o filme do Tarkovsky.

 

A Melhor Juventude, o filme de Marco Tullio Giordana

Este filme, divido em duas partes de umas três horas cada, merece cada segundo da duração que tem. Ainda bem que me deu na cabeça para tentar vê-lo. Nunca mais pensar em não ver um filme por ser demasiado grande. Como diz o Roger Ebert na sua crítica (http://rogerebert.suntimes.com/apps/pbcs.dll/article?AID=/20050331/REVIEWS/50310004/1023) são seis horas de duração mas também são seis horas de profundidade. E que nenhum filme, quando é bom, pode ser grande demais.

 

Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira

Este livro é uma pérola. Onde é que eu andava? Pequeno mas escrito de forma tão magistral e tão cheio de literatura que apetece guuardá-lo para ler mais vezes, muitas vezes.

 

O Eterno Marido, de Dostoievsky

Há algum tempo que eu não me dava mal com um livro de Dostoievsky. Quer dizer, não é mau e tal. Mas eu espero sempre tanto dele que nem sempre acontece. Não aconteceu.

Não me interpretem mal, é um ótimo livro e aconselhável. Mas se nunca se leu O Crime e Castigo ou Irmãos Karamazov é  para esses que é urgente correr.

 

A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano

Pronto, sim, é giro. Tem uma boa estrutura, uma história que entretém. Mas porque é que este livro teve tanto sucesso? É mesmo só giro.

 

Canino, o filme

Muito mau o que foi feito com algo que podia ser tão bom. Veja-se Haneke e os seus Jogos Perigosos para perceber como este filme podia ter sido extraordinário. Este Canino não serve para nada. E é pena, uma grande pena.

 

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Isto de ler tem muito que se lhe diga… Pois, isso já sabemos. Mas uma coisa que me intriga constantemente é o facto de passar tantas horas com um livro e, às vezes, pouco tempo depois, já não me lembrar de quase nada dele. O blog tem-me ajudado a gravar as minhas impressões das leituras que faço, mas, porque há muito que leio e não registo aqui, a sensação de que muito se desfaz rapidamente, continua a acompanhar-me.

 

Creio que foi Kafka que disse algo como “os livros que vale a pena ler são aqueles que nos fazem gelar por dentro”. Tenho lido muitos livros mas são poucos os que fazem isto. Pior, são poucos os que ficam verdadeiramente comigo. Por um lado é frustrante mas, por outro, porque é que me hei-de preocupar com isso?

 

Isto tudo para dizer que O Homem Lento de Coetzee tem andado aqui dentro a moer… Não é o livro de Coetzee que mais gostei (isso continua a ficar para o Desgraça – que vontade de o reler!). Porém, é um livro que não consigo esquecer. Dou por mim, noite após noite, a pensar naquilo que nele se passa. E o que é? Não sei bem. Há uma profunda reflexão sobre o que é envelhecer, sobre o ficar limitado fisicamente, sobre o amor tardio, sobre actos descabidos. Depois, há a Elisabeth, personagem de outros livros, que aparece e transforma tudo aquilo num enigma difícil de caraterizar. É Coetzee, um surpreendente Coetzee, um estranhíssimo Coetzee; um Coetzee de que nem gostei por aí além, mas que não me larga.

 

E é tão bom ficar preso num livro.

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2009

04.01.10

 

De 88 livros que li este ano (nem todos tiveram post), fica o balanço/destaque. Omeu 2009 em livros foi assim:

 

Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo

 

Continuo a pensar neste livro, de como me sentia feliz por estar a lê-lo. É raro e é bom.

 

O que diz Molero, de Dinis Machado

 

Aqui não se trata de sentir felicidade, é mesmo de rir às gargalhadas. Uma grande descoberta.

 

A Estrada, de Cormac McCarthy

 

Não é tanto o livro, é mais a escrita. Tão seca, brutal e contundente. Um autor a explorar mais, talvez já em 2010.

 

A Ponte sobre o Drina, de Ivo Andric

 

Outro que não me sai da cabeça. Um dos melhores livros que li. Só pode ter sido o melhor do ano.

 

Abril Despedaçado, de Ismail Kadaré

 

A descoberta de um grande escritor, confirmei-o depois com o Palácio dos Sonhos. Mas este Abril… o que mostra não é deste mundo. Ou é, e não se acredita.

 

A Portuguesa e Outras Novelas, de Robert Musil

 

Ainda não foi desta que li O Homem sem Qualidades. Não faz mal, enquanto houver Musil para ler, eu estou bem. Não que seja agradável, não que seja fácil. Mas porque há ali qualquer coisa, como estas histórias demonstram, que sai do que é normal conseguir meter-se nas páginas de um livro.

 

 

 

 

Para além dos livros, há autores que também li mas dos quais não me apetece destacar nenhuma obra em particular. Valem por si, basta que escrevam, eu quero ler: Pamuk, Coetzee e George Steiner.

 

E, finalmente, Saramago. Talvez só ele pudesse encontrar as palavras para explicar o que sinto quando leio os seus livros.

 

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Já não preciso, ao fim de vários posts sobre ele, de elogiar mais Coetzee. Apenas referir que se confirma, também neste, o invulgar poder narrativo do autor.
 
Elizabeth Costello é uma escritora famosa. Coetzee apresenta-nos este seu alter-ego através de uma série de palestras. Desde a literatura realista, os direitos dos animais, passando pelo sexo, por África, pelo holocausto, tudo é abordado como se o fosse por Elizabeth que, ainda por cima, na forma como é vista pelos seu filho, um dos personagens, nem sequer é muito boa a argumentar ou mesmo a falar. Há presenças constantes nestas palestras, como Joyce e o seu Ulisses ou Kafka que parece ter escrito a última palestra em conjunto com Coetzee.
 
No fundo, esta é uma obra que trata do que é ser escritor. Dos limites – se os há ou deve haver – da escrita, daquilo que é o autor perante o que constrói enquanto tal e aquilo que ele é ou pode passar a ser enquanto pessoa, da coerência entre as nossas acções e aquilo que pensamos, de dilemas entre aquilo que temos direito a fazer neste planeta (com especial ênfase nos direitos dos animais), e de tantos outros caminhos que vão surgindo, numa obra que mostra uma visão do mundo, ou melhor, de uma obra que sabe procurar, que procura no que acreditar.

 

Aqui fica um link para um interessante texto de David Lodge a propósito deste livro: http://www.nybooks.com/articles/16791

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(texto não aconselhável a quem não leu o livro)

 
Antes de mais, esclareça-se que o título original deste livro é Foe. Em português, a Ilha, é um título medíocre e desinspirado que nos veda o acesso ao que o livro realmente é até que, mais tarde, o possamos compreender pelo texto.
 
Neste livro, Coetzee, revisita o romance Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Tomando como ponto de partida uma mulher (que é também a narradora), que naufraga e vai parar à ilha onde vivem Cruso e Friday. Do que por lá se passa e de como estas pessoas vão coexistir, trata a primeira parte da obra.
 
Na segunda parte, os três já foram salvos por um navio. No entanto, Cruso morreu na viagem e, portanto, resta-nos acompanhar a vida de Susan e Friday em Londres. A forma como o vamos fazer é através das cartas que Susan vai escrevendo a Daniel Defoe, pedindo-lhe que escreva a sua história. No entanto, durante muito tempo, ela não sabe do paradeiro do escritor, nem consegue comunicar com ele. Não obstante, continua a escrever as cartas. Deste modo, vamos ficando a saber como Friday continua a viver como um selvagem e sem comunicar (cortaram-lhe a língua há muito e ele nunca desenvolveu nenhuma forma de comunicação, Cruso não achou necessário que ele conhecesse palavras).
 
Na terceira parte, o romance transforma-se numa reflexão sobre ele próprio, sobre a escrita e a vida, a realidade e a ficção. Daniel Defoe surge como uma espécie de personagem, ou de demiurgo, menos interessado na história como Susan a conta do que em desenvolvê-la noutros moldes, diringindo-a para outros factos, mais pessoais, sobre a própria Susan. O romance quase se reescreve. Da reinvenção de Robinson Crusoe, Coetzee parte para a reivenção do seu próprio livro, estando ainda dentro dele. Confuso? O conceito, sim, pode parecê-lo. A leitura, porém, é rápida e aborvente, ao estilo do que Coetzee costuma proporcionar. Talvez as duas primeiras partes o sejam menos. Para mim, apesar de escritas com a notável marca do autor, parecem só se iluminar quando surge a terceira. De qualquer modo, essa é uma opção perfeitamente defensável. E Coetzee já mostrou, noutras obras, o quanto uma página sua pode valer por um romance inteiro.

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Conheci Coetzee através de Desgraça, um livro poderosíssimo e que faz inteira justiça ao título. Desde aí que tenho a firme intenção de ler toda a obra deste autor. O livro seguinte foi A Vida e o Tempo de Michael K. que me trouxe a sensação de um reencontro com algumas histórias kafkianas.

Neste A Idade do Ferro, Coetzee fixa a atenção na África do Sul citadina (Desgraça passa muito pela rural) e mostra-nos, na forma de uma longa carta de uma mãe para a sua filha, como é viver na África do Sul sob o regime do apartheid, como é viver nesse ambiente sendo uma velha mulher, perto da morte e com uma doença terminal, mostra-nos o que é o amor no fim da vida, ou a sugestão de amor para quem já não tem energia para se apaixonar.

Coetzee é cru e cirúrgico na escrita, parecendo até não ter estilo. No entanto, a verdade é que aquilo que Coetzee nos apresenta nas suas obras, só assim pode ser mostrado. Em vez de palavras pungentes, de lirismos a puxar à lágrima fácil, com a sobriedade quase cruel que o caracteriza, Coetzee agride-nos constantemente, destruindo a nossa indiferença.

Não é fácil, e muito menos agradável, ler um livro assim, é mais fácil usar a literatura para viajar por mundos mais bonitos. Mas é assim o que Coetzee nos conta: histórias do real, do concreto, de gente que existe e, mais do que vive, sobrevive.

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