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Finalmente encontrei o Isherwood que desconfiava que existia. Não sei bem como explicar isto mas às vezes olha-se para um livro ou autor e tem-se a sensação de que há ali qualquer coisa. Depois de ter lido o Mister Norris Muda de Comboio fiquei com a sensação que tinha que haver mais e melhor. E encontrei. Este Encontro à beira-rio tem uma estrutura estranha mas que acaba por ser bastante entusiasmante. Tudo começa com uma carta de Oliver para o seu irmão Patrick, a contar-lhe que está na Índia e vai tornar-se monge. Depois Patrick responde e Oliver acaba por contar mais pormenores de como chegou a esse ponto (de conversão). O “diálogo” prossegue e, a certa altura, mistura-se também o diário de Oliver e o leque de destinatários das cartas vai aumentando. Algumas cartas lançam uma linha narrativa que prossegue e se desenvolve de formas bastante inesperadas (pela riqueza de acontecimentos em tão pouco tempo). Há personagens que nunca falam porque são apenas destinatários das cartas mas, ainda assim, acabamos por saber muito mais sobre eles do que seria de esperar. Por vezes, os mesmos acontecimentos são relatados com versões bem diferentes, consoante a pessoa a quem a carta é destinada. E acabamos por perceber que, se calhar, quem menos sabe até somos nós que temos acesso às múltiplas versões.

A escrita de Isherwodd é tão simples que se torna bela (acho que tenho que o ler em inglês) e, neste livro, fiquei com a sensação de que está tudo no sítio, não há nada desequilibrado, não há nada errado, até porque há imenso do próprio autor (isto é uma desconfiança minha mas quem segue o blog do Miguel - um voo cego a nada, acaba por saber umas coisas sobre o Isherwood). Ou seja, há contradições, há dúvidas, há decisões inconcebíveis, há fraquezas, há oportunismo, há tudo como na vida, e isto em tão poucas páginas que só lamento não ser este um romance muito maior.

 

Para além do valor literário há um outro aspeto interessante neste livro: o confronto entre uma certa forma de estar mais ocidental e as tradições da Índia. Os dois irmãos representam, de certa forma, estes dois mundos, e acabam por nos guiar numa pequena viagem por outras paragens (e outro tempo) que torna o livro ainda mais interessante. 

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Ora aqui está um livro em que sinto, em parte, o contrário do que senti com o do post sobre o Salammbô. Não é um grande livro, é demasiado curto para poder “cumprir” o que se esperaria dele, tem bastantes defeitos e, no entanto, deu-me um enorme prazer lê-lo.

Há muito tempo que andava para ler um livro de Christopher Isherwood. Especialmente por causa do filme Cabaret, a partir do seu livro Adeus Berlim (que anda lá em casa à espera). É um filme que adoro a vou revendo regularmente (é seguramente o único musical que já vi mais do que uma vez -  não simpatizo muito com o género…).

Mais recentemente, outro filme de que gostei muito, Um Homem Singular, a partir do livro com o mesmo nome, voltou a chamar a minha atenção para este escritor.

Mas só agora finalmente, o li. Mister Norris Muda de Comboio faz parte dos chamados “romances de Berlim”, pelo que tem alguma relação - nem que seja só “atmosférica” - com o Adeus Berlim. Começa com dois homens que se encontram e conhecem num comboio e, a partir daí, vai-se desenvolvendo uma estranha relação de amizade. Mas o extraordinário em Isherwood, acho eu, é o ambiente que se cria. Senti-me profundamente envolvido pela escrita simples mas cheia de subtileza. Às vezes, fiquei a pensar que estava a ler algo que podia ser três ou quatro coisas diferentes, em termos de intenção.

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