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Gostava muito de escrever um texto ponderado e com uma análise mais aprofundada. Mas, para além de não haver tempo, neste momento, é-me impossível não reagir “a quente”. Mas, vamos lá, que assim ainda é mais genuíno.

 

Acordei às 8 da manhã com o alerta no telemóvel a dizer que o Não tinha ganho. Tornou-se impossível voltar a dormir (ainda não estava na hora de acordar). E logo me ocorreram alguns pontos:

 

- Mais uma vez foi feito um referendo sobre a UE (que tanto é acusada de ser anti-referendos e anti-democrática). Mais uma vez, um país da União, através desse referendo, deu uma machadada no projeto europeu. Nunca vi nenhum líder europeu fazer tanto mal ao projeto como vi em vários referendos que foram feitos. Refiro-me ao chumbo da constituição europeia (basta lembrar a França) ou à não adesão da Noruega.

 

- Dir-se-á que a União não pode ser construída de costas voltadas para a vontade popular. Responderei que é assim que se avança, grande parte dos avanços civilizacionais não são feitos por referendo, são feitos pela convicção e coragem de alguns que conseguem ver mais longe e nos levam para a frente. Como se pode de forma tão simplista perguntar só sim ou não a algo como um projeto de união, de cooperação, de integração como aquele em que temos participado e que tem mantido a Europa em paz e (obviamente relativa) harmonia?

 

- A UE que temos, que tantos acham um fracasso, devia ser admirada só pelo simples facto de existir. Onde mais há um projeto em que países tenham abdicado de soberania para avançarem em conjunto e serem mais fortes uns com os outros do que só uns que os outros?

 

- O racismo, a intolerância, o nacionalismo xenófobo tiveram um peso neste resultado. Só por isso, porque é fácil apelar a esses sentimentos, referendar um tema com esta complexidade, e que deixa que esses temas se misturem, é um profundo disparate.

 

- As consequências dos “Nãos” nestes referendos nunca são apenas para aqueles que votaram. Nem só para esse país. Mas, mesmo assim, gregos, ingleses, franceses, irlandeses, etc, fazem referendos que põem em cheque todos os outros povos.

 

- Talvez um dos pontos mais interessantes seja o facto de os ingleses terem querido sair de uma União que não seria como é. Ou seja, Cameron negociou com a Europa uma série de exceções para o Reino Unido e, mesmo assim, o Não ganhou. Terá ganho o Não à atual União ou à União que aí viria? E como se consegue no simplório referendo acomodar essa diferença?

 

- A Europa funciona a várias velocidades e isso não é um defeito, é uma característica. É impossível que as pessoas se unam de forma simples e sem problemas, sem avanços e recuos. Por isso, a UE  pode perfeitamente viver sem o Reino Unido, a questão é que era muito melhor que estivéssemos juntos, todos.

 

- Se isto significar um contágio e houver mais países a sair não é a União que perde, são as pessoas. É cada um de nós, aqueles que gostam de viver em paz, que gostam de viajar e conhecer os nossos vizinhos, que gostam de comer comida diferente, experimentar dizer “obrigado” noutras línguas que não se conhece, ter orgulho de viver numa parte do mundo onde os valores essenciais são importantes e estão consagrados de alguma forma.

 

- A primeira consequência “explosiva” talvez não se dê na Europa mas no próprio Reino “Unido”. A Escócia, que votou maioritariamente no Sim e há tão pouco tempo decidiu manter-se no Reino “Unido” tem agora um motivo forte para se separar, uma vez que quer continuar na União. Irónico que um estado que é, no fundo, uma federação, ou uma União, seja precisamente aquele que quer sair para recuperar soberania. A Irlanda do Norte talvez possa cumprir aquilo que a história um dia há de querer ver feito, a unificação da Irlanda, uma Irlanda única, numa europa unida, sem o Reino “Unido” de Inglaterra e Gales.

 

- A falta de perspetiva histórica é uma coisa assustadora. Achar que a Europa de estados isolados é melhor que a Europa que temos vindo a construir com a UE é revelador de uma ignorância profunda. Mas o pior não é isso. O pior é que, goste-se ou não da integração europeia, há algo que é incontornável, é que os problemas que enfrentamos são, cada vez mais, globais. Precisam de respostas concertadas, precisam que demos as mãos, não que nos viremos de costas uns para os outros. A UE, cheia de problemas, pois claro, não é o problema, é, pelo contrário, uma das poucas formas que temos de encontrar soluções. Aliás, tem-se visto que cada vez que prevalecem os egoísmos nacionais é o conjunto que fica a perder.

 

- O problema da Europa não é a UE, são os europeus que preferem ser do contra do que contribuir para as soluções.

 

- O problema da falta de liderança europeia não é um problema de não haver consulta às populações, é o problema de não haver coragem de ignorar e enfrentar o populismo e seguir em frente, por um futuro melhor, e de paz.

 

- Não precisamos de menos Europa, precisamos de mais Europa.

 

Pronto, por agora chega, há dias tão tristes que parecem um sonho mau. Acima de tudo, espero que os ingleses voltem depressa!

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