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Enquanto os corpos jaziam a céu aberto, as mulheres e raparigas foram obrigadas a deitar-se de rosto para baixo, sobre os cadáveres viscosos e nojentos. Com as coronhas das espingardas, os milicianos empurraram os rostos das suas vítimas contra aquela putrefação infernal. Desta forma os restos mortais enfiavam-se nas bocas e nos narizes delas. 64 mulheres e raparigas pereceram em consequência deste ato "heroico"(… )polaco.(testemunho anónimo)

 

Hesitei muito em retirar uma citação deste livro. Pensei em retirar várias, pensei em não retirar. Depois achei que é importante. Porque este livro denuncia tanta coisa, em tantos países, que é difícil aguentar. Este episódio, para o qual, como em tanta coisa relacionada com este assunto, não há provas (mas não é difícil de acreditar em bem pior que isto), não é um caso isolado. Faz parte de um período da história bem concreto e real, o qual não ocorreu assim há tanto tempo. Mas há um problema, é que este é o período para o qual muitos de nós estão habituados a olhar como o momento da celebração, da festa, da libertação, foi tudo menos isso. Este livro relata o que aconteceu na Europa entre 1945 e 1949. E a grande festa que houve foi a da vingança, do caos, do horror.  

 

Há uns poucos anos, a pretexto de uma viagem que fiz à Normandia, li o livro Europe at War de Norman Davies. E esse livro foi responsável por uma mudança enorme na forma como sempre olhei para a II Guerra Mundial. Na altura, deixei aqui um pequeno texto a dar conta disso. Mas é com o tempo que estas coisas mais evoluem e, de facto, continuo a ter essa visão diferente, em que o fim da guerra não foi bem em 1945, e que o fim da guerra não foi bem uma coisa boa para todos. Sendo que nós, deste lado da cortina de ferro, ficámos numa posição muito mais confortável. Agora, com este Continente Selvagem percebi ainda melhor o quanto a minha visão estava distorcida. No fundo, a Europa ocidental conta a história da vitória em meia guerra, nunca fala da guerra inteira.

 

O fim da guerra trouxe o desenvolvimento espetacular à Europa Ocidental (muito ajudada pelo Plano Marshall) e mergulhou a Europa de Leste nas trevas da opressão soviética. Apesar das operações militares incríveis que houve na Europa Ocidental, apesar da luta heroica dos aliados, e apesar da resistência tenaz dos povos, só meia europa se libertou. As festas que associamos a 1945, as comemorações de vitória, a alegria das pessoas, a liberdade, tudo isso é uma imagem que reflete uma realidade mas esconde outra, porventura muito mais importante, a da vingança.

 

Na introdução deste livro, Lowe começa por nos pedir que imaginemos um mundo sem instituições, sem fronteiras, sem governos, sem escolas, universidades ou livrarias, sem cinema ou teatro, sem informação, sem transportes. Na verdade, não é imaginação, é um regresso ao passado “a história da Europa no período imediatamente após a guerra não é, como tal, uma história de reconstrução e reabilitação - é, antes de mais, uma história de queda na anarquia”. O autor diz que este é o único livro dedicado a analisar em pormenor os anos a seguir à guerra (há outros livros, nomeadamente o Pós-guerra de Tony Judt, mas a análise é mais abrangente e não detalhada).

 

Lowe não nos conta grande coisa sobre como a Europa se reergueu depois da guerra. Pelo contrário, conta-nos como ela se afundou tanto como durante a guerra, ou até mais, em alguns casos. A certa altura, este livro parece mais um desfile de horrores, um verdadeiro catálogo de crueldade, tortura, intolerância, crime. A europa mergulhou, depois da guerra, num caos absolutamente horrendo. E, claro, tudo foi muito pior a leste, nessa Europa que só se libertou décadas depois e que, agora, felizmente (goste-se ou não) está integrada (mal ou bem) na União Europeia. 

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