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Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado.

 

É assim, exatamente assim, que começa aquele que é provavelmente o melhor livro de Philip Roth (ainda me falta ler muitos mas diria que este fica a par de Pastoral Americana).

Mas se alguém pensar que esta é a simples história de uma mulher traída a tentar restabelecer a sua legitimidade, não, não é bem isso:

 

Foi este o ultimato, o exasperante, inacreditável e absolutamente imprevisto ultimato que a amante de cinquenta e dois anos fez lavada em lágrimas ao seu amante de sessenta e quatro (...) agora, na proximidade do fim de tudo, estava a ser intimado a virar-se do avesso sob pena de a perder.

  

O amante de 64 é Sabbath, um personagem que não é fácil conhecer. Enfim, por mais livros que leia de Roth, há coisas às quais não me consigo habituar. Há qualquer coisa de repugnante nestes personagens mas, ao mesmo tempo, eles parecem tão genuínos (num mau sentido) que se tornam irresistívies. Roth é um voyeur. E, pelos vistos, interessa-se por espiar aqueles que são mais reles. O resultado, para quem lê, é uma surpresa constante e uma perturbação intensa que dura do princípio ao fim da história. Não me consigo habituar num sentido estranho: fico sempre incrédulo perante a capacidade de Roth escrever coisas que até seriam meio caminho andado para fechar o livro.

 

Este Teatro Sabbath tem quase 500 páginas para contar a história de  um boémio sexual, permitam-me a expressão. Uma das suas amantes regulares é Drenka, de 52, casada e com o seu quê de ninfomaníaca. É ela que abre o romance com o tal ultimato, ela, profundamente infiel, quer “fidelizar” um homem que nunca o foi, ainda por cima a partir da posição de amante (e ele também é casado). A partir daqui pode pensar-se que iremos assistir às aventuras de um Sabbah a tentar escapar ao ultimato, ou algo assim. Mas rapidamente este ultimato deixa de fazer sentido, devido a uma circunstância que, apesar de ocorrer bem cedo, não quero revelar. É no final do primeiro capítulo que essa ocorrência perturba o rumo que parecia estar a anunciar-se e que o livro começa a desenvolver-se como uma extensa revisão daquilo que ficou para trás, de quem foi Sabbath e do que foi fazendo ao longo da vida. Marcado por um insidioso desejo de morrer, descrito assim:

 

O-desejo-de-não-continuar-vivo acompanhou Sabbath até à escada da estação e, depois de ele ter comprado um bilhete, passou o torniquete bem na sua cola. Quando Sabbath entrou no comboio, sentou-se no seu colo.

 

Sabbath lança-se numa revisitação e num andar em frente, a caminho dessa vontade, que nos fazem acompanhá-lo numa viagem sem remorsos e impiedosa. Sabbath é Sabbath. O que não é lá muito bom.

 

Este é um dos livros que o autor mais gostou de escrever, dizendo que nele há imensa liberdade. Sem dúvida. Uma liberdade que chega a incomodar. Atenção, eu não sou propriamente um puritano. Longe disso. Já li Sade, Genet, até o Teleny, não sou estranho à literatura mais “pornográfica”. Só os grandes livros nos abanam assim. O choque não está nas ações, o choque está na verosimilhança das ações, no sentido preciso que elas têm, ou podem ter. Há a vida real e há a vida dos nossos pensamentos. Mas há quem viva sem limites, praticando aquilo em que pensa. Este é um livro para quem não tem medo de saber. O que não quer dizer que não se sinta profundamente chocado na mesma. Felizemente, há também o humor de Roth que torna tudo profundamente cómico, se bem que, como se sabe, o riso serve muitas vezes para sublinhar o trágico.

 

Para quem leu O Complexo Portnoy, é difícil não lembrar esse livro ao ler este. As ações e depravações de Portnoy talvez se suportassem com maior leveza. Havia qualquer coisa em Portnoy que relativizava a sua obscenidade. É um porco porque é um revoltado, enfim, coitado, podia ser este o sentimento. Mas aqui, com Sabbath, as coisas são bem diferentes. A sua idade dá-lhe um estatuto diferente mas, ao mesmo tempo, é mais inaceitável o seu comportamento. O pior é que acaba por se comportar muito pior que Portnoy.

 

Podemos pensar nele como um porco, um prevertido, um nojento, isso tudo. Que Roth consiga transformar tal personagem em alguém sobre quem vale a pena ler  é, digo eu, do domínio do génio. Isso, com Roth, não é nenhuma surpresa. Mas, melhor ainda, é a forma como esse personagem odioso vai ficando connosco até se começar a confundir a repulsa com a curiosidade, a raiva com a ternura. Talvez, no fundo, Sabbath seja tão humano como qualquer um de nós. E essa não é uma lição fácil de engolir.

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