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(desaconselha-se fortemente a leitura deste texto antes de ler o livro)

 

Primeiro, um falso início: um episódio entre dois (meio) irmãos, em que o mais velho ensina o mais novo que não se diz “obrigado” ao receber o troco num quiosque, é que não se agradece aquilo que é nosso. Depois, o mais velho pergunta: Queres que mate o teu pai?

O ambiente fica criado. A partir daqui, instala-se uma certa estranheza e uma imensa curiosidade para saber o que levou àquilo.

No entanto, vem aí um segundo falso início, com o título “O Último Guião”. O narrador, Barnum, está em Berlim, no festival de cinema. Ele é um argumentista, aparece também um “futuro-importante pesonagem” - Peder.

O capítulo seguinte dá pelo nome de “As Mulheres”, aqui parece que o livro vai começar, pelo menos, começa a apresentação de personagens. Primeiro vamos conhecer Vera, em 1945. A 2ª Guerra Mundial está a terminar e a festa instala-se. Vera estende a roupa, um homem surge por trás dela, ela não o vê, ele viola-a. A única coisa que Vera fica a saber sobre este homem é que ele tem nove dedos.

Depois Vera deixa de falar durante muito tempo. Não diz nada a ninguém sobre o que aconteceu. Ficamos a conhecer também, A Velha, bisavó de Vera e a sua mãe, Boletta. Preocupadas com Vera, tudo fazem para descobrir o que acontecera, desconfiam de algo mas Vera disfarça a falta da menstruação, fazendo uma ferida na própria língua, com uma tesoura, para ter sangue.

É só ao fim de meses que se sabe que, afinal, Vera está grávida. O bebé nasce num táxi e vem a chamar-se Fred, o que em norueguês significa Paz.

Temos então o final do capítulo destas três mulheres. Numa casa onde não há homens, de onde eles se ausentaram e sempre se ausentam. A Velha, por exemplo, teve uma trágica história de amor com um homem que morreu numa expedição à Gronelândia

A seguir, em “Uma Mala de Aplausos”, conhecemos outro personagem – Arnold, que vive com os pais, passa por um perturbante episódio de morte aparente e perde um dedo, num acidente com uma faca. Depois disso, abandona a casa onde vive e lança-se numa vida com a qual nunca se percebe bem o que vai fazer, ou o que fez. Envolve-se com um circo, onde conhece personagens tão estranhos como o Homem mais alto do mundo ou a Menina de Chocolate.

Note-se que toda a história é narrada por Barnum, o “meio irmão” mais novo. Neste capítulo ainda, ele começa a falar do seu pai. Nesta altura, percebe-se que Arnold é o violador da mãe de Barnum mas ainda não se sabe que viria a ser também o pai de Barnum. De acordo com Vera, ela ficou com ele porque ele a fazia rir. Arnold aparece misteriosamente, sem se saber bem de onde e acaba por conseguir seduzir Vera e tornar-se seu marido, união da qual viria a nascer Barnum. O que faz com que Vera nunca veja em Arnold o seu violador é o facto de este, agora, ter a mão completamente estropiada, devido à guerra. Assim, a identidade do violador permanecerá para sempre como um mistério, supondo-se que o mesmo terá sido um soldado alemão. O próprio Barnum nunca chega a assumir que sabe deste facto, o qual vai ter consequências extraordinárias noutros acontecimentos futuros mas já anunciados por Barnum, como, por exemplo, a morte do pai, atingido por um disco na cabeça.

Barnum nasce nas últimas linhas deste capítulo, introduzindo o seguinte, chamado, precisamente, “Barnum”, constituindo este, porventura, o definitivo arranque da história.

O rapaz é pequeno, demasiado pequeno para a idade. Durante a sua vida sempre lamentará o facto e tentará as mais absurdas estratégias para conseguir crescer mais. Para além disso, o próprio nome é estranho e será motivo de embaraço para Barnum. Vamos então conhecer a vida desta família, passando pela morte da Velha e do pai, Arnold, que é morto pelo tal disco, atirado por Fred, que se vem a revelar um rapaz violento, desequilibrado e profundamente revoltado, vivendo a angústia de não conhecer o pai e acabando por matar o padrasto que é afinal o pai, algo que ele, aparentemente, nunca virá a saber. Os episódios que ocorrem neste capítulo extenso apresentam elementos extraordinários e de uma riqueza incomum, fazendo deste livro uma verdadeira saga de uma família. Por outro lado, há personagens exteriores a este núcleo que apresentam também características trágicas e histórias muito pouco comuns. Fred e Arnold aparecem como personagens malditos que provocam sofrimento e consequências terríveis nos outros. No entanto, a narração de Barnum nunca explora a fundo as culpas de ninguém, parecendo, até, indiferente, no sentido de desconhecedor, da verdadeira realidade daquilo que conta. Há mortes e acidentes; corrupção e enganos; amizades e histórias de amor; tragédias que abalam famílias e suicídios. Tudo isto sem que se aos verdadeiros culpados seja apontado o dedo. De certa forma, há certezas de que se começa a duvidar ao longo da leitura. Há impressões de que algo vai acontecer mas, afinal, já aconteceu. A história dá saltos no tempo com uma mestria admirável que só vai aumentando a expectativa. Porém, não há a expectativa de revelações ou de catarses, apenas a de acompanhamento.

O capítulo final, “O Teatro Eléctrico” faz a história avançar muito mais rapidamente e de forma bem mais linear do que até aí. O falhanço de todos, o colapso das estruturas mentais de toda a gente, vai-se instalando. Surge um novo mistério, Barnum casa com uma amiga de infância, que conhece ao mesmo tempo que a Peder. Mas Barnum descobre que é estéril e, pouco depois, a sua mulher engravida. A suspeita instala-se no leitor: é Fred o pai. Só que Barnum nunca revela o que acha, apenas em momentos parece ter suspeitas mas, acima de tudo, indiferença.

O final é outro momento extraordinário. Pode ler-se de várias maneiras, nenhuma delas como sendo um ponto final. Da última frase pode passar-se, de imediato, à primeira, para reler o livro com uma perspectiva completamente nova. Ou então, a última frase é a confirmação de que nada se contou sobre a verdade e só ali começa tudo, mas para lá do livro.

Escrever uma saga familiar do tipo da que aqui é apresentada pode ser uma tarefa, não simples, mas relativamente linear. Não é exercício de absoluto virtuosismo pegar na história de uma família e contá-la. Pode-se ser competente a fazê-lo, ou não. O facto é que o género, por si só, pode ser de alguma simplicidade: basta ir contando o que se passou. Christensen pega no género de uma forma surpreendente e, por isso, transforma esta história numa obra que se destaca pela originalidade, podendo-se quase pensar num Dickens revisitado pela modernidade.

Desde logo existe a forma como a história é narrada por alguém que ainda não nasceu. Depois, há a forma como o futuro vai sendo antecipado e introduzido. Finalmente, há um fim que pode ser um novo início e levar a uma reinvenção de toda a história. O próprio título, que parece tão claro, refere-se, possivelmente, ao tamanho do personagem e não ao facto de ele ser meio-irmão de alguém. Depois há a escrita. Envolvente e agitada, com uma mancha de texto em que os diálogos aparecem corridos, tornando a leitura compulsiva e com parágrafos tão longos que não permitem pausas ao leitor mas o envolvem cada vez mais. As referências ao cinema, ao nascimento de um escritor, à influência de Hamsum, à perda da inocência, à maldade, ao calculismo, ao papel heróico das mulheres, tudo isto se mistura num exercício portentoso. São 620 páginas de pura intensidade. Um pouco demais, há um guião completo para um filme, escrito por Barnum, que até ganha um prémio, que parece desnecessário. Há muitos episódios contados até à exaustão. Aparentemente há vontade de colocar tudo neste livro, e a simplicidade costuma ser melhor do que o excesso. E, no entanto, há tanto que fica por dizer ou explicar. Por isso, pela leituras diversas que permite, pela composição de personagens cheias de labirintos dentro de si, este é um livro inesquecível e que marca pela experiência rica que proporciona. Não só conheci a Noruega, como a Dinamarca, como até um pouco de outros países. Mas, acima de tudo, conheci um rapaz e a sua família, as histórias angustiantes de vários microcosmos que me fazem pensar que nuca nada é simples, nada é apenas superficial nem apenas profundo. Dentro das páginas de Meio-Irmão há de tudo, mas o negro impera e, definitivamente, não é sobre isto que é fácil escrever, muito menos com sucesso.


 

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