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Às vezes, muito raramente, há um livro que nos esmaga. É tão raro quanto bom. Este foi, para mim, um desses livros. Demorei muito a lê-lo, e já vou falar sobre isso, mas foi preciso passar das 450 páginas para perceber o quanto estava a gostar, o quanto este livro é incrível. Sinceramente, cheguei a não gostar de o estar a ler, cheguei a sentir-me exasperado.  Mas vamos lá concretizar.

 

Notas prévias:

 

- Este texto revela o enredo, pelo que não aconselho a quem não tiver lido o livro. Parte da experiência é, precisamente, a descoberta progressiva das várias camadas do livro. Ir recolhendo as pistas e percebendo o que se aproxima.

- A versão que li foi em inglês. A razão é simples, ofereceram-me o livro logo que ele saíu, antes de haver edição portuguesa (até escrevi um post sobre isso a 31/3/2010). Eu é que ando muito atrasado nas minhas leituras. Não tenho nada contra as edições portuguesas de Pamuk, pelo contrário. Mas, por outro lado, foi interessante, e como é tradução direta do turco, senti-me mais perto que nunca do autor.


The Museum of Innocence, de Orhan Pamuk

 

Já me tinha apercebido de que, apesar de eu ser um leitor rapidamente rápido, há qualquer coisa nos livros de Pamuk que me fazem lê-lo de forma diferente. A exceção é o primeiro que li, A Vida Nova que li compulsivamente, mas só até certo ponto, já bem adiantado, e depois comecei a desacelerar. Os outros foram lidos devagar. E este Museu da Inocência foi o que mais tempo me levou. Mais uma vez, foi rápido no início mas, no decorrer da leitura, precisei de abrandar. Passou a ser um livro em que só pegava quando apetecia. Talvez porque o mergulho é profundo (quando se está neste livro não se está mesmo em mais lado nenhum). Curiosamente, já li várias pessoas que dizem exatamente o contrário e leem Pamuk compulsivamente. Mas há também os que concordam comigo, em particular leitores deste livro.

Tudo começa assim: “It was the happiest moment of my life, thought I didn’t know it”. O contexto é o de um casal que está a fazer amor. Não sabemos ainda mas vamos, mais tarde, saber que eles são amantes e que aquela relação é ilegítima. Ele é Kemal, 30 anos, membro de uma família da elite de Istambul, está noivo de Sibel, também de boas famílias. Ela é Füsun, uma prima de Kemal que trabalha numa loja de roupa. Depois de passarem anos sem se verem, reencontram-se quando Kemal vai à loja comprar uma mala para a sua noiva.

A partir daí, o livro passa a ser sobre a história de amor entre Kemal e Füsun, sobre os seus encontros num apartamento desabitado da família de Kemal, o qual se torna o centro da sua vida amorosa e o refúgio, uma antecâmara do que virá a ser o museu. Sei que quando falo aqui do museu isso parece não fazer sentido. Mas também é assim no livro, ele está sempre presente, mesmo quando parece ainda não fazer sentido.

Não obstante o envolvimento com Füsun (mencione-se que ela tem apenas 18 anos), o noivado de Kemal prossegue. Chegamos mesmo a assistir à festa de noivado, evento que atrai as atenções da sociedade de Istambul e um dos momentos mais extraordinários da literatura de Pamuk. Sem nunca perder o foco na relação Kemal/Füsun, Pamuk não deixa de nos apresentar Istambul, a sociedade turca, os contrangimentos do limbo europa-ásia-islão. Desde as relações dos homens com as mulheres, a  questão da virgindade feminina, os costumes laicos e religiosos, tudo está presente, como é habitual nos livros do autor.

O noivado prossegue mas, de um momento para o outro, Füsun deixa de aparecer aos encontros no apartamento. A partir daqui acompanhamos Kemal numa completa obsessão. Vê-a em todo o lado, pensa nela a toda a hora. Procura-a desesperadamente. Durante páginas e páginas vemos um homem em agonia. Kemal sem Füsun deixa de ter densidade. O que parecia uma paixão de um homem por uma jovem rapariga transforma-se em algo mais sério. O apartamento onde se encontravam passa a funcionar como uma forma de Kemal se sentir perto dela, junto dos objetos que ela tocou, ou que lhe pertenceram.

Quando, passados 6 meses, Kemal reencontra Füsun ela está casada e vive com o marido em casa dos pais. Kemal passa então a frequentar a casa, a jantar repetidamente por lá. Durante uns 8 anos é isto que acontece, Kemal frequenta a casa da sua amada sem voltar a tê-a como amante. O simples facto de a ver, de poder estar por perto, enche-o da vida que já não sentia quando não sabia dela. A obsessão pelos objetos dela vai crescendo e Kemal começa a colecionar, cada vez mais, peças da casa, pontas de cigarros, tudo o que tenha a ver com Fusün (rouba os objetos da casa e leva-os para o apartamento). Por esta altura já se tornou claro que o narrador conta a história a partir de um ponto no futuro, e que há um museu, que todas essas peças se encontram nele. Esta ideia de museu começa também a pairar como uma ameaça, um indício de que o final poderá ser trágico.

É durante esta parte, durante estes longos 8 anos, que o livro se começa a tornar também peculiar. Pamuk arrasta-nos para a obsessão de Kemal, faz-nos sentir o peso do tempo a passar devagar, como se nada acontecesse, noite após noite, vamos lendo e Kemal vai estando sempre a fazer o mesmo, de visita, para jantar, em casa de Füsun, contemplando objetos e arranjando forma de os levar. Não é fácil. No fundo, é a experiência de ler Proust, com a vantagem de ser bem menos, embora isso não cause nenhum alívio na altura. Simplesmente, como se percebe mais tarde, é mesmo assim que o livro deve ser, porque não é bem só um livro, é a literatura no que ela tem de melhor, a capacidade de nos transportar, de nos fazer sentir e, portanto, o tédio das noites iguais atinge o leitor de forma a fazê-lo perceber melhor o sofrimento de Kemal. E enquanto este há de ter a recompensa de voltar a ter Füsun também o leitor sentirá mais intesamente essa alegria por ter passado um pouco por aquilo que o personagem passou. O próprio Pamuk, o autor, não deve ter tido facilidade em escrever este livro, aliás, demorou vários anos.

Volta a haver alguma “ação” quando, quase no fim de todos estes anos de convívio, Kemal e Füsun voltam a passar algum tempo sozinhos, quando saem de carro para ele a ensinar a conduzir. Mas um verdadeiro reencontro de amantes só surge ainda mais tarde, quando Füsun se divorcia. É nessa altura que ficam noivos, que voltam a ligar-se como amantes, e que a tragédia ocorre. Daí o museu, o museu de Füsun, o museu da inocência que guarda a memória do amor de Kemal por Füsun.

Os últimos capítulos do livro, praticamente encerrada a história de amor, são sobre o Museu e o processo que leva Kemal à sua criação. Aqui, Pamuk introduz os seus jogos de meta ficção e entra, ele próprio, na história e de viva voz. Já o vi fazer isto em Neve, aliás, o personagem-Kemal pede-lhe para fazer o mesmo que um personagem de Neve fez: poder dirigir-se a nós, os leitores. E assim termina a obra - com Kemal a dirigir-se-nos diretamente.


O Museu Real

 

Pamuk é um escritor que recorre muitas vezes à meta ficção, misturando-se a si próprio no meio das histórias que cria.

 

Mas, neste caso, foi ainda mais longe. É que o Museu existe mesmo. Pamuk foi recolhendo objetos enquanto escrevia o livro e criou mesmo aquilo que acaba por ser um museu sobre a própria Istambul. Como ainda não fui lá (e, acreditem, é um destino tão intensamente desejado por mim como permanentemente adiado) deixo alguns links que explicam e mostram o museu real:

 

http://arteref.com/gente-de-arte/museu-da-inocencia-orhan-pamuk/

http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=251331

http://www.independent.co.uk/voices/comment/orhan-pamuks-museum-of-innocence-is-now-a-reality-can-we-do-something-similar-in-london-8340739.html

 

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4 comentários

De Marco Caetano a 13.08.2013 às 14:33

Não costumo ver muitos comentários sobre esta obra.
Penso que os leitores se devem assustar um pouco com o tamanho do livro.
Admito que não seja de leitura imediata, fácil ou "light".
Mas vale muito a pena!
Gostei do texto.

De pedrices a 13.08.2013 às 23:40

Obrigado pela visita!

De adignidadedadiferenca a 16.08.2013 às 23:46

Do Pamuk só li «O Meu Nome é Vermelho». E é muito bom. Sobre este cresceu-me água na boca...

De pedrices a 18.08.2013 às 15:11

«O Meu Nome é Vermelho» é o único que ainda não li. Lá chegarei :)

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