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E, pronto, este é o último post comemorativo dos 5 anos do pedrices.

 

Reservei para o final algo diferente. Há uns anos, uma amiga fez uma exposição. Até falei disso aqui. O interessante é que ela convidou algumas pessoas para verem a obra antes da exposição e desafiou-as para escreverem sobre o que viram. A regra era: entram, veem e não se fala mais do assunto. Depois, vão embora e escrevem o que quiserem. Finalmente, na exposição, foi apresentada a obra e os textos.

 

Por isso, o que deixo aqui é a obra da Maribel Sobreira e o texto que escrevi em resposta ao desafio.

 

Espaço, de Maribel Sobreira

 

 

Casulo, de Pedro (eu próprio)

Gostava de saber quantas voltas seria possível dar sobre o meu próprio corpo. Pergunto isto sem obter resposta, os teus olhos vazios fitam-me como que vegetando à volta de nada. Sento-me no chão e apago a luz mas, deixando a janela aberta, há uma brisa que me ilumina um pouco e uma luz que me refresca, fazendo-me sentir um pouco menos só. O quarto, vazio como nada, tolera a minha presença, talvez convencido de que nada poderei fazer para escapar. E, na semi-escuridão em que nos encontramos, as paredes parecem-me tão nuas como eu. O quarto é uma prisão, ou talvez seja o meu único espaço de liberdade. Falo em voz alta para o vazio, tentando comunicar contigo, querendo saber se posso pôr os braços à volta das minhas pernas, dobrar-me e dar um nó. A tua resposta é a mesma, nenhuma. Já nem os teus olhos vejo porque perdi a memória da tua imagem. Levanto-me e encosto-me às paredes, para sentir o frio no meu corpo. O meu peito esmaga-se um pouco, as minhas ancas fazem pressão, os meus joelhos mantêm parte das pernas à distância. Queria ser uma figura plana, grito; queria ser forte, penso. As paredes tornam-se elásticas quando a minha voz consegue falar mais alto. Faço mais força, até sentir dor. Primeiro é só o frio que me incomoda, depois é a pressão, as marcas dos relevos da parede passam a marcas na minha pele. Empurro mais, queria ter mais braços para me espalhar em mais direcções. Deito-me. Estico as pernas contra a parede, para cima. Abro-as. Sou um compasso virado ao contrário. Abros os braços no chão, atiro-os para o ar, sou um gato que caíu de costas. Deixo a noite começar a gelar-me e tento encostar mais partes de mim à parede. Quero sair, crescer para fora do quarto, viver mais, fora daqui. Há uma janela cheia de sons lá de fora, animais, pessoas, música, palavras feias; há fragmentos de conversas que parecem falar de mim, crianças que riem enquanto outras choram. E eu quero tudo. Alcançar tudo, viver tudo, ler tudo, comer tudo, dormir com toda a gente. Por isso faço força contra a parede e tento rompê-la. Não cede. Não consigo ser mais do que sou. Não consigo crescer. Talvez adormeça, de exaustão. Talvez não volte a acordar. Talvez prefira ficar a sonhar. Enquanto não durmo, vou rodopiando, desistindo do mundo lá fora; tapo os ouvidos, porque não quero ouvir que alguém ri quando outro chora, estico o braço, envolvendo um corpo imaginário que é o teu, em vez de o desejar estranho, esqueço os animais na vertigem de que eu sou apenas mais um deles, e estico-me, como um fio-de-prumo, para não ouvir as palavras que, mesmo bonitas, podem sempre dizer coisas feias. Apenas deixo ficar a música, assistindo aos meus dedos a moverem-se ao seu ritmo. E fecho os olhos para ver para dentro de mim, e encontro lá tanto por descobrir. Concentro-me em crescer por mim, em enraizar-me de mim, para que este resto, este eu, agora já sem ti, juntamente com esta solidão, deixem entrar o bafo quente que se solta da janela para me aquecer, em vez do frio das paredes. Estendo novamente os braços e já sinto as paredes mais macias, já me sinto maior. E já não preciso de nada lá de fora. Solto o ar e imagino-me ali para sempre, como se tu não existisses e fosses apenas um doce som que ficou da paisagem, como quando se apaga a luz mas se adormece, já sem medo.


 

 

 

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