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É pena que este livro não seja uma aula, ou melhor, um curso. Quero dizer com isto que estes textos deviam ser-nos apresentados oralmente para poderem ser discutidos, para se poder fazer perguntas, para se poder incluir mais exemplos e imagens. Não quero dizer, de forma alguma, que os textos não se “aguentam” sozinhos num livro. Não, pelo contrário, estes textos são tão cativantes e tão cheios de interesse que merecem vir cá para fora e serem confrontados. O autor é professor de grego, o que só me faz sentir ainda mais vontade de ter umas aulas com ele.

Trata-se de um livro que versa sobre uma matéria que se encontra por aí com facilidade: a influência dos clássicos no presente. O que torna particularmente atraente esta visão de Goldhill é que ele estrutura o livro há volta de uma espécie de eixos temáticos que lhe permitem ir fazendo aproximações ao tema que são muito mais enriquecedoras do que é habitual encontrar-se quando nos limitamos à enumeração.

Tudo começa com um capítulo intitulado “Quem Somos?” onde o autor nos leva a passear, de forma quase indiscreta, pelos meandros da sexualidade grega. Vemos como as nossas noções estéticas sobre o corpo e o seu culto, o ir ao ginásio, as imagens de beleza que temos como adquiridas, são de base grega. É claro que não pode faltar essa forma grega de (homo)sexualidade desconcertante cujos detalhes continuam misteriosos.  Os pontos de vista do autor não ficam isentos de crítica, mas tornam este capítulo no mais empolgante resumo sobre este assunto que já li.

Depois do sexo, custa um bocado entrar no segundo capítulo – “Aonde Vamos?”. De repente, comecei a temer que o livro se transformasse noutra coisa. Parece que a própria igreja católica entra no livro para o censurar e nos fazer arrepender de termos lido o primeiro. Então somos levados à vida dos santos e suas supostas virtudes, blá, blá, blá. Mais tarde, vim a perceber como este capítulo é fudamental e marca tão bem o contraste entre o classicismo e o catolicismo. E vale bem pelo capítulo dedicado a Erasmo.

Tudo volta a ser empolgante no terceiro capítulo, “Que Devia Acontecer?”, o qual se debruça sobre uma outra experiência grega por excelência, a democracia. Goldhill não se limita a enumerar, comenta e, por vezes, com uma acutilância que apetece aplaudir, esse contraste entre a noção de cidadania para um grego e a que existe atualmente. Em tempos como os atuais, em que a indiferença pela política é tão egoisticamente vivida que parece que a única forma de despertar um sentimento de ação é quando o poder político mexe nos nossos interesses estabelecidos (leia-se carteira) e, no resto do tempo, não há participação nem ativismo, é arrepiante pensar em como os gregos administravam a sua vida sem abdicarem dos seus deveres, tão ou mais importantes que os seus direitos. É certo que as limitações eram inaceitáveis, e eram poucos os que realmente tinham o estatuto de cidadão, mas isso só envergonha ainda mais a indiferença atual.

O capítulo seguinte “Que fazer?” debruça-se sobre duas marcas fundamentais do classicismo – a tragédia grega, por um lado, e a sua profunda influência na forma como encaramos os dilemas da existência e, por outro, os espetáculos de gladiadores em Roma, um exemplo de barbárie que nos assusta mas que, no voyeurismo dos nossos dias, não anda assim tão deslocado do prazer que as pessoas tinham em vê-los.

No capítulo “Donde Vimos?” percebe-se, em termos bastante concretos e práticos, o quanto a cultura clássica influenciou a nossa sociedade. Em particular, o autor debruça-se sobre figuras que foram influenciadas pelo classicismo, como Freud. A pretexto do complexo de Édipo, a história é contada numa interessante análise do mito. Mas a influência foi muito além de indivíduos. A Alemanha, por exemplo, percorreu um percurso de aproximação aos ideais gregos que não trouxe apenas aspetos positivos, pelo contrário. No entanto, conclusões sobre as “responsabilidades” de Platão no argumentário nazi, como tanto se faz com Niezstche, não podem ser aceites de forma simples, e isso deveria, no mínimo, merecer outro livro. De qualquer forma, Sócrates e Platão aparecem aqui com uma imagem muito mais multifacetada do que é costume encontrar noutros livros, o que é assinalável e nos faz pensar muito para além do que é habitual.

Apesar de apresentar muitas conclusões discutíveis, lê-se com um intenso prazer e contribui de forma notável para compreender a influência de Grécia e Roma nos nossos dias. 

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3 comentários

De numadeletra a 03.06.2013 às 22:30

Fiquei com vontade de ir já a correr comprar o livro... não, fico a deliciar-me a reler esta tua brilhante crítica.

De C. a 04.06.2013 às 09:44

não li este, nem sei se algum dia lhe darei oportunidade. ao ler o teu comentário, pelos tópicos, lembrei-me de um livro que li há alguns anos - Política de Aristóteles- se por acaso ainda não o leste recomendo-o (quando o li, apesar de na altura não ter o distanciamento de análise histórica para olhar para as "limitações sociais", pensei que realmente não avançámos assim tanto- há uma espécie de eterno retorno- lá voltamos nós aos clássicos :-P)

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