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Curioso este livro: como história da guerra, serve mas não é brilhante e tem falhas que o afetam. Mas como uma espécie de introdução à história do mundo, é brilhantemente conciso e uma leitura fascinante. Ou seja, naquilo que eu não estava à espera, é do melhor; naquilo que eu esperava é… mais ou menos.

 

Keegan começa logo, sem aviso, a abanar aquilo que sabemos: Clausewitz (famoso por dizer quea guerra é a continuação da política por outros meios), estava errado. E passa o resto do livro a dizer-nos porquê. Para isso, faz-nos acompanhar Clausewitz ao longo de tudo o que ele deve ter sabido, e mesmo aquilo que não soube ou não quis ver. Raramente vi um cuidado tão grande em enquadrar o autor com o qual não se concorda, mas Keegan é absolutamente exemplar nesse aspeto. Claro que a outra face é uma perseguição implacável à procura de exemplos que desmintam Clausewitz. Quando se faz isso, é claro que se consegue encontrá-los, mas nem sempre de forma absolutamente convincente

 

Depois de uma introdução sobre Clausewitz e a guerra em geral, orientada pela tese de que a guerra não é política mas sim cultura, Keegan entra nos capítulos desta curiosa estrutura que decidiu seguir. O primeiro chama-se “Pedra”. E quando eu esperava por uma seca sobre armas e táticas militares, eis que sou surpreendido por um magnífico ensaio sobre as origens da violência, a questão de saber se somos ou não violentos. A pretexto destas questões, Keegan traça uma história breve mas notável da Antropologia, leva-nos a estudos etnográficos sobre a guerra ou violência em povos primitivos, encaminha-nos para as barbaridades (aos nossos olhos e, talvez, a quaisquer olhos) dos aztecas. E viaja para um pouco mais perto com o sumérios e os Egípicios. Ao falar de guerra, Keegan fala de nós, da natureza humana, e com uma profundidade inesperada num livro em que eu esperava muito pouco disto.

 

O capítulo seguinte chama-se “Carne”. Aqui o destaque vai para a utilização do cavalo, dos carros de corrida e a forma como isto mudou a face da guerra. Aqui, o livro começa a parecer-se mais com um livro sobre  a guerra. Ainda assim, Keegan dá extraordinárias lições de história sobre os povos da estepe asiática, sobre os hunos, os mongóis, o Islão, a China. Para quem, como eu, acha que perceber as movimentações de povos e impérios na Ásia é tarefa impossível, este é o livro certo. Fiquei com uma visão muito mais organizada de tudo.

 

O capítulo chamado “Ferro” dedica-se à guerra já com armas feitas de metal. Mas, mais uma vez, é a história que mais interessa. Neste capítulo talvez eu tenha encontrado a mais bem conseguida síntese da evolução da Grécia e de Roma. Keegan consegue ser incrivelmente conciso, traçando a evolução das civilizações de um modo tão completo que surpreende página após página. Diria que este livro é o melhor ponto de partida para quem quiser debruçar-se sobre a antiguidade mas saiba muito pouco ou nada. Ou se sinta confuso. Mesmo a Europa medieval, cuja história não é fácil de acompanhar, se torna muito mais fácil de compreender com as magníficas relações que Keegan vai estabelecendo, criando pontes entre passado e futuro, civilizações diferentes e especificidades culturais.

 

Finalmente, o último capítulo, “Fogo” parece mesmo história militar pura e dura. Versa bastante sobre os exércitos e sobre a utilização das armas de fogo. Mas é também aqui que Keegan nos fala das guerras mundiais. E a forma como nos apresenta Hitler e as suas decisões é extraordinária.

 

Pelo meio dos capítulos principais, Keegan construiu os interlúdios. São capítulos mais pequenos que analisam temas específicos e mais “técnicos” como as fortificações ou a logística. Têm interesse como complementos.

 

Mas, olhando para o texto, tenho que reconhecer que este livro vale por não ser o livro que estava à espera. E, por isso, tenho que admitir que, enquanto história da guerra, não será tão bom como isso. Quem procurar aqui esse tema vai encontrar uma estrutura demasiado abstrata, uma crítica feroz a Clausewitz que peca por parecer procurar tanto contrariá-lo que parece menos credível (afinal, a exceção não deixa de confirmar a regra..). E também há conclusões que parecem pouco fundamentadas - como a ideia de que estamos quase a chegar a um mundo sem guerra. No fundo, o que eu quero dizer é que as intenções de Keegan, aquilo que provavelmente ele quis fazer com este livros, não são o mais interessante e até falham em grande parte, são mais um elemento perturbador do que uma mais valia. Porém, no que está para além disso, na narrativa da história do mundo que Keegan oferece aqui, está uma leitura absolutamente enriquecedora.

 

Nota final: este livro provoca reações constantes, dá temas para discussões, faz-nos sair da cadeira. Num certo sentido, o facto de estar cheio de defeitos é uma das suas melhores qualidades.

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1 comentário

De Anónimo a 09.11.2017 às 05:56

boa resenha, estou adquirindo tudo que posso sobre o autor.

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