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(leitura não aconselhada a quem não leu o livro)

 Há livros para todo o tipo de emoções. Desde o divertimento mais fugaz até ao mais completo fascínio, todas as emoções podem ser encontradas neles. Por vezes, é fácil encontrar um adjectivo que os qualifique; por outras, é impossível, ou mais demorado do que esquecer.
Em Neve (Kars, em turco), não é difícil encontrar uma palavra que o defina, podiam ser muitas outras, é certo, mas esmagador é o adjectivo que melhor lhe assenta.
Não é propriamente fácil descrever a história de Neve. Tentemos dizer que há um poeta, de nome Ka. É turco mas está na Alemanha há anos, exilado. Volta à Turquia e vai à cidade de Kars (Neve) onde passa alguns dias, até voltar para a Alemanha.
Agora tentemos explicar o que se passa em Kars. Esta cidade serve, acima de tudo, como uma representação de tudo o que a Turquia é. De um lado, os islamitas mais integralistas, que desprezam os europeus e a cultura ocidental, assumindo, muitas vezes, posições extremistas e, até, violentas. Do outro lado, temos os laicos, europeístas e que, em nome do laicismo da República, e da defesa das ideias de Ataturk, são capazes de tudo, para manterem a ordem pública afastada dos preceitos religiosos. Questão central em tudo isto é o uso do véu islâmico por parte das mulheres. Na escola de Kars, elas não podem entrar se o usarem. Muitas delas estão suicidam-se, um crime condenado pelo Alcorão.
É neste contexto, de uma cidade crispada por uma onde de suicídios que é já notícia nacional, que Ka chega à cidade e, usando a capa de jornalista, começa a conhecer todos os protagonistas deste microcosmos de um país bem maior.
Em termos políticos, toda a história da Turquia aparece de alguma forma neste romance. A capacidade de Pamuk em compor o retrato de um país, em tantas vertentes diferentes, é impressionante. Actualmente, só Philip Roth parece capaz de, de forma tão completa e complexa, fazer o mesmo.
A Neve bloqueia Kars durante alguns dias e isso permite criar ali um laboratório único onde as piores atrocidades podem acontecer quando se vive numa sociedade tão dividida como esta. Há uma espécie de Ensaio sobre a Cegueira em muito do que acontece na fase mais política desta história. Um pormenor curioso: Saramago considera Pamuk o escritor mais próximo de si, daqueles que venceram no Nobel desde que ele o recebeu.
Para além desta intensa trama política, Neve, como não podia deixar de ser num escritor que anda em busca do que é isso do Amor, também oferece uma visão sobre uma história de amor peculiar. Ka é um homem que foge, ou tem medo, da felicidade. Mas regressar a Kars é, para ele, também, a oportunidade de voltar a ver Ipek, por quem se apaixona. No entanto, esta é uma mulher emaranhada numa enorme teia de desgostos e de amores impossíveis. No final do livro, nas suas próprias palavras, encontramos um testemunho extraordinário da forma como uma mulher pode amar, sem ser verdadeiramente amada por quem ama; sendo amada por quem quer amar mas não consegue.
Um outro motivo para esta ser uma obra invulgarmente poderosa tem a ver com o narrador, ou narradores. Se, durante muito tempo, ele não aparece e conduz a história com a normalidade do narrador omnisciente, a certa altura, este assume-se como o protagonista da história. Chega até a ter um nome, Orhan (o primeiro nome de Pamuk). Curiosamente, Orhan, o narrador vai percorrer os mesmos passos de Ka, conhecer as mesmas pessoas e, até, perguntar a uma delas o que esta quer que ele diga aos leitores do livro que escrever.
Em Neve, neva quase sempre. A forma como a neve é invocada provoca a sensação de que está a nevar nas páginas deste livro. O que não é de estranhar num romance onde se diz, a certa altura, que se pode ouvir nevar nos olhos de alguém.

 

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1 comentário

De rike22 a 04.08.2008 às 20:30

Estou quase a chegar lá (a Pamuk, entenda-se). Talvez quando acabar o Littell ??? Já leste?
rike22

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