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Eu sei que muita gente ficou desiludida com este livro por causa das expetativas geradas em redor dele. Mas isso das expetativas é uma coisa a que tento não dar qualquer tipo de importância. Um livro não devia valer por aquilo que eu espero que ele valha, mas sim valer por si ou, e isso também é importante, por aquilo que ele provoca em mim.
Posto isto, a pergunta óbvia é o que é que este livro provocou em mim. A primeira resposta é: um intenso prazer. E este prazer digamos que o posso dividir em duas vertentes; a primeira, a do entretenimento, senti-me a ler o argumento de uma telenovela. Há anos que me deixei disso e, sinceramente, é coisa que desprezo. Mas lembrei-me ao ler este livro de como as histórias de intrigas familiares, de casamentos, de traições, de segredos, de diários secretos, podem ser entusiasmantes quando são bem escritas. Os diálogos, por exemplo, são extraordinários, complexos mas muito, muito concretos. Lê-se como se se ouvisse. Convém notar que li o original em inglês, não sei se sentirá o mesmo em português (o pouco que fui espreitando da edição portuguesa pareceu-me muito bem). Mas este livro não é só entretenimento, é também uma análise bastante interessante da sociedade americana dos últimos anos. Franzen contruiu personagens que realmente apetece seguir, e isso facilita, claro. Num livro onde há gente que tem Thomas Bernhard como escritor preferido, há qualquer coisa de salutar. Enfim:

 

"Richard is one of those bizarre people who actually still read books and think about things", Walter said.

 

Pois. É isso. Os personagens de Franzen parecem pensar. Pensar para além das suas histórias particulares. Eles discutem, eles mostram as suas ideias. Alguns são ativistas (Walter defende os pássaros mas, sobretudo, defende que não devíamos ter tantos filhos por causa da sobrepopulação do planeta). Falam do Iraque, do Afeganistão, de Obama, de decisões políticas, do 11 de Setembro, do apoio dos EUA a Israel, estão ligadas à realidade. Mas sempre de uma forma muito concreta e verosímil, apresentando um retrato que, se calhar, faz falta. Note-se isto:

 

In terms of locking up habitat to save it from development, it's a lot easier to turn a few billionaires than to educate American voters who are perfectly happy with their cable and their Xboxes and their broadband.

 

Não há cinismo aqui, embora pareça. Mas é a forma de fazer com que aconteça o que se quer que aconteça. E aqui está-se a falar de ativismo a favor do ambiente.

 

Mais interessante ainda é a forma como os partidos são caraterizados nas discussões. Selecionei esta entre várias:

 

(...) that's what I find so refreshing about the republican Party. They leave it up to the individual to decide what a better world might be. It's the party of liberty, right? That's why I can't understand why those intolerant Christian moralists have so muche influence on the party (...)

 

Talvez seja porque eu ando a ler os livros errados, mas adoro estas discussões que são sobre a vida atual, sobre o que está a acontecer agora no mundo. E este livro está cheio disso. Méritos literários à parte, até porque não os sei avaliar da mesma forma fora da minha língua, este é um romance à Dostoievski, naquilo que o grande mestre russo tem de capacidade de pintar um retrato completo a partir das suas personagens.

Nas mais de 600 páginas há momentos que parecem desequilibrar o romance. A autobiografia de uma das personagens, escrita na terceira pessoa e com o mesmo estilo do resto do livro, parece pouco convincente (estou a falar da técnica, não do conteúdo). Há um ou outro momento (estou a evitar spoilers) em que acontece algo demasiado conveniente para o enredo mas demasiado forçado para a vida real. De resto, a estrutura é complexa: anda-se para trás e para a frente e vê-se a história a partir de diferentes personagens. Explicar isto seria complicado, ler é fácil. Nunca me senti perdido, pelo contrário, fui-me sentindo cada vez mais bem informado.

Tenho lido por aí que o livro anterior, Correções, é melhor. Hei de tirar isso a limpo.

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4 comentários

De Vespinha a 01.04.2013 às 22:50

Vais achar ridículo o que te vou contar, mas tive este livro em casa e devolvi-o sem sequer o começar a ler... E sabes porquê? Por causa do corpo de letra demasiado pequeno, vi logo que não ia aguentar.

A versão em inglês tem um corpo jeitoso? E o inglês é acessível?

De pedrices a 02.04.2013 às 11:11

Não acho ridículo, não. Isso é, de facto, um problema num livro tão grande. Li no kindle e, portanto, não tive esse problema, ajustei o tamanho da letra à minha vontade :)
O inglês é bastante "moderno" e fácil. Mais uma vez, tive a vida facilitada com o dicionário sempre presente do kindle, mas não o consultei assim tanto.

De Vespinha a 02.04.2013 às 23:05

Ainda não me rendi ao digital, apesar de ver muitas vantagens nisso...

De Carriço a 02.04.2013 às 17:25

Não sou capaz (nem tenho autoridade para isso) de dizer simplesmente que um é melhor do que o outro. O que posso dizer (e isso ninguém pode levar a mal) é que, de facto, tendo gostado de "Liberdade", me agradou mais a leitura de "Correcções". Visto pelo plano de intriga familiar, de retrato geracional, acho mais completo, com mais camadas. Talvez não seja tão abrangente, tão aberto como "Liberdade", mas é um retrato com maior definição, creio. :)
Adianto que os li na edição portuguesa e que, em relação ao tamanho da fonte... "Correcções" consegue ser desmotivador. Preferia suportar mais 100 páginas em peso a ter que ler nos buracos de agulha em que encaixam as letras.

Boas leituras!

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