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Pronto, depois do último post, ficou difícil continuar a olhar para este livro sem lhe pegar. Primeiro, foi apenas a lombada e a contracapa. Depois, as primeiras linhas, as primeiras páginas. E lá tive que ir até ao fim. Li-o, pela primeira vez, talvez há uns 10 anos. Na altura, ficou-me como um grande livro que eu ainda não sabia apreciar devidamente. Era inevitável o reencontro. Há anos que andava para o reler.

 

Nesta edição, o livro é seguido dos apontamentos da autora sobre o processo de escrita da obra. São pequenas notas soltas, às vezes uma linha apenas, mas que revelam o cuidado de Yourcenar. O livro demorou décadas a ser terminado. Muito material ficou pelo caminho. E, de facto, a principal dificuldade tem a ver com a falta de material sobre Adriano. É preciso intuir muito para conseguir retratá-lo. E Yourcenar foi sabendo deixar que o tempo cimentasse as ideias. Há também uma secção dedicada a uma apresentação das fontes utilizadas e alguns esclarecimentos sobre o que são os dados históricos (mais ou menos diponíveis e mais ou menos rigorosos) e o que foi acrescentado pela imaginação da autora.

 

As notas engrandecem o livro, mas falemos dele.

 

A forma utilizada para evocar Adriano é a carta, com narração na primeira pessoa. Imaginem Adriano no fim da vida, escrevendo uma longa carta a Marco Aurélio (que viria a ser imperador, sucedendo ao sucessor de Adriano. Em vez de apenas um, Adriano nomeou dois sucessores…). Este é o pretexto para Adriano falar de si, do seu império, das decisões, apresentar a sua biografia, falar de Antinoo, o seu grande amor (Antinoo é tão paradoxalmente importante na vida de Adriano, apesar de terem estado juntos por poucos anos, que a capa desta edição, e de outras, em vez de apresentar o imperador, apresenta o seu amante), as suas obras, o amor pelas artes e cultura em geral, o fascínio pela Grécia, as dificuldades da governação, os problemas de saúde, etc.

O tom é confessional e próximo. Como se Adriano nos falasse ao ouvido, vindo desse longínquo ano de 138, altura em que morreu. No entanto, é perfeitamente verosímil e toda história é, no mínimo, encantadora. Adriano, é uma composição absolutamente notável. O rigor da reconstituição é o mesmo de outro livro de que aqui falei, A Obra ao Negro. Mas este Memórias de Adriano, longe de ser um livro de leitura difícil, embora necessite de uma atenção especial, é também um livro de uma beleza estética mais próxima de nós. E isso é, no mínimo, curioso, visto que Adriano é muito mais antigo do que Zenão, protagonista de A Obra o Negro (Europa medieval). Talvez seja pela sensibilidade grega, efetivamente muito mais atual do que a obscuridade em que Zenão se move (e da qual se tenta libertar).

 

Vejam-se alguns momentos:

 

O verdadeiro lugar do do nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo; as minhas primeiras pátrias foram os livros.

 

A palavra escrita ensinou-e a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos (...) posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.

 

Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos escapa mesmo ao humano.

  

Mas o que me interessa aqui é o mistério específico do sono, saboreado por si mesmo, o inevitável mergulho a que se aventura todas as noites o homem nu, sozinho e desarmado, num oceano onde tudo muda, as cores, as densidades, o próprio ritmo da respiração, e onde encontramos os mortos. O que nos tranquiliza no sono é que se sai dele, e que se sai sem qualquer mudança, pois que uma extravagante interdição nos impede de trazer nonnosco o resíduo exacto dos nossos sonhos.

  

(...) tudo o que cada um de nós pode tentar para prejudicar o seus semelhantes ou para os servir foi, pelo menos uma vez, feito por um grego.

 

Foi em Latim que eu administrei o império (...) mas é em grego que eu terei pensado e vivido.

 

Uma curiosidade: em Tivoli, perto de Roma, fica a chamada Vila Adriana, o local onde o imperador se refugiava e que ele mandou construir. Hoje, nestas ruínas, conseguimos perceber a visão de Adriano e a forma como o que ele conheceu (viajou muito por todo o império) moldou esta Vila (há reconstituições incríveis de outros locais). Mas antes de lá entrar, há um largo que se chama Marguerite Yourcenar, uma bela homenagem à autora, bem na entrada da Vila. Podem ver aqui em baixo as fotos de quando lá estive há uns 2 anos. Que pena não ter levado este livro comigo…

Rever as minhas fotos dessa viagem provocou-me a vontade de escrever um outro post dedicado a isso. Ou seja, o próximo é sobre Adriano mas nas minhas memórias, e não nas de Yourcenar.

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De 222 a 02.01.2013 às 22:09

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