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Este post tem estado a marinar, na esperança de que eu consiga escrever mais e melhor sobre este livro. Mas já percebi que não vai haver tempo para mais. Por isso, aqui fica.

 

Estou esmagado. Li este livro como se estivesse a aprender tudo outra vez. Ou  melhor, li este livro como se não soubesse nada. Apesar de sempre ter achado que o século XX era o período da história que eu melhor conhecia. Apesar de sempre me ter entusiasmado com o estudo da Guerra Fria, nunca tinha chegado a uma obra tão notável na forma como consegue falar de tudo isto e muito mais, trazendo uma capacidade de interpretação e de relacionamento entre os factos notáveis.

 

Não podia, aliás, ter escolhido melhor livro para continuar a ler a história do século XX depois de, no ano passado, ter lido o Europe at War de Norman Davies. Diria que este Pós-Guerra é a continuação perfeita.

 

E, já que estou a falar dele, deixo a opinião do Norman Davies sobre o livro do Tony Judt:

http://www.guardian.co.uk/books/2005/dec/03/featuresreviews.guardianreview4

 

É evidente que um livro desta dimensão (temática, porque pretende contar a história de 1945 até aos anos 2000; e física, nas suas 930 páginas) tem os seus desiquilíbrios, tem pontos fortes e fracos. Tem momentos polémicos e discutíveis. Mas o que ressalta é, na minha opinião, o seguinte:

- Tony Judt faz uma análise em que se mostra profundamente lúcido e razoável. Mesmo não se contendo num ou noutro momento, a nota dominante é a do historiador sério e rigoroso a impôr-se ao homem, eventualmente impulsivo e certamente opinativo

- A estrutura que Tony Judt encontra para contar a história pode ser lida quase como um romance. A vantagem? Não é só facilitar a leitura, trata-se de perceber melhor. Em vez de títulos e sub-títulos (que eu normalmente prefiro e acho que faz falta para as coisas estarem bem organizadas), o autor opta por fazer capítulos bem grandes mas em que vai como que contando a história. E, de vez em quando, até sabe criar alguma emoção. No fim de cada capítulo apetece começar logo a ler o outro.

- Sem conseguir ser exaustivo - o que seria obviamente impossível, Tony Judt não conta apenas a história dos países “importantes”. Não, esta é mesmo uma história da Europa. De Portugal a… (a fronteira oriental é sempre mais difícil). Assim, desde algumas idiossincrasias de Salazar, passando pelas manias de Ceasescu, temos um exame da evolução de todos os países do continente.

- temas difíceis de sintetizar/explicar/acompanhar são tratados de uma forma invulgarmente esclarecedora. O capítulo sobre as guerras na Jugoslávia, os problemas da Bélgica, entre outros são sintetizados de forma admirável

- é impressionante a aplicabilidade do texto aos dias de hoje. Não só porque há momentos em que parece que se está a falar da Europa de 2012, mas também porque aquilo que é explicado do passado ajuda, e muito, a perceber os dias em que vivemos

- Tony Judt deixa ao leitor espaço para pensar. Apresenta perspetivas sem impor a sua de forma radical (é convincente, mas não de uma forma impositiva).

 

Alguns momentos:

 

 (...) desde 1945 que a relação [do cidadão com o Estado na Europa Ocidental] se caracterizava cada vez mais por um vasto conjunto de benefícios sociais e estratégias económicas nas quais era o Estado que servia os seus súbditos em vez do contrário.

Em anos posteriores, as muito abrangentes ambições dos Estados-providência da Europa Ocidental iriam perder algum do seu atrativo - especialmente poque já não podiam cumprir as suas promessas: o desemprego, a inflação, populações envelhecidas e o abrandamento económico colocavam pressões insuperáveis sobre os esforços dos Estados para cumprirem o seu compromisso.

pp. 418-19

 

Qualquer análise global da era do Estado-providência na Europa Ocidental será inevitavelmente ensombrada pelo nosso conhecimento dos problemas que iria enfrentar em décadas posteriores. Assim, hoje é fácil ver que inciativas como a Lei da Reforma da Segurança Social da Alemanha Ocidental de 1957, que garantia aos trabalhadores uma pensão em função do seu salário na altura da reforma e associada a um índice de custo de vida, se iria revelar um peso orçamental intolerável em circunstâncias demográficas e económicas alteradas. E em retrospetiva, é claro que o nivelamento radical de salários na Suécia socisa-democrata reduziu as poupanças privadas inibindo assim futuros investimentos. Mesmo nessa altura era óbvio que as transferências governamentias e a taxa social única beneficiavam os que sabiam tirar deles total vantagem: nomeadamente a calasse média intruída que iria lutar para manter aquilo que equivalia a um novo conjunto de privilégios.

p. 431

 

A geração dos anos 30 estava satisfeita por ter segurança económica e voltar as costas à mobilização política e aos seus riscos consequentes; os seus filho, a muito maior geração dos anos 60, só tinham conhecido a paz, a estabilidade política e o Estado-providência. Tomavam estas coisas como garantidas.

p. 432

 

(...) as previsíveis consequência do "Estado-ama", mesmo do "Estado-ama" pós-ideológico, era que para todos os que tinham crescido e não conheciam outra realidade, era obrigação do Estado cumprir as suas promessas de uma sociedade cada vez melhor - e, assim, a culpa era do Estado quando as coisas não resultaram.

p. 445

 

"A liberdade é também a liberdade dos que pensam de maneira diferente"

Rosa Luxemburgo

p. 691

 

E uma espécie de conclusão, minha:

A história está cheia de lições. Lições que nos mostram que a obstinação com um caminho só pode ser ruinosa. Mas que continuar a ignorar problemas óbvios e graves leva ao mesmo resultado.

 

 

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1 comentário

De adignidadedadiferenca a 30.12.2012 às 00:38

Absolutamente de acordo, trata-se de uma leitura enriquecedora. É um livro magnífico!

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