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A Caverna é bem capaz de ser um livro menor no contexto da obra de Saramago. Até eu me sinto compelido a concordar com isso. De todos os seus romances, é um dos que menos recordava, exceto por um extraordinário  cão-personagem que se chamava Achado e foi pretexto para belíssima prosa (morreu há pouco tempo o cão que o inspirou, conforme notícia que aqui deixei) .

Porquê, então, reler A Caverna? Em primeiro lugar, porque assim calhou. Fui ver a exposição na casa dos bicos e, como todos os anos acontece, tinha que escolher um livro para reler por ocasião do aniversário da morte de Saramago. Ainda pensei em ler, finalmente, o Clarabóia. Mas não, a homenagem é reler, não ler pela primeira vez. E, ao mesmo tempo, saber que ainda tenho a Clarabóia para ler faz-me sentir que ainda há novos Saramagos, o que é mais parecido com ele estar vivo.

Mas adiante. Na exposição estive a ler A Caverna, as provas com correções, e. por algum motivo, pareceu-me que sim, que era aquele o livro. Mas o facto de estar quase de férias, e quase a caminho da Grécia, também me fez pensar que a Caverna, que começa com uma citação de Platão e fala sobre essa mesma caverna do filósofo grego, era o livro a ler. E, pronto, as parvoíces de um fã estão contadas, avancemos para a obra.

A Caverna fala de um oleiro  que vendia as suas peças de barro para um grande centro comercial. Um dia, dizem-lhe do centro que vão reduzir as encomendas. O nosso homem, fica sem saber o que fazer. A sua filha encoraja-o a começar a produzir bonecos. E assim se lança o oleiro nnum novo tipo de produção. Por outro lado, começa a admitir a hipótese de se mudar para o "centro".  Pelo meio, aparece um cão lá em casa e vai ficando.

O "centro" é algo que nunca sabemos muito bem o que é… Aparentemente é um centro comercial. No entanto, percebemos que as pessoas vivem lá. Pelo que parece ser uma cidade fechada num arranha-céus. Uma coisa que, por enquanto se vê mais na ficção científica.

A alegoria é sobre o capitalismo, blá, blá, blá, e sobre como tudo se vende e como tudo é esmagado. Nada que não se possa encontrar por aí em tantos outros livros. Há Orwell, há Huxley, há tudo aquilo a que estamos habituados. Há um pouco de Platão também, mas muito pouco.

Mas há Saramago, e ele consegue fazer magia com um cão. O Achado é o grande personagem desta Caverna, onde pouco acontece que realmente interesse para além dele.

Para mim, foi um enorme prazer, como sempre. Para quem não conhecer ainda Saramago, há melhores livros para começar.

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5 comentários

De Vespinha a 19.09.2012 às 00:03

Tambem ainda me falta Clarabóia... é para saber que tenho sempre ainda um Saramago por ler. :)

De pedrices a 19.09.2012 às 10:34

Também guardei As Pequenas Memórias (mas é porque cada vez que o começo a ler fico demasiado emocionado) e o Viagem a Portugal (porque talvez um dia possa lê-lo e fazer a viagem ao mesmo tempo).
:)

De C. a 19.09.2012 às 12:54

Se a memória não me trai o 1º livro que li de Saramago foi o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e achei a escrita, o conceito muito bons (agradou-me a humanização do JC), depois li "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e rendi-me à escrita de Saramago. A partir daí fui tentando acompanhar os livros que iam sendo publicados (tenho, portanto, uns bons anos na companhia deste senhor ). Sinto as suas personagens próximas, são de carne e osso, constituídas dessa matéria capaz do pior e do melhor.
A morte de José Saramago, por mais que a razão apresente o argumento da idade, é semelhante à perda de um familiar, possivelmente de um tio-avô, que quando pequenos ouvíamos narrar as suas histórias e que as tínhamos como esse mundo partilhado a dois, fazendo deste nosso familiar o n/ herói, e à medida que o tempo ia passando , e a realidade se ia impondo, ia crescendo o respeito, o carinho, a admiração. É tão estranho ver os n/s heróis tornarem-se mortais (qual Aquiles), ver o Saramago fisicamente debilitado da apresentação do "Caim", que ainda assim se lançava de peito aberto à crítica, sem medos- É a esse José Saramago a que regresso agora ao ler os cadernos de Lanzarote.;)

De pedrices a 19.09.2012 às 14:03

C, obrigado pelo bonito texto. Podes ver nos meus tags sobre Saramago que partlhamos a admiração. Até o primeiro livro foi o mesmo :)
Foi triste e foi lindo vê-lo na apresentação do Caim, na vez seguinte que o vi, já não tinha vida... Mas ainda há livros para ler :)

De Ricardo Cruz a 19.09.2012 às 22:05

Engraçado como este post pode ligar-se com o meu sobre o livro "As Intermitências da Morte" - salvaguardando, é claro, as evidentes diferenças de fôlego literário entre ambos.

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