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Hesitei bastante antes de escrever este texto. Não tenho intenção, neste blogue, de ir mais longe do que deixar as minhas impressões de leitura. Tanto quanto possível, gosto de ficar pelo literário. Mas este livro é tão provocatório, a um certo nível, que apetece responder ponto a ponto aos insultos que Henry Miller faz ao seu próprio país. Por outro lado, parece-me que os "argumentos" são tão primários que é melhor deixá-los com quem os produziu e considerar apenas a parte interessante do livro - a viagem à Grécia. Miller descreve nesta obra uma viagem que fez à Grécia pouco antes do início da 2ª Guerra Mundial. O percurso é intenso e muito interessante. Embora haja uma certa tendência para tratar quase tudo como a coisa mais maravilhosa que já se viu na vida. Espero que seja por a Grécia ser realmente assim… Como "companheiro de viagem" Miller é muito interessante. O problema é que resolve dar lições de moral a tudo e a todos, imbuído de um espírito de "regresso à pureza" que a viagem à Grécia faz com que lhe suba à cabeça de forma desmesurada. Isto não me devia merecer tanta atenção mas vou dar um exemplo: Miller diz, a certa altura, qualquer coisa como o mais velho edifício de Creta ir permancer em pé quando o mais novo dos Estados Unidos já tiver ruído. E isto é tão desnecessário, tão boçal que eu não compreendo sequer que este livro seja bem considerado, em termos intelectuais. Então para dizer bem da Grécia é preciso dizer mal de outros povos? Ou será que Miller o quer fazer a todo o preço e sem qualquer escrúpulo? É pena. Uma das experiências mais enriquecedoras que a história dá é essa capacidade de perspetiva, de perceber as várias camadas que vão compondo aquilo que fomos e o que vamos sendo. Miller parece só ver uma. É triste.

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15 comentários

De Vespinha a 20.06.2012 às 23:30

Nunca li nada de Henry Miller, mas pelo que contas também não fiquei com muita vontade de ler. É que não gosto mesmo nada de pessoas arrogantes e com a mania da superioridade...

De numadeletra a 21.06.2012 às 15:45

Nunca tive grande interesse em ler Henry Miller mas agora a vontade é zero.

Muito obrigada, Pedro, é que perder tempo precioso a ler o que não não vale a pena é um grande desperdício!

De 222 a 21.06.2012 às 18:51

A edição é lindíssima, como todas as desta colecção da Tinta da China, mas quanto ao conteúdo... pois... concordo contigo. Miller era um ser excessivo, e o livro é demasiado Miller. Escolham-se outros companheiros de viagem.
;)

De Prometeu a 17.09.2012 às 15:53

A leitura deste livro é obrigatória.
Não avaliem um livro sem o ler e com base num crítica.
É Miller no seu melhor. "Demasiado Miller" seria o "Sexus".
Ele diz o que pensa e é um excelente contador de histórias. É um apaixonado que caracteriza a Grécia por contraponto aos seus EUA. Miller foi um autor viajado e escreve com o coração. Quando "diz mal" da América do período da II GM, tem conhecimento, legitimidade e autoridade para o fazer.
Das poucas (re)edições excelentes deste ano até agora.

De Rui Meireles a 31.05.2015 às 02:44

Estou agora a ler o Colosso de Maroussi e considero-o um livro muito interessante porventura empolgante porque não tenho nenhuns preconceitos, os comentários que adjectivam de excessivo Henry Miller talvez tenham muito a ver com este tipo de pensamento:
"A viagem deixa de ser uma travessia -da Natureza, se assim lhe quisermos chamar- e transforma-se numa debandada, na derrota das forças da ganância, da malevolência, da inveja, do egoísmo, do ódio, da intolerância, do orgulho, da astúcia, da duplicidade, etc."

De pedrices a 05.06.2015 às 18:47

Não sei se interpretei bem mas se a viagem é uma "derrota da intolerância", parece-me que Henry Miller não viajou verdadeiramente. O que o vejo a fazer é a alimentar a malevolência, o egoísmo, etc.
Mas é sem dúvida um livro muito interessante. E se o li antes de ir à Grécia, agora que já lá fui três vezes, só posso dizer que nunca a vi tão bem descrita como em Miller. Volto é a dizer: não é preciso rebaixar uns para enaltecer outros.

De Rui Meireles a 05.06.2015 às 22:19

Respondo com outra citação de Miller referindo-se à cultura Norte Americana:
-"Nunca houve magnata empresarial que tivesse no rosto uma expressão tão afável e radiante como aquele grego miserável. Naturalmente , não nos podemos esquecer do seguinte: o grego matou apenas um homem, num acto de cólera justificada, enquanto o bem-sucedido homem de negócios americano mata milhares de inocentes, homens, mulheres e crianças, enquanto dorme, e todos os dias da sua vida."
Será que já entendeu?

De pedrices a 08.06.2015 às 19:52

Não, confesso que não entendi. Um erro não justifica o outro. Uma morte não é desculpável porque há outro que mata mais. Há várias frases do senso comum que poderia acrescentar. Mas tudo se resume ao essencial, repito: a grandeza da cultura grega não precisa de rebaixar ninguém para ser enaltecida. Eu amo a Grécia pela Grécia, não preciso de odiar ninguém, nem nenhum país, para a enaltecer.

De Rui Meireles a 06.06.2015 às 01:32

Miller relata apenas o que vê e segundo os seus conceitos muito pessoais avalia-o...Faz uma análise da Grécia de meados do século XX, tenta relacionar esta com o que conhece sobre a Antiguidade Clássica que é a sua busca essencial e compara-a, a outros Povos e Civilizações.

De pedrices a 08.06.2015 às 20:00

Caro Rui, também apenas comento segundo os meus conceitos muito pessoais, os quais recusam a abordagem de Miller, por tudo o que ela representa de xenofobia. Os gregos não são melhores que os americanos, nem os americanos são melhores do que os gregos. Ninguém é melhor do que ninguém. Viajar é ver as diferenças, mas a viagem pelo preconceito é demasiado curta para o meu gosto.

De Rui Meireles a 08.06.2015 às 21:58

É evidente que há neste livro de Henry Miller uma crítica acesa ao Capitalismo e particularmente aos Estados Unidos que é o seu próprio País. Quando Miller refere que um homem simples cometeu um crime e pagou por ele, afirma que em contrapartida muitos outros - como por exemplo, hoje, os famosos investidores - contribuem com a sua ganância para a morte e sofrimento de muitos seres humanos e ninguém os condena por essas responsabilidades. Eles próprios não têm consciência dessas responsabilidades.Dormem bem sem peso algum nas suas mentes. É essa a questão mais presente ao longo do livro, particularmente quando ele critica os Gregos descaracterizados pela emigração -pela paixão desenfreada pelos bens materiais que desenvolveram- e todos os viajantes provenientes de Países desenvolvidos, especialmente os que mantêm uma atitude de arrogância e superioridade para com os Gregos e para com a sua cultura.

De Rui Meireles a 08.06.2015 às 22:06

Não há um apelo ao ódio, há uma leitura política. Se concordamos ou não com ela é outra questão, mas aquilo que eu verifiquei nos primeiros comentários feitos nesta página -e eu vim aqui apenas tentar obter algumas opiniões- , foi que esta leitura é rejeitada por alguns por simples preconceito político. Houve quem se pronunciasse de imediato que só por isso - por saberem através destes comentários esse aspecto mais político de Miller - se iriam abster de o ler. Isso é preconceito. Constitui um acto auto-inquisitório.

De Rui Meireles a 09.06.2015 às 02:17

Repito: -Passei por aqui porque estava na Net a tentar recolher outras impressões sobre o livro que eu lia, chegaram-me ao conhecimento os vossos comentários, li-os e dei os meus próprios bitaites, apenas isso.

De pedrices a 09.06.2015 às 10:26

Sim, e ainda bem. É sempre bem vindo mesmo que não concordemos.

De Rui Meireles a 09.06.2015 às 15:58

Ok, obrigado pela disponibilidade. Acho que o livro é bonito, prende porque se lê de um fôlego, e tem muita graça especialmente no que se refere aos comportamentos humanos.

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