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(leitura não aconselhada a quem não leu o livro) 
 


Crime e castigo é, antes de mais, um livro de sonho, classificação estranha para um livro como este mas que se explica brevemente. Qualquer leitor de policiais (género que não visito muito mas que me entusiasma particularmente) deseja, ou, lá está, sonha, com um livro assim. Isto porque a leitura é empolgante, porque as personagens têm uma densidade invulgar e, porque, o suspense se mantém da primeira à última linha, apesar de o principal ser revelado desde o início.
Já se sabe que Dostoiévski é um artesão perfeito da explicação das profundezas da natureza humana. E é também alguém que consegue colocar tudo o que um homem é entre as capas de um livro. O que Dostoiévski acrescenta em Crime e Castigo, às suas habituais explorações, é a tese da superioridade de alguns em relação a outros. O personagem principal deste livro é um criminoso que comete um crime porque acredita que tem o direito de o fazer. Esta tese é não só aplicada como, também, explorada academicamente num artigo escrito pelo próprio personagem que depois a debate com outros ao longo do livro. Ora, de uma tese deste tipo nasceria, possivelmente, um livro perigoso. No entanto, Dostoiévski apresenta o seu personagem, e esta sua “ideologia”, de forma tão subtil, tão bem sustentada, e tão admiravelmente condenada ao absurdo, que não há forma de deturpar o pensamento e a lógica daquelas premissas.
Muito se fala do arrependimento, e da análise do mesmo, na análise desta obra. Para muito, o castigo é, verdadeiramente, o calvário que o arrependimento provoca. Ao pé disso, a reclusão não parece, sequer, suficiente ou poderoso. Porém, acredito mais num Crime e Castigo como análise do fracasso. Note-se que Dostoiévski conviveu com criminosos quando esteve na Sibéria. A partir desta obra conclui-se, facilmente, que os conheceu muito bem e que ficou apto a estudá-los em profundidade. Por isso mesmo, porque nem toda a gente se arrepende daquilo que fez; e porque todos procuramos um sentido, algo que justifique as nossas acções, parece-me que Crime e Castigo é, sim, uma análise do fracasso de um homem. Alguém que cometeu um crime porque achou que era melhor do que a vítima, tendo, por isso, esse direito. O grande desafio parece ser, muito mais, o de conseguir cometê-lo sem ser apanhado do que o acto em si. Há até comentários sobre como toda a gente erra e acaba por falhar. Raskolnikov tentou ser melhor, achou que foi melhor mas, pelo pânico de achar que podia ter cometido erros, acabou por se enredar numa teia que o leva a várias consequências diferentes das que desejava: é descoberto, num caso; confessa o crime, noutro. Para mais, nesta confissão, acaba por ser ouvido por uma terceira pessoa que passa, assim, a saber também que foi ele o autor do crime.
O fracasso é, aqui, já absoluto. Quando Raskolnikov, finalmente, se vai entregar, já falhara em tudo aquilo a que se propusera. O desprezo pelos objectos do roubo levam-nos a perceber que nada mais interessava do que cometer o crime perfeito, aquele em que não se é apanhado ou descoberto.
Acrescente-se também que o “pecado original”, o crime a cometer, leva a um efeito colateral, uma outra morte. Também esta não aparece como motivo para se pôr em causa o principal.  Nas reflexões de Raskolnikov, nos seus reforços de como matar uma velha inútil e má não é motivo de arrependimento, esta segunda morte é relegada para segundo plano. Aparece mais como um incómodo, algo que foi necessário fazer, um detalhe infeliz. Isto só reforça a tese principal, os fins justificam os meios.
O fracasso de Raskolnikov é total porque acaba por ser apanhado e, em parte, por sua própria culpa. O que resulta na conclusão óbvia de que quem se julga superior aos outros, quem se arroga a ser melhor, matando sem escrúpulos, por vaidade pessoal, acaba por ser algo bem diferente de um homem melhor que os outros. O que nos tornamos, nesses casos, pelo contrário, é algo de muito inferior, e fracassado.

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1 comentário

De rike22 a 04.08.2008 às 20:25

Sim, mas já consideraste a possibilidade de o anti-herói desta história ter apontado, mesmo antes de cometer o crime, para o castigo? E se o seu objectivo tiver sido, não o "safar-se" por se considerar um "homem melhor que os outros", como tu dizes, i.e., superior à lei, mas sim um um auto-martírio que lhe permitisse a possibilidade de redenção de uma vida vazia (do significado daquilo que é ser-se humano? da possibilidade de empatia? de Deus?...) Porque, se Raskolnikov ele próprio, ainda que por palavras não ditas mas antes pensadas, semi-conscientes, nos vai revelando esta possibilidade, então ele não "fracassou", antes foi totalmente bem sucedido no seu intuito interior: a redenção.
rike22

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