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Andava há imenso tempo para ler um livro desta autora. E este é capaz de ser aquele que menos me interessava. Mas foi ele que apareceu lá em casa, portanto, havia que aproveitar. Em boa hora o li, embora me pareça muito sobrevalorizado no que por aí vejo escrito/dito sobre ele. Em primeiro lugar, talvez seja injusta a crítica que vou fazer de seguida. O livro é o que a autora escreveu ou aquilo que dizem sobre ele? Esta discussão, que passa por saber se a obra ainda pertence ao autor depois de este a “libertar”, não pode ter lugar aqui, não é o espaço nem o tempo para isso. O que ressalta é que se O Retorno fosse o que dizem que ele é, seria um péssimo livro, muito fraco. Se O Retorno é o livro que a autora escreveu, sem mais pretensões do que abordar a questão dos retornados, a partir da visão de um adolescente, então é um livro interessante e, acima de tudo, uma leitura agradável. O problema, se é que há algum, está, portanto, numa certa ambivalência que é provocada, antes de mais, pela opção tomada em relação ao narrador. A verdade é que a visão de um adolescente não permitiria que o livro fosse além de uma relativa superficialidade que, no caso desta temática, parece desaconselhável. Mas o texto não é fiel ao seu pressuposto, e este adolescente descreve muito mais do que se esperaria, está atento de uma forma ago estranha. E isto provoca uma relativa sensação de artificialidade porque, logo a seguir, voltamos a ser recordados de que é um adolescente quem fala. Enfim, adolescente bastante adulto, mas só às vezes. Não consegui resolver este conflito na minha leitura. Ora, este é um dos aspetos que eu tenho visto mais elogiados – a coerência da narrativa, a precisão estilística, etc. Eu vejo um narrador que numas coisas é “muito à frente” e faz uns comentários muito interessantes e adultos e, noutros, se refugia no óbvio, ou seja, não vai mais à frente porque não seria normal que um adolescente o fizesse. Depois há a mãe, que podia ser um contraponto interessante, trazendo à história elementos que o narrador não poderia trazer. Mas não, a mãe não é boa da cabeça, por isso, não serve. Enfim, há o pai, esse parece um homem de ideias firmes, talvez o personagem que mais valeria a pena conhecer, aquele que mais nos poderia mostrar o que era ser um português em Angola que, de repente, se vê a peder tudo. Mas não, o pai é arredado da narrativa e vai aparecendo e desaparecendo, ao sabor das conveniências e não ao sabor daquilo que era bom que fosse. Nada contra. Mas é pena. Nada disto faz com que O Retorno seja menos agradável de ler. Na verdade é bastante. O estilo é eficaz e fluido, embora seja, muitas vezes, Lobo Antunes. O que não é nada mau, tendo em conta que é um Lobo Antunes com uma narrativa inteligível para contar. Tudo isto para dizer que O Retorno, como livro sobre o ultramar e o drama dos retornados, como documento de uma época, não é grande coisa. Porque é que o classificaram como tal, então? Eu diria que é precisamente por faltarem livros sobre o tema. Se houvesse mais, este seria mais um, apenas mais um e, se calhar, um dos mais agradáveis de ler, de forma alguma um dos mais profundos. No fundo, o problema deste O Retorno não é provocado por ele, mas sim pelo que não existe à volta. É como se ele tivesse a obrigação de ocupar um espaço que clama por ser preenchido e que, por isso, ao mínimo vislumbre de um candidato, logo se levantam vozes a dizer que chegou o prometido. Libertemos então o livro de tudo isso. O Retorno é um livro que conta a história de um miúdo que é um dos chamados retornados. Através dessa história, conhecemos um pouco do drama que esse episódio da nossa história foi para os seus protagonistas. E pronto, o livro fica exatamente onde está, na história de um episódio da vida de um puto e da sua família. E isto já fez dele um livro a ler, mas só porque é giro. Para ser justo, devo admitir que pouco percebo de literatura portuguesa que se tenha debruçado sobre o tema dos retornados. Em parte este crítica é altamente condicionada por aquilo que li de outros. Mas, outra vez invocando a justiça, devo referir os livros de Guilherme de Melo (especialmente A Sombra dos Dias) que, não sendo literariamente nada de especial, entram bem fundo nisso de ter vivido nas antigas colónias portuguesas. Que pena O Retorno não ser esse grande livro sobre os retornados, uma espécie de reencontro de um certo país com a sua história. Que pena e, no entanto, não temos o direito de exigir que ele seja mais do que aquilo que é. Eu não sei o que a autora quis mas aos críticos pedia-se um pouco mais de ponderação, acho eu.

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2 comentários

De 222 a 28.01.2012 às 19:45

Hum... mto interessante o que dizes. Vou ler o livro.

De 222 a 15.02.2012 às 21:44

Li-o há umas semanas, com bastante interesse, mais pelo assunto do que pelo estilo. Pareceu-me um bom exercício de escrita; uma novela rápida, eficaz; muito "acessível", de facto, e, consequentemente, muito limitada, mas gostei. Concordo contigo no facto de ter havido uma sobrevalorização do livro por parte da crítica - prova de que a crítica continua igual a si mesma, e que o melhor é continuarmos a relativizá-la.

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