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Este livro e eu tivemos um caso, um desses casos de amor à primeira vista. Lembro-me que o vi pela primeira vez num blog, onde alguém falava de como a capa daquele livro, na altura ainda por sair, era bonita. E eu, que também achei, fiquei imediatamente rendido. Quase me apeteceu fazer um post só para dizer que ali estava um caso de um livro que apetece mesmo comprar só por causa da capa. Mas claro que não passava disso, julgava eu.

Uns dias depois, conheci-o numa livraria. Peguei-lhe e fui lendo um pouco. Fiquei logo preso. Deixei-o com a convicção de que haveria de voltar. Já não era só a capa, era algo mais. Já não o achava apenas bonito por fora, comecei a achar que era também bonito por dentro. Não é isso o mais importante?

Bom, passados alguns dias, ofereceram-mo. Resisti durante algum tempo, até porque havia outros livros já a meio. Mas foi mais forte do que eu. Ontem à noite, como quem não quer a coisa, fui buscá-lo à estante. Li-o quase todo e, agora já chega de desvios, vamos lá falar deste O Sentido do Fim. Apesar de eu ter tido algum cuidado, o texto que se segue pode ter elementos que revelam demasiado do livro para quem nunca o leu.

O início do livro invoca recordações. Não sabemos ainda o que são, mas avançamos com curiosidade. Pelos vistos, trata-se de uma história de adolescentes. Amizades, literatura, amor, sexo, todos os ingredientes de uma história com alguns rapazes. Os apontamentos filosóficos abundam, mas surgem completamente integrados na história, com um sentido de oportunidade acutilante, nunca nada é forçado na escrita de Barnes.

Depois, esta primeira parte acaba. E a vida passa depressa, o nosso protagonista, ainda agora tão jovem, já está no fim da vida. E o resto do livro é o de um olhar para trás. Mas agora o olhar é diferente, a idade avançou e, por isso, também a forma com se vê e sente a vida são diferentes. Um elemento do passado regressa e faz com que Tony, é este o nome do nosso rapaz-que-agora-é-velho, tenha que recuar nas suas memórias para rever o que fez, quem foi, o que sentiu. A grande descoberta é que o passado, afinal, muda no presente, e muda muito por influência do futuro. Recordar pode ser, também, transformar. E esta talvez seja a grande reflexão que este magnífico livro nos oferece.

Mas ainda há mais, perto do fim. Quando o livro já parecia ter dado tudo o que teria, há mais. É então que a história, propriamente dita, se revela, alguns traços inesperados começam a aparecer, certos mistérios começam-se a revelar. O livro sobre o tempo e a memória transforma-se também no livro sobre o remorso.

 O Sentido do Fim tem apenas 150 páginas. Mas tudo nele é tão rico que se sai delas com muito mais do que o tamanho faria adivinhar. Percorrer um período que vai desde a adolescência até à velhice, em tão pouco espaço, de uma forma tão eficaz, não é para todos. Barnes é um mestre na forma como organiza a narrativa, e faz deste livro uma pérola, bem brilhante.

   

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10 comentários

De Electronic Jazzy Girl a 29.12.2011 às 20:51

Começo por dizer que, deste post, só li os 3 primeiros parágrafos e o último.
Porquê? Porque os do início me deixaram com vontade de ir a correr comprar o livro e descobri-lo!...

"o texto que se segue pode ter elementos que revelam demasiado do livro para quem nunca o leu."

Apetece-me lê-lo e, como sempre, antes de o fazer só quero saber que é bom e que vai valer a pena. Que está bem escrito, de forma rica, que a história é interessante. O enredo, não. Isso é cá comigo.

Quem sabe será uma das minhas escolhas para 2012.
Obrigada pela sugestão!

De pedrices a 30.12.2011 às 16:51

A coisa que mais detesto é ficar a saber demasiado sobre os livros que estou a ler ou vou ler. De certa forma, acho que não usufruo deles da mesma forma quando já estou condicionado. Nada como ir descobrindo uma história tal como ela foi projetada :)

Ainda estou em "estado de encantado" com este livro :)

Boas leituras! E boa leitura deste, em particular.

De Electronic Jazzy Girl a 30.12.2011 às 17:37

Eu também!
Depois de ler um livro, principalmente se gostei, tenho vontade de ouvir a crítica de quem o tenha lido e de troar opiniões.

Obrigada, quero mesmo comprá-lo e lê-lo em 2012!

De Electronic Jazzy Girl a 15.01.2012 às 11:19

Terminei de ler \"O Sentido do Fim\" anteontem e, tal como aconteceu com o Pedro, ainda estou em \"estado encantado\".
Para ser mais específica, desde que o comecei a ler, na última 3a Feira, no voo que me levou até Bruxelas, que entrei de imediato em modo de paixão literária com ele. Senti como se a história me seduzisse tão depressa, que logo nas primeiras páginas fiquei rendida a ela. O apego foi enorme e durante essa viagem mal consegui deixar de ler. Foi como se, naquele avião, para mim só existisse eu e aquela incrível história que eu estava a descobrir.

Os dois dias seguintes, passei-os a trabalhar. Um trabalho exigente que me deixou cansada e sem tempo nem energia para ler. Ao chegar ao hotel eu só pensava em descansar, em aproveitar as poucas horas que o despertador deixaria livres para eu dormir.
Por diversas vezes eu pensei no, já meu, \"O Sentido do Fim\", recordando o que já tinha lido e, como é claro, imaginando e planeando a próxima leitura.
Finalmente ela chegou, no voo de regresso de Bruxelas a Lisboa. O cenário não foi muito diferente do da viagem inversa mas agora eu já sabia mais sobre Tony, Verónica, Margaret, Adrian, Mr. and Mrs. Ford e mais alguns secundários. Mas não o suficiente para poder prever o desfecho da história, tão-pouco dos pequenos mistérios que são criados numa página e são revelados 2 ou 3 depois. É uma característica forte do livro, esta de deixar o leitor em constante dúvida.
Nos escassos e rápidos momentos seguintes à chegada a Lisboa, fui aproveitando quase obstinadamente para continuar a ler e quando o avião que parou no Porto, assinalando assim o término da leitura em mais uma das minhas viagens profissionais, faltavam-se cerca de 30 páginas para conhecer o final. Mas eu continuava longe de o prever e com a certeza de que não poderia deixar passar aquele dia sem descobrir tudo o que aquelas 30 páginas teriam para me revelar.

Assim foi, já em casa, no final de um longo dia, de uma exigente semana do trabalho, lá estava eu, amarrada a esta tão cativante história e, desta vez, maravilhada com a tão genial forma que Julian Barnes fez para conseguir completar um puzzle perfeito, até ao mais ínfimo detalhe, das interrogações que foram levantadas durante toda a narrativa. Tudo se encaixou na perfeição, nada foi forçado ou precipitado.

Foi, sem dúvida, uma excelente surpresa neste novo ano de 2012.

Tenho de agradecer ao Pedro esta fantástica sugestão pois, se não fosse o pedrices, o mais certo era este livro passar-me despercebido e eu nunca reparar sequer nele.
É que a mim, é raro um livro me seduzir pela capa, sem eu ter alguma referência dele, a não ser que nela eu veja um nome de um escritor que me suscipte interesse.

De pedrices a 18.01.2012 às 10:43

Olá Jazzy Girl,

Fico muito contente ;) e gostei muito do texto que escreveu. Já dava um blog, não?

De Electronic Jazzy Girl a 19.01.2012 às 15:48

Olá Pedro,

Nunca enveredei por essa criação, limitando-me apenas a deixar comentários em blogs (a esmagadora maioria, sobre livros).

No entanto, não posso esconder o facto de, ainda que remotamente, já me ter passado pela cabeça essa interessante possibilidade.

Mas o tempo livre é escasso para a família e os mais chegados, para a vontade de ler, para o descanso, enfim, para os hobbies e a vontade de aprender sempre mais e mais... Surge-me, então, um receio: a indisponibilidade para dar a atenção devida à minha criação bloguística.

Mas agradeço a motivadora ideia.
Talvez ponderando melhor, quem sabe, um dia, vou mesmo pô-la em prática.

Entretanto vou deixando os meus comentários aqui e ali... E lendo sempre que posso, claro.

Não deixe o Pedro de dar boas sugestões de leitura aqui no pedrices. São benvindas :)

De pedrices a 24.01.2012 às 21:13

Não sou exemplo para ninguém, que tantas vezes abandono o meu blog por tempo indeterminado. Mas é normal que assim seja com um blogue de livros, o ritmo das leituras raramente pode ser tão rápido como gostaríamos. Tenho a esperança de que quem acompanha um blog destes o compreende. E, por isso, todos teremos também paciência para esperar pelos seus textos :)

Mas que isso não a faça deixar de os publicar aqui :)

E agora vou atualizar o blog! Até!

De numadeletra a 11.05.2012 às 23:44

A Electronic Jazzy Girl já tem blog no sapo, obrigada pela dica, Pedro :-)
Por isso, a partir de hoje, a Electronic Jazzy Girl passa a ser a numadeletra.

O blog está no início e eu ainda a aprender sobre blogs, já que esta é a minha primeira experiência no assunto... Daí que, desde a aparência ao conteúdo, o meu "Numa de Letra" ainda esteja muito naif... Mas o "pedrices" já está na lista dos blogs que sigo ;-)

Convido o Pedro a visitar o Numa de Letra e a deixar os seus comentários. Seria um grande privilégio para mim tê-lo por lá:

http://numadeletra1.blogs.sapo.pt/

De Alexandre Kovacs a 30.07.2012 às 14:00

Ótima resenha! Obrigado pela visita e comentário no Mundo de K.

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