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Há livros que valem pelo seu conteúdo, por aquilo que contam. Em alguns casos, isso é tão notório que uma avaliação mais objetiva se torna difícil. Difícil também, é falar deste livro sem contar a história, por isso, a leitura do que se segue, não é aconselhável a quem não leu o livro.
 
O Longo Inverno conta a história de uma família que é presa pelos soviéticos e levada para um campo de trabalho – a versão estalinista dos campos de concentração. Tudo começa quando esta família está em casa e a polícia chega para os levar. Assim, brutal e inesperadamente, a vida daquelas pessoas transforma-se num verdadeiro inferno – mas bem frio.
 
Quando os pressupostos são estes, não se pode esperar menos do que um murro no estômago. E é isso que Ruta Sepetys nos dá. Uma descrição simples da viagem de comboio que vai levar estas pessoas a percorrer milhares de quilómetros de comboio, em condições indignas e sub-humanas, sujeitas à brutalidade dos soldados e às vicissitudes da natureza, sujeitas à morte, para acabarem a trabalhar em condições tão cruéis, desumanas e degradantes que dá vontade de pedir que tudo não passe de ficção. E tudo não passa de ficção. No entanto, a plausibilidade desta história é assustadora. Aquilo que não foi assim pode ter sido bem pior. O que fica por contar é certamente pior do que o que fica contado.
 
A autora não vai tão longe como, por exemplo, se vai num livro tão brutal como As Benevolentes. Ainda assim, não precisamos de muito para perceber o horror que Ruta Sepety não quer que seja esquecido.
 
Não há aqui uma grande construção literária. Nem sei se isso interessa. A escrita segue uma linha de simplicidade que não destoa daquilo que quer contar, pelo contrário, o que é dito parece não precisar de mais nada para ser forte. Por isso, aqui e ali, há uma tentiva de criar frases de belo efeito, o que nem sempre sendo conseguido, não prejudica a leitura. 
As personagens acabm por ser tratadas de forma simplista, e não há grande profundidade de análise. Pouco importa, este é um livro que devia ser lido precisamente pela mesma razão que foi escrito: para que este horror não seja esquecido.
 
Claro que se nos lembrarmos de outras obras, e vou só dizer Primo Levi, esta se torna um pouco menos relevante. Mas há um ponto que talvez valha a pena lembrar: a experiência do horror é sempre pensada em termos daquilo que os nazis fizeram, não tanto do terror estalisnista, e muito menos sobre os povos dos países bálticos. Assim, talvez a Lituânia mereça ser mais lembrada, e para isso serve este livro. Isso é particularmente bem mostrado quando estas vítimas de Estaline ficam felizes por saber que as tropas nazis estão a fazer avanços. Quando o mal parece bom, a que ponto chegámos? Não digo que não haja muito mais livros com esta perspetiva, mas quantos acessíveis em português?
 
Uma nota para o título. Em inglês chama-se Between Shades of Gray e o que deveria estar na capa da edição portuguesa era a intenção do autor, não a opção discutível da editora. (este texto foi corrigido - ver comentários).

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2 comentários

De Susana Silva a 03.02.2012 às 17:54

Chamo-me Susana Silva e traduzi o livro que comenta no seu blogue, O Longo Inverno, de Ruta Sepetys. A escolha final do título de qualquer obra, seja ela de ficção ou de não ficção, cabe sempre à editora que a publica. Ao tradutor compete apresentar uma ou mais sugestões que podem ou não ser acatadas pelo editor. Este princípio aplica-se a todas as obras, independentemente do género a que pertençam e da região do planeta onde sejam publicadas. O título da obra de Ruta Sepetys foi uma escolha da editora, não minha. Não só não uso a minha profissão para cavalgar a onda do exibicionismo oco e bacoco, como gosto de assumir as responsabilidades que efetivamente me cabem. Fica sempre não cair na tentação do comentário apressado e leviano, mesmo quando criamos blogues para divagar sobre o que nos apetecer.
Melhores cumprimentos
Susana Silva

De pedrices a 07.02.2012 às 10:33

Cara Susana,

Obrigado pelo comentário. Leio livros, só isso. Tenho opiniões, só isso. E, portanto, não sabia que é a editora quem escolhe os títulos. Fiz uma crítica injusta e apontei o dedo a quem não devia? Mil desculpas e obrigado por se ter dado ao trabalho de esclarecer.

De qualquer forma, não vejo em que é que o meu comentário é apressado e leviano - é errado no alvo, e reitero o agradecimento pela correção. Continuo a dizer exatamente o mesmo, mas agora em relação à editora. E, se reparar, eu admito que O Longo Inverno até é uma tradução defensável, ainda que discutível.


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