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Post sobre a releitura de Todos os Nomes. O estilo em que está escrito, diferente do que habitualmente uso, não é imitação, bem fraca seria, nem é sequer homenagem, é apenas a vontade de escrever assim, depois de passar horas a ler Saramago.

 

Não obstante o post anterior, este aqui fica para maior detalhe sobre o Todos os Nomes. Desaconselha-se este texto àqueles que gostam de ler as coisas tal como foram pensadas quando escritas, com a impossibilidade de se saber o que está à frente, antes de lá se ter chegado.

Trata este Todos os Nomes do Sr. José, funcionário da Conservatória. Parece ser a sua vida andar de um lado para o outro a preencher verbetes, ora de quem nasce, ora de quem morre. Inflexível, pesada e assustadoramente formal é a atmosfera da Conservatória, onde nunca um risco é pisado, nem um desvio às normas aceite. O Sr. José, que de ser funcionário exemplar tem a fama, entra um dia numa espiral de acontecimentos que o levam a cometer atos impensáveis em tão rigorosa e austera figura. Mesmo no trabalho, começa a notar-se a sua errância, o desleixo instala-se, ao mesmo tempo que se revelam uma coragem e uma curiosidade inesperadas. O que leva o outrora funcionário modelo a mudar a sua forma de estar e viver é, apenas, um nome. Ao olhar para esse nome, um que nunca nos é revelado, pois só ao Sr. José é dado o privilégio de o ter num romance que diz falar deles todos, a curiosidade instala-se de tal forma no espírito do escrivão, que toda a sua ação passa a orientar-se com um só propósito, descobrir quem é a mulher a quem pertence aquele nome. Transforma-se então o Sr. José numa espécie de detetive, desses à moda antiga, que é como quem diz, sem recursos que não sejam o de por aí andar a fazer perguntas e, num ou outro caso, arrombar uma escola para nela procurar registos. Ainda que novato, ainda que cheio de erros de percurso, ainda que a roçar o perigo, o Sr. José progride na investigação e, apesar de nunca chegar a conhecer a dona desse nome, vai ter notícia da sua morte, o que leva o detetive para caminhos diferentes, tornando-se a razão da sua morte o novo leitmotiv. Mais ainda, tendo descoberto que a mulher se suicidou, quer o Sr. José saber os porquês, esse mundo no qual se entra com facilidade, mas dificilmente se sai com as respostas todas, se é a que a alguma completa se chega. Outro porquê, porventura o mais relevante, se uma hierarquia às perguntas for aplicável, é o de saber o que leva o Sr. José a toda esta demanda. O próprio é confrontado com esta, poder-se-ia dizer inquietação, a certa altura da narrativa e, evitando responder-lhe, deixa o leitor perplexo entre o querer saber a quem pertence o nome, e o não compreender o que vale, seja a quem for, chegar a essa informação. Talvez a demanda seja por amor, se pode um homem apaixonar-se por um nome, talvez seja por colecionismo, servindo, para o efeito, tanto aquele nome como qualquer outro e, não sendo pior nem melhor, assim fica porque assim o quis o Sr. José. Deixando de parte explicações ou interpretações, o que ajuda a que este texto chegue ao fim, e isenta o autor de mais complicações, escapando assim à lógica de que quem opina também deve explicar, fica que este livro é um dos mais estranhos e perturbadores. Nas outras metáforas de Saramago, seja na Cegueira, na Lucidez, na Morte intermitente, até mesmo no Homem Duplicado, se se aceitar a sua premissa, há sempre um fio de verosimilhança, Se aquilo acontecesse, isto que aqui se lê, faria sentido. É mais difícil dizer o mesmo quando se pensa em Todos os Nomes, talvez porque este seja um livro mais levado de um impulso, e talvez também porque é um livro mais desencantado, porventura mais ainda que o da Cegueira. Nomes, são isso, apenas nomes, mas o que resta se um corpo jaz sem nome associado, talvez nada, podiam os nomes ser trocados nas campas de um cemitério e tudo permanecer igual. E, contudo, nada nos faz ser mais nós próprios que o nosso nome, um, igual a tantos outros, no meio de todos.

 

 

 

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2 comentários

De Miguel a 22.05.2012 às 10:33

http://silenciosquefalam.blogspot.pt/2011/10/todos-os-nomes-jose-saramago.html

Leste em Junho do ano passado, eu li-o em Outubro :)

Tenho de me embrenhar mais nos livros do grande Nobel.

Viste o filme Jose e pIlar?

De pedrices a 22.05.2012 às 11:03

Olá Miguel,

Sim, vi o filme. podes ver uma espécie de opinião aqui: http://pedrices.blogs.sapo.pt/27645.html

É a opinião de um fanático, como se poderá ver :)

Ainda bem que tens gostado de explorar Saramago. Aposto que, a cada livro, vais gostar mais e mais

Abraço

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