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Acho que ando há demasiado tempo para escrever este texto. Talvez seja hoje que ele finalmente sai, talvez daqui a pouco comece a apagar o que escrevi, talvez não chegue a salvar o documento. De qualquer forma, preciso de escrever, e enquanto estas palavras vão saindo, há algo em mim que se vai sentindo mais aliviado.

Consigo lembrar-me do tempo em que olhava para os livros de Saramago cheio de curiosidade. O Evangelho parecia chamar-me. Era aquela edição em que, na capa, está o quadro que é descrito no primeiro capítulo (quantas pessoas não desistem da leitura por nada perceberem daquele primeiro capítulo…). Um dia, enchi-me de coragem e comprei o livro. Fiquei perplexo com a dificuldade em ler aquela forma de escrever. Parecia tudo tão diferente, com uma construção tão estranha, desconcertante e, ao mesmo tempo, estúpida. Sim, parecia-me estúpido escrever assim. Sem ter dado conta, houve uma altura que deixei de estranhar, ou, como se costuma dizer, entranhou-se-me a coisa, tendo passado eu a ler Saramago de forma tão natural como se sempre assim os textos tivessem sido escritos. Ainda hoje não encontrei nada que, a meu ver, seja tão perfeito como forma de expressão. Tirem-se daqui todas as considerações de objetividade, este é o meu postulado, é meu, inteiramente meu e completamente subjetivo. Tão simples quanto isto, a forma como Saramago escreve é aquela que mais prazer me dá a ler, aquela que mais coincide com a voz que ouço quando leio.

Depois do fascínio do Evangelho, continuei, tendo avançado para o incontornável Memorial, do qual, não obstante saber que era apenas um adiamento, desisiti. Dele desisti mais duas vezes, antes de o conseguir finalmente ler. Olhando para trás, é concerteza um dos mais belos livros de Saramago, mas não é menos verdade que foi aquele em que tive mais dificuldade em entrar. Por isso, depois do Evangelho acabei por entrar na História do Cerco de Lisboa, o livro onde esse revisor, Raimundo Silva de seu nome, resolve que onde estava antes uma afirmativa, deveria estar um não, e como esse não pode mudar a vida de quem o escreve, embora o alcance para a história, por melhor que se tente, não a apague mas a reescreva, o que não é de menor interesse. A partir daqui a ordem das leituras torna-se confusa, mas lá parti para o Manual de Pintura e Caligrafia, livro que pouco recordo e a que muito tenho que voltar. Lá passei pelo Levantado do Chão, impressionante retrato do único lado saramaguiano que sempre fui ignorando, o do comunismo. Não é que seja um livro sobre o comunismo, mas é definitivamente o livro de um comunista. A Jangada de Pedra talvez tenha confirmado, se confirmado não estava, o meu fascínio total com Saramago. O Evangelho identificava-se comigo pelo ateísmo convicto, a Jangada indentificava-se pelo iberismo. As ideias que me tinham surgido, e que pouco tivera oportunidade de discutir ou desenvolver, apareciam-me à frente, expostas com todo o poder e alcance que só a literatura pode ter. E depois foram os Cadernos de Lanzarote. Nessa altura, dizia eu, Gosto da obra, não gosto do homem. E convictamente mantive essa ideia até chegar a esses diários de um homem invulgar, de alguém que me merece um respeito e admiração que são tão grandes como a minha oposição às suas ideias mais profundas. Pode parecer paradoxal, se calhar porque é, mas é talvez por isso que o meu fascínio é tão intenso. Saramago abala-me. Ora ilustra tudo aquilo em que sempre pensei, ora apresenta ideias que rejeito profundamente. Daqui resulta um apreço estético, da minha parte, que não encontro em mais nada. Mas dizia eu que os diários me fizeram passar a gostar do homem. Talvez muito por causa de Pilar, e das coisas que ele escreveu sobre ela. Passei a olhar para aquela figura relativamente antipática com outros olhos. A perceber que aquela imensa sensibilidade, que aliás está em tantas passagens do amor de Raimundo Silva no Cerco de Lisboa, não era como as que habitualmente se veem por aí. Saramago é um homem que guarda para as palavras a expressão dos sentimentos, e poucas vezes daí resultam frases vulgares. Depois veio o Ensaio, o da Cegueira. Ainda hoje não voltei a ler nada que tanto impacto tivesse na minha vida. Que de forma tão violenta abanasse as minhas convicções, que de de forma tão certeira me mostrasse que os homens são, enfim, esta coisa horrível e, ao mesmo tempo, tão bela. A seguir, o Todos os Nomes, depois a Caverna, depois o Homem Duplicado, depois a Lucidez, esse outro ensaio onde voltam a surgir os cegos, depois, As Intermitências, depois o Elefante, depois, Caim, depois.

Depois, Saramago morreu. E ainda me falta ler a Viagem a Portugal, que tenho guardado para quando tiver, talvez, a idade que ele tinha quando o escreveu. Não sei porquê. Resolvi guardar esse, como também ainda guardo As Pequenas Memórias, e o D. Giovanni. De resto li tudo (não posso deixar de mencionar o Ricardo Reis, o melhor Saramago). Já reli o Evangelho, já reli o Cerco. Mas agora já não tenho Saramago. Já não há o lançamento dos livros dele, aquelas conferências espantosas, onde ele falava como quem não tivesse nada para dizer e encantava como se dissesse tudo o que eu sempre quisera ouvir. Agora já não há o autógrafo dele em cada livro. As pequenas palavras, pequenas as minhas, não as dele, que trocávamos por ocasião desses autógrafos. Agora já não há a emoção de comprar o novo livro, de acariciá-lo, de tremer ao abri-lo, de ler devagar para não acabar depressa. Agora já não há Saramago e, no entanto, escrevo isto e não o sinto. Porque neste último ano Saramago esteve comigo todos os dias. E ainda mais na semana passada. Primeiro, no Sábado, as cinzas. Ficar a ver a Pilar, a Oliveira, o Banco, a Frase no chão. Depois, no Domingo, o concerto no CCB, a Pilar novamente, o belo discurso da ministra da cultura, a música, as palavras, as fotografias dele, ele sempre. Depois, finalmente a coragem de ver o filme, José e Pilar. Filme que não posso comentar. Que se pode dizer de algo que nos faz chorar durante todo o tempo que o estamos a ver. Perguntem a outro, para mim ver Saramago e Pilar na sua intimidade é como que entrar naquela casa onde sempre nos sentimos felizes. Mesmo que um dos donos já lá não viva. E por isso é triste, triste demais.

Inaugurei também um hábito, acho eu. Ler Saramago no aniversário da sua morte. Porque nada mais justo se pode dar a um escritor do que lê-lo. Posso não voltar a vê-lo, mas posso sempre voltar a tê-lo. E por isso voltei ao Todos os Nomes, um dos livros que mais carinhosamente recordo. Voltei a ler e voltei a sentir o mesmo que há catorze anos. Como uma criança deslumbrada, acompanhei o Sr. José que um dia olha para um nome e quer conhecer quem é essa pessoa por trás dele. Como eu olhava para as capas amarelas que diziam José Saramago e queria saber quem era, e o que dizia aquele nome. O Sr. José, o do Todos os Nomes, nunca chega a encontrar a mulher, eu encontrei Saramago, embora nunca o tenha conhecido, o Sr. José acaba por saber que a mulher já morrera, eu sei que Saramago morreu, mas continuo com ele.

E nada me tira da ideia que é a Pilar quem o faz tão vivo. Enquanto ela estiver por cá, Saramago não morre tanto como comummente acontece a quem morre. Enquanto a força da Pilar o recordar, há algo dele que não parte. Sei que eles não se reencontrarão, e eles também sabem. Mas ambos sabiam que ao iniciar a vida em conjunto que iniciaram, partiriam para uma dimensão nova da vida, uma dimensão que raros conseguem explorar. E isso, só isso, me faz crer que talvez haja por aí uma exceção. Talvez Saramago e Pilar sejam, afinal, um só. Um afluente do outro, uma rua que se cruza com a outra, como na Azinhaga. E eu sei que sim, que Saramago está ali quando olho para ela. Ele próprio disse que o que queria dela era isto, Continuar-me. Pilar continua Saramago e, sem ser necessário ressuscitar, Saramago continua vivo.

Tentando em espanhol, Gracias, Pilar, por mantenerlo tan vivo.

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