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Acho que já disse por aqui o quanto admiro George Steiner. É hora de explicar porquê e, para isso, nada melhor do que um excerto do próprio (do livro Errata: revisões de uma vida):

 

“Mas o enigma da inflexibilidade do número e qualidade dos que são sensíveis às artes, apesar das melhorias na educação e no acesso, pode ter causas mais profundas. É possível que a capacidade humana para se interessar, para se comover, para capturar e responder ao pensamento e forma mais elevados, se restrinja a uma minoria mais ou menos constante, ainda que sem dúvida mais alargada do que a responsável pela criação artística e intelectual. «A verdade sempre foi apanágio de poucos» (Goethe). Caso se comprometa a tanto, a educação pode aumentar esta minoria. Mas não indefinidamente; não, segundo nos parece, de modo substancial. Os homens e as mulheres que desejam, resolver equações de segundo grau, que são capazes de acolher a um nível minimamente coerente uma partita de Bach, que respondem a um poema de Donne ou se debatem com aquilo que Kant chama uma «dedução transcendetal» (sendo que tudo isto são exemplos de cumes não lucrativos na história humana), são poucos e provavelmente continuarão a sê-lo. Constituem uma elite – uma palavra que me tem sido incessantemente atirada à cara, mas cujo significado é perfeitamente claro. Uma elite no mundo da música pop, do atletismo, da bolsa ou da vida mental é apenas o grupo que diz que há coisas melhores, mais merecedoras de atenção e de amor, do que outras.”

 

O que gosto em Steiner é esta profunda sagacidade. Ouço a toda a hora discursos sobre como estamos a caminhar para um mundo onde nada é devidamente valorizado, como estamos perdidos, como tudo está cada vez pior, etc, etc. Pois, eu também acho isso. Mas mais, eu acho que sempre foi assim. Uma frase do tipo “nestes tempos de degradação” pode ser encontrada em qualquer período histórico (esta foi tirada do Emílio de Rousseau). A verdade é que nunca houve um tempo em que todos os cidadãos fossem altamente cultos e dedicados à erudição.  E, para não variar, assim é nos dias que correm. É uma pena, mas não é um drama. E nem sequer é diferente do que sempre foi.

 

O que me preocupa, verdadeiramente, é aquilo de que Steiner fala a seguir:

 

“De onde decorre que um regime sócio-político óptimo é aquele que identifica, o mais cedo possível, a incipiente criatividade intelectual, científica ou artística, seja qual for a sua proveniência étnico-económica; é aquele que apoia essa criatividade através de todos os meios educativos disponíveis e que, depois, garante ao pensador ou artista ou cientista ou escritor os espeços psicológicos e materiais necessários ao exercício dos seus talentos, por mais anárquicos que sejam os seus pontos de vista, por mais crítica que seja a sua dissidência. Um tal regimes honrará pe premiará quase excessivamente os verdadeiros professores (…) Procurará, em suma descobrir e cultivar uma meritocracia do imprevisível, baseada na convicção de que a dignitas, a validação da nossa espécie neste planeta consiste no progresso desinteressado sobre a animalidade, através do espírito criativo. (…) Em qualquer comunidade avançada existem possibilidades para o ideal platónico. Mas não há consenso político sobre elas, muito menos nas democracias igulitárias e do consumismo de massas.”

 

Na nossa escola isto não existe, ou é raro. A mediocridade reina e isso é normal porque a maioria das pessoas vive, em termos culturais, num nível baixíssimo. O que espanta é que ela seja incentivada pela escola, a instituição que deveria dar a hipótese de se escapar. Francisco José Viegas fala também disso no editorial da Ler deste mês. E embora eu ache que ele exagera, precisamente por não perceber que a literatura é mesmo elitista (lamento, mas é; não vejo como é que se pode negar isso. A esmagadora maioria das pessoas praticamente não lê…), o seu texto mostra que em vez de se fazer o que Steiner diz: “a educação pode aumentar esta minoria”, faz o contrário, afastando o que é difícil do caminho dos estudantes.

Ainda assim, há um “espaço de liberdade”, a que Gadamer tão bem se refere. Isto significa que, perante a disponibilidade, eu ainda posso romper a barreira da mediocridade. Muita gente fá-lo. No entanto, se fizermos bem as contas, essa muita gente é, afinal, muito pouca. Como sempre foi.

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2 comentários

De Beijamimbutão a 08.11.2010 às 22:57

Esperemos então que esse dia nunca chegue, que nunca aconteça uma Era em que a maioria atinja um alto nível cultural (i.e., um alto grau sensitivo-criativo em relação às Artes ou Ciências), ao ponto de só se poder classificar de "elite" uma minoria (os medíocres), pois que, num tal cenário, o mais provável seria uma radical inversão de valores (como é costume ao longo da História): a "inteligensia" seria rapidamente menosprezada (precisamente por se encontrar em quase toda a parte, por ser comum à maioria da população); elites analfabetas, medíocres ou insensíveis contituiriam o avant-garde social (a-cultural, portanto), e, nessa condição, (minoritária, rara, utópica) veriam gradualmente o seu valor aumentar, ao ponto de os Livros Harlequin passarem a ser o novo "Cânone-Ocidental"... Meu Deus, e quem aguentaria viver num mundo em que toda a gente adorasse Platão, Dante ou mesmo Proust!!!

De 22 a 10.11.2010 às 20:58

Já dizia o G.Bruno, no séc. XVI: nihil sub sole novum... (que, por sua vez, é uma adaptação do Eclesiastes, portanto, ainda mais antigo).

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