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Quando escrevi aqui sobre o outro livro de Franzen, Liberdade, deixei a promessa de que havia de tirar a limpo essa ideia, que muita gente tem, de que este Correções é melhor. Bom, a conclusão (minha, pessoalíssima) é que não. Entenda-se que este é um romance extraordinário. Seja como retrato de época, seja como análise da natureza humana, seja na sua capacidade de refletir as várias fases porque passamos na vida, seja pelo desencanto que transparece, seja pela esperança, seja pelo falhanço de tentarmos as correções do que está mal, seja pelo sucesso de tentarmos as correções do que está mal. Há vários prismas e, em todos eles, este é um belíssimo livro. Mas eu gosto muito mais do Liberdade e acho que ele é superior a este, embora, provavelmente, só exista da forma que existe porque este foi escrito primeiro. É possível que o principal motivo seja o facto de eu me ter interessado infinitamente pelas personagens de Liberdade, coisa que não aconteceu aqui. Mas é isso, Correções é um livro sobre pessoas que são como são, sobre países que são o que são, sobre a forma como evoluimos e vamos fazendo escolhas. Mas todos eles, tirando talvez a velha Enid, estão ao serviço de uma história - e por mais deliciosa que ela seja, não pude deixar de desejar, aqui e ali, que os personagens fossem maiores do que ela. Adoro personagens que saem do livro e fazem o que querem. Liberdade estava cheia deles. Correções tem uma história com um pulso mais firme. Gosto da versão mais livre.

 

Sobre Franzen, fiquei convencido. Quem escreve estes dois livros é um excelente escritor. Hei de ler mais.

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- Que mal há em ganhar a vida? – perguntou Melissa. – Por que tem de ser inerentemente mau ganhar dinheiro?

- Braudillard poderia argumentar que o mal de uma campanha como “Em frente, Rapariga” consiste na separação do significante do significado. Em que o choro de uma mulher já não significa tristeza. Agora também significa: “desejar equipamento de escritório.” Significa: “Os nossos patrões importam-se profundamente connosco.”

(...)

- Desculpe, mas isto não passa de treta – declarou Melissa.

- O que é que não passa de treta?

- Toda esta aula. É só treta, todas as semanas. É apenas um crítico após outro a torcer as mãos a respeito do estado da crítica. Ninguém consegue, nunca, dizer exatamente o que está errado. Mas todos sabem que é mau. Todos sabem que “sociedade anónima” é uma palavra feia. E se alguém está a divertir-se ou a enriquecer... é asqueroso! Nocivo! E é sempre a morte disto ou a morte daquilo. E as pessoas que pensam que são livre não são “realmente” livres. E as pessoas que são felizes não são “realmente” felizes. E já se tornou impossível criticar radicalmente a sociedade, embora ninguém saiba dizer com exatidão o que está tão radicalmente errado na sociedade para precisarmos de uma crítica tão radical. É tão típico e perfeito você odiar esses anúncios! (...) Aqui as coisas estão a ficar cada vez melhores para as mulheres, as pessoa de cor, os homossexuais e as lésbicas, que estão cada vez mais integrados e abertos, e a única coisa em que consegue pensar é num estúpido problema inconvicente [sic] com significante e significados.

 

in Correcções, de Jonathan Franzen 

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Before...

20.07.13

Visto e amado, como sempre. Um destes dias cá voltarei para contar.

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E, pronto, este é o último post comemorativo dos 5 anos do pedrices.

 

Reservei para o final algo diferente. Há uns anos, uma amiga fez uma exposição. Até falei disso aqui. O interessante é que ela convidou algumas pessoas para verem a obra antes da exposição e desafiou-as para escreverem sobre o que viram. A regra era: entram, veem e não se fala mais do assunto. Depois, vão embora e escrevem o que quiserem. Finalmente, na exposição, foi apresentada a obra e os textos.

 

Por isso, o que deixo aqui é a obra da Maribel Sobreira e o texto que escrevi em resposta ao desafio.

 

Espaço, de Maribel Sobreira

 

 

Casulo, de Pedro (eu próprio)

Gostava de saber quantas voltas seria possível dar sobre o meu próprio corpo. Pergunto isto sem obter resposta, os teus olhos vazios fitam-me como que vegetando à volta de nada. Sento-me no chão e apago a luz mas, deixando a janela aberta, há uma brisa que me ilumina um pouco e uma luz que me refresca, fazendo-me sentir um pouco menos só. O quarto, vazio como nada, tolera a minha presença, talvez convencido de que nada poderei fazer para escapar. E, na semi-escuridão em que nos encontramos, as paredes parecem-me tão nuas como eu. O quarto é uma prisão, ou talvez seja o meu único espaço de liberdade. Falo em voz alta para o vazio, tentando comunicar contigo, querendo saber se posso pôr os braços à volta das minhas pernas, dobrar-me e dar um nó. A tua resposta é a mesma, nenhuma. Já nem os teus olhos vejo porque perdi a memória da tua imagem. Levanto-me e encosto-me às paredes, para sentir o frio no meu corpo. O meu peito esmaga-se um pouco, as minhas ancas fazem pressão, os meus joelhos mantêm parte das pernas à distância. Queria ser uma figura plana, grito; queria ser forte, penso. As paredes tornam-se elásticas quando a minha voz consegue falar mais alto. Faço mais força, até sentir dor. Primeiro é só o frio que me incomoda, depois é a pressão, as marcas dos relevos da parede passam a marcas na minha pele. Empurro mais, queria ter mais braços para me espalhar em mais direcções. Deito-me. Estico as pernas contra a parede, para cima. Abro-as. Sou um compasso virado ao contrário. Abros os braços no chão, atiro-os para o ar, sou um gato que caíu de costas. Deixo a noite começar a gelar-me e tento encostar mais partes de mim à parede. Quero sair, crescer para fora do quarto, viver mais, fora daqui. Há uma janela cheia de sons lá de fora, animais, pessoas, música, palavras feias; há fragmentos de conversas que parecem falar de mim, crianças que riem enquanto outras choram. E eu quero tudo. Alcançar tudo, viver tudo, ler tudo, comer tudo, dormir com toda a gente. Por isso faço força contra a parede e tento rompê-la. Não cede. Não consigo ser mais do que sou. Não consigo crescer. Talvez adormeça, de exaustão. Talvez não volte a acordar. Talvez prefira ficar a sonhar. Enquanto não durmo, vou rodopiando, desistindo do mundo lá fora; tapo os ouvidos, porque não quero ouvir que alguém ri quando outro chora, estico o braço, envolvendo um corpo imaginário que é o teu, em vez de o desejar estranho, esqueço os animais na vertigem de que eu sou apenas mais um deles, e estico-me, como um fio-de-prumo, para não ouvir as palavras que, mesmo bonitas, podem sempre dizer coisas feias. Apenas deixo ficar a música, assistindo aos meus dedos a moverem-se ao seu ritmo. E fecho os olhos para ver para dentro de mim, e encontro lá tanto por descobrir. Concentro-me em crescer por mim, em enraizar-me de mim, para que este resto, este eu, agora já sem ti, juntamente com esta solidão, deixem entrar o bafo quente que se solta da janela para me aquecer, em vez do frio das paredes. Estendo novamente os braços e já sinto as paredes mais macias, já me sinto maior. E já não preciso de nada lá de fora. Solto o ar e imagino-me ali para sempre, como se tu não existisses e fosses apenas um doce som que ficou da paisagem, como quando se apaga a luz mas se adormece, já sem medo.


 

 

 

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4º post comemorativo do aniversário do pedrices.

 

Claro que isto não podia passar sem uma lista. Portanto, resolvi fazer escolher os destaques destes 5 anos. Critérios:

 

- um livro por ano sobre o qual tenha escrito aqui. Vá, dois, um de ficção e outro de não-ficção.

- o post que escrevi ter um texto decente

- não pôr livros do Saramago porque se o fizesse já estava tudo escolhido...

 

Pronto, desisti logo do primeiro critério... O segundo foi o possível e o terceiro cumpri quase, ou seja, um dos livros escolhidos foi traduzido por Saramago.

 

5 anos, 5 livros:

O critério para construção da lista passou por escolher um livro para cada ano. Livros que tivesse lido e comentado aqui. A tarefa revelou-se demasiado difícil. Como é que eu podia escolher apenas um em cada ano? Então adicionei o critério da qualidade do post, tentando da pré-seleção escolher aquele cujo post fosse melhorzinho. Impus-me também a regra de não colocar nenhum livro de Saramago, se não, provavelmente, eram 5. E os meus posts sobre ele são sempre demasiado pessoais.

 

O resultado final continuou a ser frustrante e lá tive que eliminar a regra de apenas um: criei a figura do ex-aequo (muito conveniente, de facto) e admiti duas categorias: ficção e não-ficção.

 

Sendo assim, a lista final que se devia chamar 5 anos, 5 Livros, é esta:

 

2008

As perturbações do pupilo Torless, de Musil

Neve, de Pamuk

Crime e Castigo, de Dostoiévski

 

2009

A Ponte sobre o Drina, de Ivo Andric

 

2010

As Benevolentes, de Jonathan Littell

 

2011

Anne Karenine, de Tolstoi

Europe at War, Norman Davies

 

2012

Memórias de Adriano, de Yourcenar

Pós-Guerra, Tony Judt

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Mais um texto comemorativo dos 5 anos do pedrices.

Desta vez deixo aqui um texto sobre uma das minhas maiores paixões, da qual acho que nunca falei – os Açores, em particular, o Pico. Não confundir com o Pico, o cão que, sim, tem esse nome por causa da ilha que, por acaso, também é nome de uma gata que tive. Confuso? Pois, acredito, mas é mesmo assim. Há muitos anos, tive a sorte de a minha turma do secundário ter sido escolhida para fazer um intercâmbio com uma escola açoriana, do Pico. Durante uma semana eles vieram cá e ficaram nas nossas casas, durante outra semana nós fomos lá e ficámos nas casas deles. Foi uma experiência incrível, cheia de emoções próprias da adolescência. No meu caso, ficou para sempre. Fui ao Pico nesse ano e já lá voltei várias vezes. No total, estive nos Açores 5 vezes (curiosa esta insistência do número 5 aqui) e só me falta visitar Santa Maria.

Não vou escrever muito mais sobre essa experiência porque me levaria a caminhos de demasiada saudade, talvez de algum sofrimento. Mas não posso permitir que o meu blog não tenha imagens dos Açores. Porque na altura não havia ainda as facilidades do digital vou só pôr aqui fotos da última viagem. Por isso, apresento-vos a minha última viagem aos Açores (2009):

Itinerário:

Lisboa – Horta (Faial) – Flores – Corvo – Horta (Faial) – Pico

 

Quando se chega ao Faial, é possível ver o Pico ao longe. Ele estava assim quando cheguei. O interessante aqui é poder ver-se o topo, o Piquinho, um sinal de que o visitante é bem vindo. Eu iria apanhar logo a seguir o avião para as Flores, o que me custou bastante porque me apetecia ir para o Pico de imediato. Mas, mesmo assim, ele saudou-me, aparecendo, como sempre fez nas 5 vezes que lá estive. O Pico nem sempre é fácil de ver e há quem passe dias nas ilhas sem que as nuvens o revelem uma vez que seja.

Prossegui então a viagem para as Flores. A ilha que eu mais queria conhecer e que só ao fim de 15 anos consegui, finalmente, visitar. Não tenho uma foto que lhe faça justiça, nem acredito que alguém possa ter.

Quem vai às Flores, dificilmente resiste a um salto ao Corvo, a ilha minúscula que, no entanto, tem um dos maiores tesouros dos Açores, o Caldeirão. Não tive foi a sorte de o ver sem nuvens...

A ilha seguinte foi o Faial. Aqui o destaque é óbvio - o Vulcão dos Capelinhos. Desta vez com a novidade, para mim, de ter um museu (debaixo da terra - aquitetonicamente exemplar) fantástico.

Finalmente, o Pico, a minha paixão eterna. Deixo-o falar por si.

 

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Segundo post de comemoração dos 5 anos do pedrices.

Desta vez, decidi-me a publicar um texto que escrevi há 5 anos e que nunca publiquei. Porquê? Porque não cheguei a terminá-lo e porque, sinceramente, é um texto um bocado caótico. Mas, enfim, decidi-me a deixá-lo aqui, acho que também não faz mal a ninguém. Está como estava quando o "abandonei"...

 

Um Kafka à beira mar, de Murakami

 

Desta vez optei por um exercício diferente.

Estou a ler este livro e vou comentar ao longo dos dias o que me vai acontecendo dessa experiência.

 

O primeiro comentário, ao fim de 100 páginas, é de expectativa e encanto. Sim, estou encantado com o universo que estou a explorar mas, claro, ainda não percebi nada. Temos um miúdo de 15 anos que foge de casa e conhece uma rapariga no autocarro; depois conhece um rapaz na biblioteca que frequenta… Um dia “acorda” sem saber onde e… não sabe o que aconteceu mas tem sangue na roupa… Hum… Ok…

Depois há um velho que fala com gatos e que, pelos visto, foi protagonista de uma outra história – a do incidente da colina tigela de arroz. Ok…

 

E isto irá para onde? Estou louco por saber!

 

Mais umas 50 páginas e continuo aos papéis, expressão particularmente adequada, tratando-se de um livro…

 

Bom… vamos ver, há aqui uns “mistérios”, ou umas linhas de investigação. Tentando perceber:

- o personagem aparentemente principal, que dá pelo nome de Kafka, embora seja mentira, tem 2 mistérios para resolver:

   - quem é a irmã que a mãe levou consigo quando abandonou a família há muitos anos. Claro que isto leva a outras questões, tipo: porque é que a mãe o abandonou a ele, levando apenas a irmã que, ainda por cima era adoptada e ele é filho legítimo. Interessante é que Kafka não consegue evitar pensar, de todas as raparigas que conhece, “será que é esta a minha irmã… poderia ser?

   - o que é que lhe aconteceu quando, um dia, depois de jantar, deu por si a acordar cheio de sangue na roupa num sítio qualquer, sem se lembrar de nada do que o levou ali.

Há ainda outro mistério relacionado com Kafka: quem ou o que é o rapaz chamado Corvo que, volta e meia, aparece, aparentemente, a falar com Kafka…

 

Depois há o mistério da Colina Tigela de Arroz. Ainda estamos para saber que raio lá aconteceu que levou uma data de miúdos a ficarem, aparentemente, inconscientes. Pelo menos já sabemos que muito ficou por contar… A professora lá escreveu uma carta com umas certas confissões…

 

Mas da colina sabemos que resultou um outro personagem: Nakata. Este, anda também nos seus mistérios, sabe falar com gatos e anda a tentar descobrir uma gata que desapareceu.

 

Fico perplexo só de ler o que acabei de escrever. Mas mais que perplexo, deliciado!

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Bom… Vamos ver… Então, agora o Kafka está numa casa perdida no meio de nada. O amigo dele da biblioteca, deixou-o lá para passar uns dias enquanto vai ver se lhe arranja emprego na biblioteca.

 

Quanto ao Nakata que andava à procura da gata… Bom, digamos que lhe apareceu um cão que o convidou a ir com ele (o Nakata só sabe falar com gatos mas conseguiu compreender este cão e ficou muito surpreendido com isso). O cão levou-o até um homem que sabe onde está a gata… Quem é o homem? É o Johnny Walker, sim! O do Whiskey, ou, pelo menos, ele acha que é. Mas eu ainda não sei que ontem o sono não me deixou ler mais que dois capítulos (um sobre o Nakata e outro sobre o Kafka).

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Ora bem, o homem do whiskey faz colecção de cabeças de gatos para construir uma flauta… com as almas deles. E quer que o Nakata o mate, se não, não lhe dá a gata que ele anda à procura… E começa a matar gatos À frente dele até o Nakata se passar e acabar por o matar mesmo. Isto do matar gatos implica abri-los ainda vivos, retirar-lhes o coração e comê-lo, com ele ainda a bater. Diz que é uma delícia… !!!

 

Quanto ao Kafka, o amigo foi buscá-lo à cabana… Meu Deus… Onde é que isto vai parar??

--

E pronto… Lá se foi a ideia do diário... Porquê? Porque entrei naquela fase que até temia mas não consegui evitar. Sabem quando estão a lavar os dentes com um livro na mão? Quando estão a cozinhar e aproveitam, enquanto a massa coze, para espreitar mais umas linhas do livro?

Exacto… Murakami apanhou-me, tão bem apanhado como o jovem Kafka foi pelo destino, como o velho Nakata também o foi.

 

Com isto, claro que não houve tempo para diário. E o pior é que aconteceu tanta coisa no livro que eu nunca me hei-de lembrar de tudo. Por outro lado, só há mesmo uma forma de contar o que se lá passa, é escrever o livro, coisa que o Murakami fez…

 

Vou tentar, talvez, ir fazendo alguns comentários sobre “episódios” da história.

 

Comecemos por Oshima, o rapaz que trabalha na biblioteca onde Kafka há-de vir a viver durante uns tempo.

Oshima não é um homem mas sim uma mulher, ou melhor, é uma mulher que é gay. Ou melhor, é uma mulher que é homossexual masculino, ou… Vamos tentar de novo: estão a ver uma mulher? É isso que Oshima é. Só que com duas particularidades, o peito não se desenvolveu e não é menstruada. Ainda assim podemos encaixá-la na categoria de mulher. Ainda por cima, Oshima gosta de homens, como a maioria das mulheres. O que é curioso aqui é que Oshima se sente um homem, veste-se como tal e vive como tal. Ou seja, é do sexo feminino mas do género masculino. Como vive como homem que gosta de homens, é gay. Percebido? Ainda assim, eu resumo – Oshima é uma mulher paneleiro (em português não posso dizer homossexual porque isso tanto dá para homens como para mulheres; não posso dizer gay porque também se pode considerar que engloba lésbicas; portanto, só posso dizer paneleiro, isso é coisa que só um homem pode ser, passo a ironia).

Infelizmente, Oshima participa em muito e tem um papel bastante activo na história mas nunca chegamos a saber grande coisa sobre ele. Tem um parceiro, tem sexo (nunca experimentou sexo vaginal. Obviamente, como qualquer paneleiro, faz sexo anal), tem um irmão, um emprego, uma doença que o faz não poder pegar em facas por causa do risco de se cortar e o sangue não estancar. Sinceramente, só Oshima dava outro livro. Imagine-se, por exemplo, o que é ser gay e conhecer Oshima e, enfim, ir com ele… Chega-se à cama e… bom, há rabo para fazer o que se faz com outros mas… não há pila para ser feito o que outros fazem. Desta perspectiva Oshima é só meio homem. Se calhar, um homem não gay até podia gostar. Mas aí faltam as mamas para apalpar, falta o ar feminino, não falta rabo, é certo, e isso nem todas as mulheres dão. Estranho… muito estranho… Ainda mais estranho porque não parece haver, da parte de Oshima, qualquer vontade de fazer uma operação de mudança de sexo, o caminho que pareceria mais normal.

Uma coisa que me intriga: porque é que insistem com Nakata que não houve guerra entre o Japão e os EUa. Será que essas pessoas é que não são reais??              


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5 anos, 5 posts

15.07.13

Tudo começou assim:

Open

15.07.08

Pronto, cá estou eu, deixa então ver... Pois, isto de andar a ler os blogs dos outros dá-nos para fazermos os nossos também. E isto de ter um diário ao qual posso aceder em qualquer sítio pareceu-me interessante. A ver vamos... Para já, está cumprido o post inicial... 

 

Com o nome de uma música dos Cure, a música que eu gostava de ter escrito se soubesse escrever música, foi há 5 anos que lancei o primeiro post do pedrices. Depois disso, ele já mudou de casa várias vezes (como eu) e de visual (eu, nem por isso). Durante anos, tive 2 ou 3 visitantes mais ou menos assíduos. Hoje em dia, continuo a ter muito poucos. Mas tenho muito orgulho em que me acompanhem, tanto os que apenas passam como aqueles que vão deixando palavras. Este blog foi feito para mim mas hoje, quando escrevo, é também em vocês que penso.

Acho que é a primeira vez que me apercebo do aniversário do  blog e, como 5 anos não deixa de ser uma data especial, preparei também uma série de posts especiais, os quais publicarei nos próximos dias sob o lema 5 anos, 5 posts. Este é o primeiro.

Gostaria de o comemorar com a literatura e, por isso, aqui fica, do meu poeta de sempre e que estava, até agora, escandalosamente ausente do pedrices:

 

Aniversário

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos

 

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Há uns tempos, deixaram-me aqui um comentário, no meu post sobre Delos, dando conta deste livro de Ruben A. que eu não conhecia. Mais uma vez agradeço.

O livro relata, num tom que mistura a ficção com o diário, a viagem de Ruben A. à Grécia. O itinerário é majestoso, a rendição do autor ao que viu, quase incondicional. Tudo a postos para ser um livro maravilhoso. Talvez seja mas… achei a prosa de Ruben A. de um pretensiosismo exagerado. Mas há momentos brilhantes - o relato de uma visita ao Museu Arqueológico de Atenas sem usar roupa, é tão fascinante que só me apetece dizer: leiam, leiam! Nem que seja só essa parte!

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 Pode-se gostar, e muito, de uma obra que se considera estar cheia de defeitos, e alguns deles bem graves?

 

Bom, sempre achei que sim, mas nunca de forma tão radical. Quase me sinto bipolar mas tenho que confessar que, pelo menos um destes, é capaz de ser o pior livro de que mais gostei. Não são livros maus, de forma alguma, mas têm defeitos graves que me deviam ter feito gostar pouco. Mas a verdade é que não me lembro de quando foi a última vez que li dois livros no mesmo dia. Aconteceu agora. Depois de, há uns dias, ter lido o primeiro volume, fui à biblioteca, trouxe os outros dois, e li-os sem parar. O que quer dizer que evidentemente gostei muito de os ler.

O meu interesse por estes livros resulta de Frederico Lourenço ser “só” o tradutor da Ilíada e da Odisseia, as únicas traduções em verso que temos em português (de Portugal, pelo menos). Mas, para além disso, já li vários ensaios seus sobre a cultura clássica e são fabulosos (o livro Grécia Revisitada, por exemplo. E já tenho reservado, na biblioteca o Novos Ensaios Helénicos e Alemães). Posto isto, como seria um livro de ficção escrito por tão notável autor?

 Primeiro esta trilogia saíu em três livros e por esta ordem: Pode um Desejo Imenso - O Curso das Estrelas - À Beira do Mundo. Anos mais tarde, saíram todos num mesmo volume, passando a obra a chamar-se apenas Pode um Desejo Imenso. Nesse volume, a ordem é cronológica. Portanto, primeiro O Curso das Estrelas, depois Pode um Desejo imenso e, finalmente, À Beira do Mundo.

Uma vez que li a versão dos três livros em separado, é dessa experiência que falarei:

 

Pode um Desejo Imenso

Este título, lindíssimo, vem de Camões que, aliás, está presente por todo o livro. A história passa-se no mundo académico - nunca tinha encontrado um livro português que se passasse nesse contexto, tão comum em autores ingleses e americanos. Nele conhecemos o professor Nuno Galvão, um apaixnonado por Camões que vai mostrando o quanto sabe enquanto serve de personagem a uma história de professor que se apaixona pelo aluno lindo de morrer (tipo Adriano e Antinoo, estão a ver…).

Não é um livro completamente acessível. Tem um nível de erudição que chega a tornar difícil acompanhá-lo. Não pela linguagem, mas pelo excessivo academismo de algumas passagens. Nada que prejudique a leitura do romance propriamente dito, mas parece-me que Frederico Lourenço não se assumiu completamente como autor de ficcção, não abandonou a camada de académico e forçou essa componente em demasia. Acho de todo o interesse aquilo que escreve sobre Camões no livro, mas não acho que contribua para o livro de forma inteiramente positiva. Ou é romance ou é ensaio literário. Ou então o autor consegue-se juntar os dois de forma sólida. Não me parece que seja o caso. O problema está, aliás, naquilo que me parece uma certa indecisão entre uma linguagem simples ou mais cuidada. Os próprios personagens parecem pessoas normais nuns diálogos, enquanto que noutros parecem professores a discursar.

 

O Curso das Estrelas

Mais um belo título para o livro em que o escritor de ficção se começa realmente a assumir. Este segundo volume volta atrás na história. Aqui conhececemos Nuno Galvão antes de ele ser professor, sabemos da sua relação com Helena (e como terminou) e com Vicente.

A história agarra-nos e há pouco que nos distraia. A leitura torna-se voraz porque a história tem um ritmo rápido e intenso. Já não há grandes pedantismos de linguagem e o nível geral parece mais homógeneo. Fosse o primeiro livro escrito assim e parece-me que o resultado final do conjunto teria a ganhar.

Mas, a certa altura, o autor dá aquilo que me parece ser uma terrível facada nas costas do leitor. Vou explicar mas, antes disso, avisar que aquilo que vou dizer a seguir estraga completamente a experiência de leitura destes livros. Por isso, para quem não leu e pense em fazê-lo, apelo para que não leia as linhas seguintes - podem saltar para o próximo parágrafo. O que acontece e me deixou chocado é que numa passagem relativamente irrelevante lê-se que Nuno nunca tinha passado pela experiência da morte de alguém querido, só mais tarde, a morte da mãe e a morte de Filipe, o seriam. É este o problema. Neste momento, quem está a ler esta história não sabe ainda o que aconteceu a Filipe. E provavelmente, como eu, está a ler avidamente para voltar a saber dele, o que é que ele tinha, o que lhe aconteceu. O primeiro livro termina precisamente deixando-nos suspensos apensas sabendo que Filipe está doente e nem sabemos o que tem. Por isso, ficar a saber, nesta altura, que Filipe vai morrer (ainda por cima, só vamos mesmo sabê-lo na última página do último volume) é uma absoluta desilusão. Não consigo compreender esta opção. Há coisas erradas nesta trilogia, há várias opções estranhas, mas esta é, para mim, a que mais impacto negativo tem. Como se a meio de um filme me viessem dizer "ele morre no fim" só mesmo para me estragarem a experiência de continuar a viver aquela história sem saber o que vai acontecer a seguir. Não sei se o mesmo acontece na versão em que os 3 livros aparecem juntos. Se assim for, fica-se a saber disto ainda antes de Filipe aparecer na história… 

 

À Beira do Mundo

Este é o livro mais maduro, mais bonito, mais empolgante e mais interessante dos três. Aqui a ficção torna-se realmente dona e senhora da história. Há cruzamentos e coincidências, pequenos nadas que se tornam significativos, subtilezas nas ações de uns e outros, que o tornam um romance num sentido mais completo. Acho que é o único livro que pode ser considerado, de facto, de forma isolada (os outros, lidos separadamente, não se aguentam). Há mesmo um cuidado especial no início e fecho da história que é quase cinematográfico, no bom sentido.


Um último comentário sobre a edição posterior dos 3 livros num só. O autor incluíu uma parte final em que fala um pouco da sua trilogia, em forma de visita guiada. Lá ficam explicadas muitas referências e muitas opções de estilo (mostra-nos até que pensou em escrever primeiro em inglês). Na minha opinião, continuam a ser más opções para ficção.

 

Mas tudo isto interessa muito pouco quando um livro nos agarra como estes me agarraram.

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