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Para ler na New Yorker, um conto do autor desse fantástico livro que é A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao.

 

http://www.newyorker.com/fiction/features/2012/04/23/120423fi_fiction_diaz?fb_ref=social_fblike&fb_source=timeline 

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Confesso a minha ignorância: não sei nada sobre a literatura francesa contemporânea. Ok, houve o nobel de LeClézio há relativamente pouco tempo, mas não tenho sido muito feliz nas minhas tentativas de lê-lo. Fora isso, há o Patrick Mondiano que creio ser um valor seguro, mas que ainda não explorei. Fora isso, o que é a literatura francesa hoje? Tendo em conta que muitas das grandes referências literárias são francesas, é bem provável que este desconhecimento me possa estar a fazer perder algo que valha a pena.

Mas um dos autores de que fui ouvindo falar é Houellebecq. Porém, há que desconfiar. Pelos vistos, é pessoa polémica e que gosta de fazer provocações públicas. Bom, damos o benefício da dúvida? Vamos lá.

O que temos aqui é uma espécie de tratado sobre o pós-humanismo, um aviso sobre as consequências do individualismo e uma análise acutilante das consequências da falta de atenção dada à reflexão filosófica. Ou então, não é nada disto, e temos um romance pornográfico com laivos filosóficos e científicos, profundamente niilista. Seja qual for a escolha, é um livro invulgarmente importante. É-o não pelo choque que provoca, mas sim pela reflexão a que obriga. Não é bonito de ler, pois não. Houve alturas em que tive vontade de fechar os olhos, por ser mais rápido que fechar o livro. É verdade que há passagens verdadeiramente repugnantes como as descrições de rituais satânicos ou algumas das descrições sexuais. Mas tudo faz sentido nesta des(h)umanidade que Houllebecq parece não se cansar de denunciar. O pior não é aquilo que se lê aqui, é aquilo que se reconhece como verdadeiro do que dali sai. Ainda por cima, aqui não há a apresentação de falsos modelos de redenção e de retorno. Não. Não há nada marxista que, em tom paternal, venha dizer que avisou e apresentar-se como o herói salvador. Pelo contrário, os supostos regresssos à natureza, aqui entendida como humanidade, são mostrados no seu vazio. Os hippies,com essa forma de vida alegadamente mais humana, podem afinal revelar-se tão vazios, tão inevitavelmente hedonistas como quaisquer outros materialistas. Só as vias para lá chegar são diferentes. Não há nada de bom.

Mas o que é que eu gostei, afinal? Não é fácil de explicar. Aliás, não é sequer evidente que eu tenha gostado de alguma coisa. Vamos tentar ver um pouco as palavras do próprio. O trecho que se segue insere-se num comentário que um dos personagens está a fazer à obra de Aldous Huxley, debruçando-se particularmente sobre O Admirável Mundo Novo. Senhoras e Senhores, Michel Houellebecq:

(...) a sociedade ocidental foi-se aproximando cada vez mais do modelo que ele [Huxley] fixou. Um controlo cada vez mais estrito da natalidade, que acabará um dia por dissociar a procriação do sexo e por levar à reprodução da espécie humana em laboratórios, em condições óptimas de segurança e fiabilidade genéricas. Ao desaparecimento, por conseguinte, das relações familiares, da noção de paternidade e de filiação. à eliminação, graças aos progressos farmacêuticos, da diferença entre as diversas idades da vida. No mundo descrito por Huxley, os homens de sessenta anos têm as mesmas actividades, a mesma aparência física e os mesmos desejos que os rapazes de vinte anos. E depois, quando já não é possível lutar contra o envelhecimento, desaparece-se por meio de uma eutanásia livremente expressa, discretamente, depressa, sem dramas.

(...) ficam pequenos momentos de depressão de tristeza e de dúvida, mas são facilmente tratados por via medicamentosa (...). É este exatamente o mundo que nós desejamos, o mundo em que hoje desejaríamos viver.

Provavelmente, ao ler isto, solta-se um horrorizado "Eu não". Ainda bem. Espero que assim seja, mas isso não significa que isto não seja o que REALMENTE está a acontecer. Vivemos num período em que caminhamos para uma espécie de pós-humanismo que só é verdadeiramente debatido (e eventualmente enfrentado) nos meios científicos e filosóficos. A literatura mais séria não o aborda, pelo receio de parecer essa coisa sempre desprezada de ficção científica.

Mas pode parecer que não. Nada se passa. Ainda estamos bem longe dos bebés por encomenda ou da clonagem de seres humanos. Estamos, é capaz de ser verdade. Mas estamos muito mais longe das ideias de humanidade do que nunca. Via aberta para o pós-humanimo, portanto. Houellebecq lembra:

A leitura de Nietzsche só lhe provocpu uma irritação sem conesquências, enquanto a de Kant só veio confirmar o que ele já sabia. Que a moral é pública e universal: não sofreu alterações nem melhorias. Não depende de factores hitóricos, económicos, sociológicos ou culturais, ou seja, não depende do que quer que seja. Não é determinável mas determinante. Não é condicionada, é condicionante. Para ser mais claro, é um absoluto.

Uma moral observável é sempre, na prática, o resultado da mistura, em proporções variáveis, de elmentos de moral pura e elementos de origem mais obscura, quase sempre religiosa. Quanto maior é a proporção de elementos de moral pura, tanto mais longa e feliz será a existência de uma sociedade que suporte essa moral. Se fosse possível imaginar uma sociedade que se regesse pelos princípios puros da moral universal, então essa sociedade duraria o que dura o mundo.

Talvez isto queira dizer que não passamos do mesmo. Exceto a nível científico. Daí que agora comece a haver as ferramentas que antes não existiam. E já com atraso:

(...) entre os escritores da sua geração, ele [Huxley] era certamente o único que podia ver os progressos que a biologia iria fazer. Mas tudo isso se teria passado mais rapidamente se não fosse o nazismo. A ideologia nazi contribuiu fortemente para desacreditar as ideias  do eugenismo e do apuramento da raça. Foram necessárias várias décadas para se poder voltar a isso. 

Talvez seja uma coisa cíclica, a manipulação desenfreada da biologia só se revela um perigo quando ocorrem catástrofes. Antes disso, poucos notam o que aí vem.

E com isto continuo a não dizer do que/se gostei. Talvez porque continuo sem saber. Não sou tão pessimista como o autor, embora lhe reconheça muita razão naquilo que aponnta. Mas há aqui algo que definitivamente aprecio: imagine-se que um grupo de pessoas conhece este livro, não o leram necessariamente, mas sabem do que trata. Um jantar, ou o que for, entre esssas pessoas vai ser bastante animado. Porque o debate que estas ideias provocam é inevitável e invlugarmente estimulante. Confesso que a mim me atrai particularmente. Não foi há muito tempo que no âmbito académico me debrucei um pouco sobre o tema do pós-humanismo e das capacidades científicas de modificar a nossa humanidade. Li sobre o assunto, vi alguns filmes, alguns documentários, encontrei nas distopias clássicas alguns traços dessas possiblidades (Huxley, Orwell, Zamiatine, Bradbury) . O que me faltou sempre foi ver isso refletido no mundo de hoje, pensado em conjunto com aquilo que as pessoas são hoje. É claro que um debate sobre pós-humanismo é necessariamente colocado ao nível do futuro. Mas Houellebecq pega naquilo que as pessoas são (e não estamos a falar de hedonistas ignorantes, mas sim de pessoas com um nível cultural considerável) e leva às últimas consequências as possibilidades de fim-de-século. Hoje, é tudo ainda mais plausível, sem deixar de parecer ficção científica.

O New York Times diz sobre este livro que ele é um "deeply repugnant read". Mas isso, digo eu, nunca foi motivo para pôr de parte uma leitura. Há livros que são profundamente desagradáveis, precisamente pela importância, ainda que incómoda, do tema que abordam. Revejo-me, portanto, muito mais naquilo que Julian Barnes lhe chamou ''a novel which hunts big game while others settle for shooting rabbit"

É verdade que o autor exagera muitas vezes ao longo do livro. Sem dúvida, há um efeito de choque que ele quer provocar e que até seria mais intenso se subtil. Mas, ao mesmo tempo, admiro quem que se levanta e aponta o dedo ao que considera merecer a sua crítica e que, nesse processo, não hesita perante o conformismo e um politicamente correto que é, tantas vezes, impeditivo de um verdadeiro debate. As opiniões sobre o Islão, sobre os brasileiros, e sobre a humanidade em geral, podem ser estúpidas (e eu acho que são, em grande medida), mas só seriam inaceitáveis se viessem do nada e não permitissem o confronto. Ora, a minha liberdade de lhe apontar os erros nunca está condicionada. É a diferença entre o fundamentalismo e a liberdade. Houellebecq é um homem intensamente livre. Por isso, por muito idiota que possa parecer, merece o respeito de quem tem coragem de dizer o que pensa. Enfim, eu não via ninguém ir tão longe desde esse livro desconcertante e  tecnológico-porno que é Crash de J. G. Ballard - também se pode ver o filme de David Cronemberg (não confundir com o outro filme com o mesmo nome mas que não é nada de parecido) que sempre é, por incrível que pareça quendo se está a ver, menos repugnante que o livro.

Em termos literários o tom do livro vai alternando. Umas vezes parece que um professor nos está a explicar algo, outras vezes, torna-se tão cirúrgico que parece um manual de instruções. Mas isto está longe de ser deisnteressante, pelo contrário. No fundo, o autor escreve de forma a parecer-se com os tempos que descreve. Há uma acidez sempre presente que me lembrou Céline, como se Houellebecq fosse o observador do pós-moderno, um pós-Céline. A visão do mundo, o mundo do fim do século XX, é tributária dessa visão céliniana que encontramos na Viagem ao Fim da Noite mas com a tecnologia e a ciência a assumirem o protagonismo que não tinham ainda no tempo de Céline. Visão Céliniana mas numa escrita literariamente inferior.

Incontornável.

 

P.S. Calhou ter visto, logo a seguir à leitura deste livro, o filme Shame, de Steve McQueen. Não gostei nada, mas o protagonista é muitíssimo parecido com um dos personagens do livro de Houllebecq, na parte das obsessões/rotinas sexuais.

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Às vezes apetece muito comprar um livro que já se leu. Outras vezes, apetece comprar um livro que já se tem…

Isto para mim é um acontecimento. Uma nova edição de um dos livros mais extraordinários da história da literatura. Para além de ser lindo, tem um posfácio de Freud e uma muito útil lista dos nomes e diminutivos para que ninguém se perca no labirinto russo (como me aconteceu várias vezes).

Para quem nunca leu, é uma nova oportunidade. Para quem já leu, este é provavelmente o livro que mais merece ser relido.

Para quem não vai ler/nunca pensou em ler/acha que é demasiado grande, uma dica: experimentem um capítulo que se chama O Grande Inquisidor. É um dos momentos mais altos da história da literatura. Não garanto que seja a mesma coisa sem ler o livro todo, mas ainda assim vale mais do que muitos livros inteiros, e todos juntos.

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Não percebo muito bem esta ideia de "livro 2". É a continuação pura e dura do livro 1. Claro que a ação se torna mais  intensa, que os elementos surreais se vão afirmando como protagonistas, que alguns dos mistérios se começam a  esclarecer, enquanto que outros se intensificam.

Mas repito: não percebo porquê a divisão em livros diferentes (será que vou perceber mais tarde?). Por isso, em rigor, não faz muito sentido novo post. Para já, o que tinha dito no primeiro, aplica-se. Agora uma pausa para outras leituras e depois pego no 3.

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Este livro andava lá por casa há uns anos. E eu há uns anos a prometer-lhe atenção. Há uns dias peguei nele, meio desconfiado mas decidido a dar-lhe o benefício da dúvida. É grande, a letra é pequena, se calhar ainda não vai ser desta, pensei. Bom, a verdade é que foi. Logo na primeira página dei por mim a sorrir, e foi melhorando. Embora se possa pensar à partida que esta é a história de um hermafrodita - e do seu percurso na vida, a verdade é que é muito mais do que isso.

Agora desculpem lá mas este livro é tão bom que só contando alguns dos detalhes da história é que eu consigo explicar. Por issso, o resto do texto não é aconselhável a quem não leu.

Surpreendentemente, logo no início somos transportados para a anatólia, onde Grécia e Turquia ainda disputam os territórios que virão a ser turcos. Está lá Mustafá Kemal, estão lá as idiossincrsias da região, o retrato do povo grego, e os avós do narrador que, nesse ano de 1922 irão partir, ou melhor, fugir, para a América. Uma vez lá, passam pela implantação do fordismo (com esta frase - "Um facto histórico: as pessoas deixaram de ser humanas em 1923."), pela lei seca, tornando-se o avô do narrador um traficante. Há também a crise de 29 e as mudanças a que esta obrigou. Há toda uma série de referências históricas que nos vão situando no mundo, por um lado, e no quotidiano das pessoas, por outro. Tanto somos introduzidos na revolução que é a emancipação femina, como assistimos à invasão de Chipre pela Turquia. Henry Kissinger, por exemplo, aparece neste livro, sempre visto como as pessoas comuns o terão visto. Só que estas pessoas comuns são invlugarmente interessantes.

Depois de mais de 300 extraordinárias páginas, então sim, vem a história do heramfrodita a sério. Por essa altura, apetecia continuar a assistir à história da família mas, afinal, temos mesmo que nos preocupar um pouco com a/o protagonista.

A forma como o narrador está desenhado é um dos pontos fortes da obra. Ilimitadamente omnisciente, é alguém que consegue relatar acontecimento de quando ainda não existia, e o seu próprio nascimento. Parece um narrador da literatura latino-americana e, no entanto, não o é (naquilo que em que isso é uma coisa boa). A forma como vai articulando os vários tempos da história, a forma como sabe ir situanado o leitor, como até é capaz de prever as suas dúvidas, tornam-no irresistivelmente divertido. Em português o sexo de quem fala é mais vezes identificável do que em inglês e isso deve tornar a leitura do original ainda mais peculiar. Enfim, a tradução portuguesa está correta e, às vezes, é memos muito boa. Mas esbarra, aqui e ali, numa indefinição um bocado embaraçosa. Identidade  genérica em vez de Identidade de Género? Enfim, o tema deixa qualquer um confuso/a…

Em resumo, quando um livro se "atreve" a ter mais 500 páginas, deve ter mesmo algo para dizer e, já agora, não deve ser uma repetição constante de uma mesma ideia. Eugenides começa bem, acelera, lança-se num romance fantástico e apenas se lembra da história principal lá mais para o fim. E é absolutamente delicioso assistir a isto.

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Acho que nunca me tinha acontecido nada assim. Em dois dos livros que estou a ler há uma espécie de citação comum.

Murakami, no 1Q84, fala sobre Chékov e, em particular, sobre a sua célebre afirmação de que se uma pistola surge na história, então ela tem que ser disparada.

No outro livro, Middlesex de Jeffrey Eugenides, a mesma referência à história da pistola.

Ainda não acabei nem um nem outro. Portanto, não sei se vão obedecer à regra, ou se alguma destas pistolas vai ficar sem disparar. Até agora, tanto uma como a outra resistem…

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