Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Sem que estivesse eu preparado para tal, aconteceu-me um dia, ao ler o Ensaio sobre a Lucidez, ter uma epifania, a mais intensa de sempre, quando durante um diálogo percebi ser aquele livro como que uma continuação desse outro ensaio, o da Cegueira. Tão perturbado fiquei que não mais o larguei enquanto não fiquei a saber tudo sobre o que acontecera aos cegos de anos antes. A Saramago ouvi-me dizer, Sabe, encontrar estes personagens, tantos anos depois, foi uma das maiores surpresas que tive na vida, respondeu-me ele, Para mim também, sabia lá, podia lá imaginar que eles me apareceriam de novo.

 

Foi mais ou menos isto, não traio a memória de nenhum de nós por assim o contar.

 

O discurso do Nobel, a ideia de que as personagens fazem o autor, percebe-se melhor em momentos assim. Eu, fiquei mais rico por ter tido o privilégio destas breves palavras. Hoje, infinitamente mais pobre, recordo-as e partilho-as, porque todas as palavras de Saramago são preciosas demais para ficarem fechadas na memória.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Depois de uma primeira intermitência, antes da Viagem do Elefante, a morte não resistiu mais e abraçou definitivamente José Saramago, ainda que, em verdade, homens destes não possam morrer, estará ela melhor que nós, porque o tem junto a si.

 

 

 

 

Cá em casa, ergueu-se um altar, obrigado R.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

José Saramago

18.06.10

Podem as palavras ser lágrimas? Tivessem elas saído das mãos dele e seriam-no.

 

Eu, só com os olhos posso chorar.

 

Obrigado, José Saramago, por tudo o que me deste e poderei guardar para sempre.

 

 

"Antes eu dizia: 'Escrevo porque não quero morrer' Mas agora mudei. Escrevo para compreender o que é um ser humano."

José Saramago

 

 

 

Ocorre-me isto, de uma outra perda recente:

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Por vezes, a literatura aproxima-se da vida. Vem discretamente, sem se anunciar, apenas quando já estamos enredados no meio das linhas de um livro é que percebemos o quando ele se está a transformar num relato próximo. Li este livro como se estivesse sentado à lareira com os protagonistas a contarem-me as suas histórias, a linguagem concreta e realista, as idiosincrasias subtis mas vincadas, as incoerências naturais de cada um de nós, tudo isso está presente nestas páginas que ganham vida. É assim Yates, um escritor que deixa a escrita em segundo plano, em que ela é instrumental, ela serve para invocar pedaços da realidade.

De certa forma, é um livro cru, sempre concreto, onde o estilo sóbrio nunca nos faz sonhar, em vez disso, faz-nos ver a realidade. Pode não ser um grande livro, pode não ser de um grande escritor (fiquei com dúvidas porque a tradução tem momentos bastante duvidosos), mas é um grande Romance.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Às vezes percorro a minha estante à procura de um livro que ainda não vou ler. Isto é, vou-me sentar no sofá, só tenho uns minutos, mas apetece-me folhear um livro. Mais para explorá-lo do que para lê-lo. Por isso, há uns dias, seguindo esta lógica peguei neste O Corpo Enquanto Arte de Don DeLillo. Não o ia ler mas li-o. Primeiro porque é bem pequeno Confesso, não custou muito. Mas, principalmente, porque é altamente intrigante e, até, comovente. A princípio parece que estamos a ler o guião para um filme, tal a abundância de pormenores sobre gestos e movimentos. Mas depois, à medida que o indefinível desta história se vai desenvolvendo, começamos a entrar, até demais, na mente de uma mulher e de um personagem que nunca percebemos se é real ou não. Lembrei-me muito de Bergman e do seu Persona.

 

Tenho andado a olhar com vontade para o novo livro de DeLillo, Submundo, que está nas livrarias e tem sido bastante falado. Depois desta introdução, já não tenho dúvidas, vou lê-lo.

Autoria e outros dados (tags, etc)


calendário

Junho 2010

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Tags

mais tags