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Mais um livro de Pamuk e, novamente, a sensação do encontro com um grande escritor. Este, Os Jardins da Memória (em inglês chama-se The Black Book) é o livro mais complexo que li deste autor. Não é tanto pela estrutura (como acontecia em A Casa do Silêncio) mas por tudo o que vai passando por esta narrativa. Ou melhor, por causa de tudo o que ela implica, das histórias paralelas, das explicações, dos detalhes. Às vezes, numa só frase de Pamuk acontece tanta coisa que é necessário relê-la algumas vezes para tirar todas as consequências.

 
Curiosamente, quando já ia adiantado na leitura, perguntaram-me sobre o que era o livro. E eu não soube responder. Há, efectivamente uma espécie de mistério (um desaparecimento) e consequente exploração do mesmo. Porém, não é fácil dizer sobre o que é, tal a quantidade de direcções que se vão formando. Mesmo que o próprio autor-narrador-nunca-se-percebe-quem-é-quem afirme ser este um policial, é muito pouco disso que ressalta.
 
No fundo, há aqui uma profunda reflexão que atinge matérias tão diversas como a história, a política, o jornalismo, o cinema, a sociedade, etc. O enquadramento vai sendo dado pela história da Turquia, pela cidade de Istambul, pela enorme diversidade de personagens e tempos históricos.
 
Não é livro que eu recomende a quem queira conhecer Pamuk. É um livro para ler depois, quando já se conhece e se gosta. É definitivamente um livro que eu recomendo a quem tenha interesse pela Turquia, pelo império otomano, pelas relações/diferenças entre ocidente e oriente.

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 Lembro-me de, há muitos anos, ter ficado com uma estranhíssima sensação, com a leitura de Malone está a morrer, de Samuel Beckett. Voltei ao autor uns anos depois, com a peça, À Espera de Godot, esta bem mais fácil e agradável de ler.

 

Há poucos dias, tive a oportunidade de voltar a contactar com um texto beckettiano, desta feita, Primeiro Amor, numa interessante encenação no Trindade.

 

Voltando para casa, também voltou a vontade de pegar num livro deste autor e explorar essa literatura estranha, e difícil, sem concessões. Fica a sensação de que ali está escrito tudo o que havia para escrever, as situações são levadas até às últimas consequências, como se a escrita conseguisse emergir directamente da mente, sem censuras, sem disfarces. Claro que há também um pessimismo e desencanto que são de tal forma acutilantes que não dão espaço a muita alegria, mesmo considerando que o humor (um peculiar humor, terrivelmente negro) está sempre presente na obra de Beckett. Murphy é, aliás, considerado, por muita gente, um livro cómico.

 

O domínio da língua é outra característica que impressiona em Beckett, especialmente tendo em conta que escreveu em francês e em inglês. Poucas vezes encontrei, num só texto, tantas palavras que, para mim, eram desconhecidas, o que também não facilita a leitura de Murphy mas, claro, enriquece quem lê.

 

Um exemplo que não posso deixar de referir (sem revelar grande coisa da história, se é que ela existe), prova dos novos terrenos que Beckett consegue explorar, é a descrição de um jogo xadrez, jogada por jogada, um momento desconcertante mas fundamental. É possível encontrar na internet análises deste jogo e dos seus significados a nível matemático. Para mim, confesso, foi mais um momento de perplexidade. No fundo, é essa a impressão mais forte que Beckett sempre me deixa (nas peças de teatro é diferente, os textos são bem mais luminosos e fáceis, mas não menos ricos em significados e consequências). Eu não sei quem é Murphy e muito pouco fiquei a saber. E, porém, estive dentro dele, numa exploração esquisita de muitas das suas idiossincrasias.   

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As Viagens de Gulliver, especialmente as suas aventuras pelas terras dos Liliputianos, fazem parte do imaginário de muita gente. Com a sua prodigiosa imaginação, Swift criou mundos tão característicos e particulares que se tornaram imensamente populares.


O livro está dividido em quatro partes, sendo a primeira e mais conhecida, a das aventuras no país dos liliputianos. Aí, devido ao reduzido tamanho dos seus habitantes, Gulliver é um gigante. Ao estabelecer contacto com os habitantes, vai ter a oportunidade de conhecer o funcionamento político deste povo, usando Swift esses dados para fazer comparações e analogias com a sua Inglaterra.


Na segunda parte, dá-se o inverso, Gulliver é aprisionado por gigantes. Mais uma vez, vai tomar contacto com este povo e conhecer o funcionamento das suas instituições para, mais uma vez satirizar o seu país.


Nas terceiras e quarta partes, prosseguem as viagens e, logo, a sátira e as divertidas aventuras. É aqui que a imaginação de Swift se torna mais frutífera, tal é a quantidade de personagens e ideias fantásticas que começam a surgir.


Este livro é, na maior parte das vezes, visto como de literatura para crianças. A expectativa é, aliás, de se ir ler um livro de aventuras, cheio de histórias rocambolescas. É-o, sem dúvida. No entanto, é muito mais do que isso. A componente política é muito forte e obriga a um estudo mais aprofundado para se poder compreender essa parte da obra. Sendo este um livro profundamente complexo e extraordinariamente importante para compreender o mundo (também o de hoje) deixo aqui, para quem quiser saber mais, um link para um interessante texto de Orwell que disseca as intenções e significados destas viagens.


http://orwell.ru/library/reviews/swift/english/e_swift

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Novo pedrices

06.03.09

 Hoje resolvi mudar.

O pedrices começou no livejournal, em Julho do ano passado. A princípio foi porque andava sempre a ler outros blogs e isso acabou por me ir criando a vontade de ter o meu próprio. Depois, comecei a pensar em alguns textos que escrevi sobre livros que li. Pensei colocá-los no blog e, assim, ele foi-se afirmando, quase por vontade própria, como um blog sobre livros. Actualmente, escrevo um post sobre quase todos os livros que vou lendo. De vez em quando, posso escrever sobre outras coisas…

E, a partir de hoje, esta é a nova casa do pedrices.

 

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Muitas vezes, entre amigos, há alguém que pergunta: “Como foi a vossa primeira vez?”, e toda a gente vai contando. Nesta novela de Turguéniev é mais ou menos isso que acontece, a pergunta é um pouco diferente: “Como foi o vosso primeiro amor?”.

Uma pergunta tão simples, com respostas, normalmente, tão inocentes, leva-nos a conhecer a história de um rapaz que aos 16 anos se apaixona pela primeira vez. No entanto, nada na sua história é vulgar e, na verdade, inclui todos os ingredientes de uma tragédia cheia de traições, frustrações, enganos e, claro, amor. Embora o desenrolar dos acontecimentos seja previsível para o leitor, não o é para o narrador. É precisamente o facto de o mesmo ter 16 anos que torna todo o seu comportamento verosímill. Quem lê esta história não deve procurar nela um mistério mas sim uma descrição de como um jovem ainda incocente vai reagindo às circunstâncias. O esforço de Turgueniév é, nesse sentido, notável.

Quanto à história deste primeiro amor, dificilmente alguém a lerá sem achar, em muitas passagens, que já passou por ali.

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Desta vez vou aventurar-me no comentário a um álbum, em vez de livros. A partir da audição do novo dos U2, No Line on the horizon, e de algumas críticas que li ao mesmo, apeteceu-me escrever um pouco sobre o assunto.

Muita gente condenou os U2 à morte devido ao álbum Rattle and Hum. Não sei se eles concordaram ou não, mas parece pacífico que acharam que alguma coisa tinha que mudar, e muito. Apesar de ser um álbum desequilibrado, não deixa também de ser um projecto com fortes motivos de interesse, especialmente quando visto em conjunto com o filme. No entanto, o que estava para trás, em particular o álbum, The Joshua Tree, tinha elevado os U2 a um patamar aparentemente irrepetível. Não era de admirar, portanto, que Rattle and Hum fosse, ou parecesse ser, uma desilusão. Pessoalmente, nunca encontrei neste álbum nada de particularmente mau, mas também não há grandes motivos para colocar este álbum a tocar em vez de qualquer um dos outros anteriores.

Posto isto, os U2 entraram nos anos 90. Só que entraram à frente dos próprios anos que se estavam a viver. Com o álbum Achtung Baby, a banda conseguiu uma transformação espantosa na sua sonoridade, parecendo uns U2 em versão 2.0 (eu diria que o álbum dos Passengers pode ser o de uns U2 versão 2.5). Em paralelo com a música surgiu também a era dos concertos espectaculares, com grande aparato cénico mas um grande rigor conceptual. A ZooTv Tour afirmou-se como um espectáculo insuperável, levando os U2 a um patamar tão alto que passaram a ser chamados, por muitos, de maior banda do mundo.

Seguindo a lógica de exploração de novos caminhos musicais e conceptuais surge o álbum Zooropa. Não sei se é este o melhor álbum da banda, muitos puristas poderiam matar-me por insinuar tal coisa. O que sei é que é este álbum consegue ser um grande passo em frente, em relação a Achtung Baby. A música, tanto quanto me lembro, soava, na altura, a algo futurista e difícil de classificar. Para onde ir a seguir? Era possível continuar a evoluir? Surgiriam saudades do passado pré-achtung?

A resposta vem na forma do álbum Pop, não respondendo, portanto, a nada. Capaz de apontar em várias direcções, Pop é, a nível conceptual, um exercício extraordinário, porque permitiu aos U2 mais uma tournée com um conceito forte e grande inovação. No entanto, a nível musical ficava a dúvida, para onde vão afinal? Pop dizia que podiam ir para todo o lado mas que o brilhantismo de Achtung ou de Zooropa estava, definitivamente, a ficar para trás.

Chega então altura de parar e pensar. Olhar para tudo e escolher o essencial. Daí All that you can’t leave behind aparecer como o álbum do regresso dos U2 à sua velha fórmula. Grandes hinos, canções irrepreensíveis, nova digressão, cheia de aparato visual mas muito menor e muito menos conceptual do que anteriormente. Em palco mais música do que espectáculo.

E podia-se esperar que os U2, tendo reencontrado a sua boa forma, continuassem o seu caminho. Foi o que fizeram com How to Dismantle an Atomic Bomb. Não posso dizer deste nada de substancialmente diferente do que do anterior. Apenas que os ouço a ambos ocasionalmente, com prazer, é certo, mas nada aqui me remete para o entusiasmo e novidade que me trouxeram Achtung e Zooropa.

E, pronto, aqui estou, expectante, ao fim de tantos anos, para saber se No Line On the Horizon volta a trazer uns U2 brilhantes ou, simplesmente, os U2 competentes e certinhos dos últimos álbuns. Para já é a segunda hipótese que vence. Estou a ouvir o álbum pela segunda vez e não vem daqui nada de particularmente impressionante. Adoro o tema final, parece-me mais um álbum bem fechado (o último tema costuma ser dos melhores dos álbuns) mas são os U2 no seu nível habitual. Gosto mais quando se superam. Não quer isto dizer que seja um mau álbum, quer apenas dizer que eu queria mais. De qualquer forma, venham os concertos!

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