Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



rsa

Para além da Montanhas, há duas crianças, dois irmãos, mas só um deles pode falar. O outro, percebemo-o e conhecêmo-lo através do apelo que o irmão mais velho faz para que ele regresse do limbo onde se vai perdendo.


Para além das Montanhas, há uma aldeia onde as crianças aprendem a viver. Brincam, choram e riem, sem saberem, ainda, o que as espera deste lado, de onde as observamos.

Para além das Montanhas, há um Portugal profundo e uma infância que anseia por se libertar dele, levando a uma idade adulta que olha para trás com saudade.

Para além das Montanhas, há uma língua, a portuguesa, que tem saudades de ser escrita assim.



Autoria e outros dados (tags, etc)

 


Eu, sinceramente, não sei bem o que pensar de António Lobo Antunes (ALA). Ou melhor, sei o que penso mas não sei como expressá-lo em palavras. Talvez aqui encontre, precisamente, uma das coisas importantes que posso dizer sobre ele – é que ele, se fosse eu, conseguiria dizê-lo. Serve isto para dizer que ALA consegue pôr em palavras aquilo que apenas sentimos em pensamentos. Ele consegue escrever como se pensa. Assim como David Lynch consegue filmar como se sonha (para dar um exemplo “gráfico” mas que, ainda assim, fica aquém do que pretendo exprimir).

Já li umas boas páginas de livros de ALA. Li inúmeras crónicas, um dos prazeres da Visão. Quanto a essas, as crónicas, são pedaços de puro prazer, sem grandes complicações, sem que eu fique perplexo. Dir-se-ia até que elas servem de exercício para se ler os seus romances, como conjugar verbos serve de exercício para se aprender uma língua.

Por outro lado, acompanho as suas “intervenções” públicas, na forma de entrevistas que vai dando. Onde, se parece que está sempre a dizer o mesmo, também se encontra uma profundidade de pensamento, uma capacidade de rasgar o superficial e entrar no âmago das coisas, que são invulgares e parecem do domínio do génio.

Quanto aos livros, li muito cedo o Auto dos Danados. Diria mesmo que demasiado cedo. Não me lembro de nada de substancial, já. As minhas recordações são uma impressão de um livro que me impressionou, que tinha uma história de pessoas cheias de dramas e de interesse. Lembro-me da ideia de estar perante um escritor poderoso mas, também de uma obra difícil de ler e, de certa forma, extenuante.

Depois, envolvi-me com A Morte de Carlos Gardel. Não fui longe. Tentei novamente uns anos mais tarde e voltei a não passar de um início demasiado intrincado para o conseguir acompanhar. Lá está, na estante, troçando de mim, achando-se melhor do que eu, até ao dia…

O Manual dos Inquisidores foi a tentativa seguinte, ou o fracasso seguinte. Não fiquei pelo princípio, mas também não fui longe.

Desisti durante muito tempo.

Voltei a ALA com O que Farei Quando Tudo Arde. Fui, solenemente, comprá-lo. Fiz questão de gastar dinheiro nele para me sentir obrigado. Fez companhia ao Carlos Gardel e aos Inquisidores durante meses, até que o desafiei. Mergulhei nele, passei de metade e… não consegui mais. Estava demasiado perdido para continuar.

Mas o estranho em tudo isto é que em todas estas páginas e frustrações nunca consegui sentir um momento de desagrado. Ou seja, há uma certa raiva por não perceber, por não conseguir acompanhar. Porém, a experiência de ler ALA é de tal forma intensa que se consegue tirar dali, mesmo quando não se acompanha, a sensação de que se está a explorar um qualquer canto de uma construção genial. Muitas vezes parava de ler para acalmar a respiração que se acelerara com uma ou outra frase.

A propósito do Arquipélago da Insónia, e porque havia uns cartazes no metro, só com frases tiradas desse livro, pensei que a obra de ALA talvez devesse ser vista assim, como num museu, punham-se os cartazes só com as frases e as pessoas poderiam ir passando, lendo-as e maravilhando-se. Não é muito diferente do que acontece num museu com quadros. E, a mim, parece-me que valeria muito mais do que muitos quadros.

Veja-se isto:

(…) a pensar na quantidade de defuntos que são necessários para compor uma vida (…)

 A quantidade e força de ideias expressas numa frase como esta não é do domínio da normalidade, está acima, muito acima, do que é normal encontrar na escrita.

 Mas indo para uma frase mais simples, aparentemente, até corriqueira, a do início do Arquipélago:

 De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?

 O que é que se pode esperar de uma frase assim? É quase arrepiante pensar no seguimento, nas histórias ou, no caso de ALA, recortes, que poderão nascer disto. Pode vir daí uma tragédia, a solidão, o imobilismo, a inveja, o engano, a frustração, a perplexidade, tanto mais. Isto é fazer, com apenas uma frase, literatura do mais alto nível. Parece que ALA persegue a ideia de colocar entre as capas de um livro a vida toda. Eu diria que ele já consegue, numa frase, colocar lá grande parte daquilo que interessa, com uma incomparável multiplicidade.

 Mas tudo isto vem a propósito da minha última incursão no mundo de ALA, o Tratado das Paixões da Alma. Pois é, voltei a tentar. Desta vez, andei por aí a pesquisar, encontrei um texto que me deixou curioso, aconselhava começar por aqui, assim o estou a fazer. O livro está dividido em 6 partes, vou tentar lê-lo assim, uma parte de cada vez. Hoje, foi a primeira. Como sempre, estou dividido entre o deleite da escrita e a perplexidade da acção. Falta-me compreender muita coisa e já não tenho esperança de vir a perceber melhor com o avançar do livro (isso já aprendi com os outros). Só que o que li até agora é tão bom que já me fez rir, já me emocionou e já me tocou de tantas formas que acredito: desta vez vou chegar ao fim.

 Se o conseguirei ou não, será matéria para outro post.

 Antes de me despedir, um link para o melhor post que já li sobre a idiotice de tentar comparar Saramago e Lobo Antunes para dizer mal de um, a partir do outro.

 http://peterofpan.blogspot.com/2008/10/lobo-antunes-x-saramago-ltima-palavra.html

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Numa altura em que os EUA elegeram Obama como seu presidente, a leitura de
"Por favor não matem a Cotovia" leva-nos a perceber, ainda melhor, o carácter extraordinário desse acontecimento.
 
Nesta obra, contactamos com os estados sulistas, numa época em que o racismo estava enraizado e era uma prática natural para muitos.Pelos olhos de uma criança, vamos conhecer uma comunidade muito concreta onde já começam a surgir os primeiros sinais de inconformismo face à situação.  
 
Há livros assim: deviam ser lidos por todos, deviam ser estudados na escola, deviam acompanhar-nos a vida toda.
 
E é uma pena que só agora o tenha lido. Por favor, não ignorem a cotovia.

Autoria e outros dados (tags, etc)


 

É curioso rever os meus escritos e não encontrar nenhuma referência a José Saramago. Especialmente porque se for ver as minhas leituras, encontro Saramago em cerca de 30 livros, sendo que, alguns deles, já os li mais do que uma vez. Se pensar mais um pouco, nos livros que ofereci, nas minhas referências máximas, nos livros que mais me influenciaram, está sempre Saramago.

Lembro-me de, em 1998, assistir à atribuição do Nobel a Saramago como se fosse a alguém da minha família. Nessa altura, já tinha lido praticamente todos os livros e, portanto, posso considerar-me insuspeito de apenas o ter descoberto por causa do prémio.

Mas serve este texto para comentar o último (talvez em absoluto) livro, A Viagem do Elefante. Trata este da história de Salomão, um elefante que o Rei D. João III resolveu oferecer ao arquiduque de Viena. Por esse motivo, o elefante tem que ser levado de Lisboa para Viena, numa enorme viagem a pé e de barco.

Não há muita coisa que aconteça neste livro. Esta é a história e apenas isto se conta, acrescentando um ou outro tema, dos caros a Saramago, como o episódio em que um padre pretende que o elefante se ajoelhe à frente de uma igreja, para poder assim afirmar que houve um milagre e obter vantagem para a igreja católica numa altura em que as teses luteranas alastravam pela Europa.

Neste livro, Saramago assume-se plenamente como narrador/autor, fazendo deste, porventura, o personagem principal da história. Embora não haja aqui nada de propriamente novo, uma vez que o narrador saramaguiano tem, normalmente, uma força muito própria nas suas histórias, falando abundantemente com o leitor, ou com as personagens (caso paradigmático é O Homem Duplicado), o que se nota é que há uma espécie de libertação. O autor assume-se como o criador, o fingidor, o todo poderoso que pode fazer o que quiser mas que mantém a dignidade que merece quem acompanha a história. Por exemplo, perante o cenário grandioso das montanhas, não há descrição e o narrador assume, precisamente, que não consegue fazê-lo.

A Viagem do Elefante, mais um conto do que um romance, como afirma o próprio autor, é um livro divertido, temperado com o habitual humor fino de Saramago e que transporta o leitor para uma história onde, apenas a espaços, há matéria para reflexões profundas. Ora, isto é bem diferente daquilo a que Saramago nos tem habituado, especialmente nos últimos romances, os da era do “e se”, em que algo inesperado e inexplicável acontece. Muitos autores já escreveram páginas e páginas sobre o porquê de algo acontecer. Saramago, escreve sobre as consequências do que acontece, mesmo quando o que acontece é impossível. Só que a impossibilidade não leva a menor verosimilhança nas consequências, e é essa análise lúcida a partir de pressupostos metafóricos que tornam a obra de Saramago tão incomum no seu poder de universalização de pequenas histórias. Lembro isto como reacção à forma como tem sido recebido este livro, o melhor do autor desde Memorial do Convento, diz-se. Na minha opinião, de leitor compulsivo, quase obcecado, de Saramago este é o único livro do autor que não tem interesse profundo, isto é, constitui uma pequena página na obra do autor, uma página tão bela como tantas outras, um exercício um pouco diferente até, pela linguagem, a utilização de palavras raras hoje em dia. É um intenso prazer ler este português que alia a modernidade onomatopaica com um certo arcaísmo. Mas é isso, um livro que dá um enorme prazer ao ler-se, sem nos projectar para algo (muito) mais, o que é típico das obras de Saramago.

Este será um livro fácil para a maior parte das pessoas. Para um leitor habitual de Saramago, creio que funciona como uma espécie de rebuçado, Vamos lá apreciar um pouco esta escrita, sem, desta vez, termos que nos cansar com as preocupações a que sempre o autor nos leva.  

E isto sabe muito bem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parece que a rota dos grandes acontecimentos cinematográficos começou a incluir Portugal. Ainda bem. Até porque, neste caso, tendo o festival do Estoril a presença de tantos escritores (Coetzee, Paul Auster, Siri Hustvedt), algo de bom acaba por daí transbordar. Concretamente, Paul Auster, fez uma pequena incursão à FNAC de Cascais, no Domingo passado, para uma sessão de autógrafos e uma pequena conversa com os leitores.

 

Foi estranho chegar lá por volta das 15:30 e perceber que, ao contrário do que estava no jornal, a sessão começava às 15. Pior ainda, foi só ter começado quase às 16. Atrasos à parte, Paul Auster começou por explicar que só por volta do meio-dia tinha sabido daquele compromisso. Por isso não tinha nada preparado. Por isso também, disponibilizou-se para responder a questões, e o tempo não era muito porque tinha que voltar para o festival do Estoril em breve.

 

O seu último livro, Man in the Dark, está a poucos dias de sair em português. Foi interessante ver Paul Auster a responder a uma questão sobre esta obra. Quando lhe pediram para falar do livro, perguntou se havia ali alguém que já o tivesse lido. Havia apenas uma pessoa. Por isso mesmo, Paul Auster limitou-se a dizer duas ou três frases sobre o que ele é e nada mais. Porque não se fala de um livro que ninguém leu. Exemplar.

 

E pronto, tenho um autógrafo. Aproveitei para comprar o Mr Vertigo, dos poucos que ainda não li dele. Em breve, conto dar notícias, e também do Man in the Dark.

Autoria e outros dados (tags, etc)

(desaconselha-se fortemente a leitura deste texto antes de ler o livro)

 

Primeiro, um falso início: um episódio entre dois (meio) irmãos, em que o mais velho ensina o mais novo que não se diz “obrigado” ao receber o troco num quiosque, é que não se agradece aquilo que é nosso. Depois, o mais velho pergunta: Queres que mate o teu pai?

O ambiente fica criado. A partir daqui, instala-se uma certa estranheza e uma imensa curiosidade para saber o que levou àquilo.

No entanto, vem aí um segundo falso início, com o título “O Último Guião”. O narrador, Barnum, está em Berlim, no festival de cinema. Ele é um argumentista, aparece também um “futuro-importante pesonagem” - Peder.

O capítulo seguinte dá pelo nome de “As Mulheres”, aqui parece que o livro vai começar, pelo menos, começa a apresentação de personagens. Primeiro vamos conhecer Vera, em 1945. A 2ª Guerra Mundial está a terminar e a festa instala-se. Vera estende a roupa, um homem surge por trás dela, ela não o vê, ele viola-a. A única coisa que Vera fica a saber sobre este homem é que ele tem nove dedos.

Depois Vera deixa de falar durante muito tempo. Não diz nada a ninguém sobre o que aconteceu. Ficamos a conhecer também, A Velha, bisavó de Vera e a sua mãe, Boletta. Preocupadas com Vera, tudo fazem para descobrir o que acontecera, desconfiam de algo mas Vera disfarça a falta da menstruação, fazendo uma ferida na própria língua, com uma tesoura, para ter sangue.

É só ao fim de meses que se sabe que, afinal, Vera está grávida. O bebé nasce num táxi e vem a chamar-se Fred, o que em norueguês significa Paz.

Temos então o final do capítulo destas três mulheres. Numa casa onde não há homens, de onde eles se ausentaram e sempre se ausentam. A Velha, por exemplo, teve uma trágica história de amor com um homem que morreu numa expedição à Gronelândia

A seguir, em “Uma Mala de Aplausos”, conhecemos outro personagem – Arnold, que vive com os pais, passa por um perturbante episódio de morte aparente e perde um dedo, num acidente com uma faca. Depois disso, abandona a casa onde vive e lança-se numa vida com a qual nunca se percebe bem o que vai fazer, ou o que fez. Envolve-se com um circo, onde conhece personagens tão estranhos como o Homem mais alto do mundo ou a Menina de Chocolate.

Note-se que toda a história é narrada por Barnum, o “meio irmão” mais novo. Neste capítulo ainda, ele começa a falar do seu pai. Nesta altura, percebe-se que Arnold é o violador da mãe de Barnum mas ainda não se sabe que viria a ser também o pai de Barnum. De acordo com Vera, ela ficou com ele porque ele a fazia rir. Arnold aparece misteriosamente, sem se saber bem de onde e acaba por conseguir seduzir Vera e tornar-se seu marido, união da qual viria a nascer Barnum. O que faz com que Vera nunca veja em Arnold o seu violador é o facto de este, agora, ter a mão completamente estropiada, devido à guerra. Assim, a identidade do violador permanecerá para sempre como um mistério, supondo-se que o mesmo terá sido um soldado alemão. O próprio Barnum nunca chega a assumir que sabe deste facto, o qual vai ter consequências extraordinárias noutros acontecimentos futuros mas já anunciados por Barnum, como, por exemplo, a morte do pai, atingido por um disco na cabeça.

Barnum nasce nas últimas linhas deste capítulo, introduzindo o seguinte, chamado, precisamente, “Barnum”, constituindo este, porventura, o definitivo arranque da história.

O rapaz é pequeno, demasiado pequeno para a idade. Durante a sua vida sempre lamentará o facto e tentará as mais absurdas estratégias para conseguir crescer mais. Para além disso, o próprio nome é estranho e será motivo de embaraço para Barnum. Vamos então conhecer a vida desta família, passando pela morte da Velha e do pai, Arnold, que é morto pelo tal disco, atirado por Fred, que se vem a revelar um rapaz violento, desequilibrado e profundamente revoltado, vivendo a angústia de não conhecer o pai e acabando por matar o padrasto que é afinal o pai, algo que ele, aparentemente, nunca virá a saber. Os episódios que ocorrem neste capítulo extenso apresentam elementos extraordinários e de uma riqueza incomum, fazendo deste livro uma verdadeira saga de uma família. Por outro lado, há personagens exteriores a este núcleo que apresentam também características trágicas e histórias muito pouco comuns. Fred e Arnold aparecem como personagens malditos que provocam sofrimento e consequências terríveis nos outros. No entanto, a narração de Barnum nunca explora a fundo as culpas de ninguém, parecendo, até, indiferente, no sentido de desconhecedor, da verdadeira realidade daquilo que conta. Há mortes e acidentes; corrupção e enganos; amizades e histórias de amor; tragédias que abalam famílias e suicídios. Tudo isto sem que se aos verdadeiros culpados seja apontado o dedo. De certa forma, há certezas de que se começa a duvidar ao longo da leitura. Há impressões de que algo vai acontecer mas, afinal, já aconteceu. A história dá saltos no tempo com uma mestria admirável que só vai aumentando a expectativa. Porém, não há a expectativa de revelações ou de catarses, apenas a de acompanhamento.

O capítulo final, “O Teatro Eléctrico” faz a história avançar muito mais rapidamente e de forma bem mais linear do que até aí. O falhanço de todos, o colapso das estruturas mentais de toda a gente, vai-se instalando. Surge um novo mistério, Barnum casa com uma amiga de infância, que conhece ao mesmo tempo que a Peder. Mas Barnum descobre que é estéril e, pouco depois, a sua mulher engravida. A suspeita instala-se no leitor: é Fred o pai. Só que Barnum nunca revela o que acha, apenas em momentos parece ter suspeitas mas, acima de tudo, indiferença.

O final é outro momento extraordinário. Pode ler-se de várias maneiras, nenhuma delas como sendo um ponto final. Da última frase pode passar-se, de imediato, à primeira, para reler o livro com uma perspectiva completamente nova. Ou então, a última frase é a confirmação de que nada se contou sobre a verdade e só ali começa tudo, mas para lá do livro.

Escrever uma saga familiar do tipo da que aqui é apresentada pode ser uma tarefa, não simples, mas relativamente linear. Não é exercício de absoluto virtuosismo pegar na história de uma família e contá-la. Pode-se ser competente a fazê-lo, ou não. O facto é que o género, por si só, pode ser de alguma simplicidade: basta ir contando o que se passou. Christensen pega no género de uma forma surpreendente e, por isso, transforma esta história numa obra que se destaca pela originalidade, podendo-se quase pensar num Dickens revisitado pela modernidade.

Desde logo existe a forma como a história é narrada por alguém que ainda não nasceu. Depois, há a forma como o futuro vai sendo antecipado e introduzido. Finalmente, há um fim que pode ser um novo início e levar a uma reinvenção de toda a história. O próprio título, que parece tão claro, refere-se, possivelmente, ao tamanho do personagem e não ao facto de ele ser meio-irmão de alguém. Depois há a escrita. Envolvente e agitada, com uma mancha de texto em que os diálogos aparecem corridos, tornando a leitura compulsiva e com parágrafos tão longos que não permitem pausas ao leitor mas o envolvem cada vez mais. As referências ao cinema, ao nascimento de um escritor, à influência de Hamsum, à perda da inocência, à maldade, ao calculismo, ao papel heróico das mulheres, tudo isto se mistura num exercício portentoso. São 620 páginas de pura intensidade. Um pouco demais, há um guião completo para um filme, escrito por Barnum, que até ganha um prémio, que parece desnecessário. Há muitos episódios contados até à exaustão. Aparentemente há vontade de colocar tudo neste livro, e a simplicidade costuma ser melhor do que o excesso. E, no entanto, há tanto que fica por dizer ou explicar. Por isso, pela leituras diversas que permite, pela composição de personagens cheias de labirintos dentro de si, este é um livro inesquecível e que marca pela experiência rica que proporciona. Não só conheci a Noruega, como a Dinamarca, como até um pouco de outros países. Mas, acima de tudo, conheci um rapaz e a sua família, as histórias angustiantes de vários microcosmos que me fazem pensar que nuca nada é simples, nada é apenas superficial nem apenas profundo. Dentro das páginas de Meio-Irmão há de tudo, mas o negro impera e, definitivamente, não é sobre isto que é fácil escrever, muito menos com sucesso.


 

Autoria e outros dados (tags, etc)


calendário

Novembro 2008

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Tags

mais tags