Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




 

Este livro constitui uma das mais profundas surpresas que já tive. Assumo, antes de mais, as culpas: de uma parcialidade radical. Este livro, e era só isso que eu sabia sobre ele, é “sobre os Açores”. E há poucas coisas de que eu goste mais na vida do que essas ilhas. Mesmo assim, o livro resistiu na estante durante vários anos, ignorando eu o que, verdadeiramente, por lá se contaria.

Depois há a forma como lhe peguei. Tinha acabado outro livro, andava pela estante a tentar escolher o próximo e lá apareceu ele, insinuando-se, como já havia feito tantas outras vezes. Peguei-lhe, abri-o e pensei ler duas ou três páginas, depois escolheria outro mas ficaria satisfeita a sua reivindicação de atenção. A verdade é que, nesse dia, só o larguei 200 páginas depois. Não fazia ideia, não conseguia ter nenhuma pista que me levasse, sequer, a desconfiar que estava perante uma obra desta dimensão e riqueza.

João de Melo traça aqui um retrato de uma família, de um país, de um povo e de tantas outras coisas. Primeiro conhecemos a viagem de dois dos personagens, deixando as ilhas a caminho de Lisboa. Depois, vamos conhecendo, em detalhe, alguns personagens que, também na forma de entrevista, nos vão revelando a sua vida e alguns terríveis episódios da sua infância. Trata-se de descrever três lutas, de três irmãos, que, unidos por um percurso diferente, se recordam de tudo o que a sua vida foi. Ao mesmo tempo, vão-nos descrevendo o que é ser açoriano, o que é ser português, o que é emigrar para o Continente ou para outro país.

Esta forma de “entrevista” dada ao autor do livro, torna os personagens invulgarmente verosímeis. O próprio encadeamento daquilo que vão contando, dando ao leitor uma visão tripla de um mesmo tempo e de uma mesma casa, transforma a prosa numa quase confissão íntima que, para além do mais, deixa transparecer uma teia de sentimentos angustiantes mas cheios de esperança. Em vez de um rol de desgraças, que lá estão, é certo, há um ponto que entrecruza a(s) história(s), esse conceito de gente que é feliz, mas com lágrimas. 

Parece-me que há aqui páginas a mais. Quando se passa ao segundo livro, e aos seguintes, há momentos em que se perde o efeito cristalino da parte das “entrevistas”. Porém ganha-se no aprofundamento de alguns personagens. Passa a haver mudanças de narrador constantes e subtis. O autor começa a afirmar-se, também em heteronímia, confundindo-se com o personagem-entrevistado, com o personagem-escritor, com o eu e com todos os outros narradores. Mas isto nunca acontece em prejuízo do leitor, não exige uma concentração para lá do normal. Basta ler, deixar fluir o texto, e o encantamento desta obra respira livremente mas sem concessões. É literatura que, assumidamente, se tenta fazer aqui. É literatura, da melhor que Portugal tem para oferecer, que aqui se encontra.

E voltando à pessoalíssima e subjectiva atracção que este texto me provocou, confesso: lia-o a pensar: quero relê-lo.

Autoria e outros dados (tags, etc)



calendário

Janeiro 2009

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Tags

mais tags