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As saudades que tinha de Musil! Foi uma das minhas descobertas literárias mais surpreendentes do ano passado (é ver o post) e, desde então, que andava para voltar a ler um livro seu. Ainda não foi desta que me lancei no Homem sem Qualidades mas lá chegarei…
 
Na primeira parte do livro, sob o título Três Mulheres, encontramos três novelas, sendo que a primeira destas, a lembrar Kafka, leva-nos para um Musil que escreve terrivelmente bem. E é terrível porque provoca desconforto, não é fácil acompanhar esta história bizarra que envolve o adultério.
 
Já a novela A Portuguesa, também bizarra, acaba por ser a menos interessante. Apesar disso, todo o brilhantismo da escrita de Musil está presente.
 
No entanto, na terceira, Tonka, tudo aquilo que Musil parece ser capaz de fazer, se revela. Não tenho memória de alguma vez ter lido uma narrativa curta tão boa quanto esta. Trata de uma história de amor, narrada de forma a fazer emergir os binómios inultrapassáveis que estão presentes em qualquer relação: acreditar/não acreditar, confiar/desconfiar, amar/odiar, etc. Para além disso, leva a dúvida até ao absurdo, até ao ponto em que o impossível passa a ser plausível pela força de acreditar. Mas, no fundo, ninguém acredita no impossível, embora se consiga viver acreditando que sim, que se acredita… Musil é um observador atento e implacável. Não perde tempo a florear, a detalhar. De repente, numa frase curta e afiada, explica tudo sem nos poupar.
 
O segundo conjunto de novelas tem o título União – Duas narrativas. E o nível que vem de Tonka mantém-se numa delas, A Consumação do Amor. Nesta, Musil toca novamente no tema do adultério, conseguindo ser tão penetrante como poucos. A grande literatura faz-se disto, de escrever sobre o que qualquer um poderia escrever mas fazendo-o como mais ninguém faria. O que se vai passando na mente de Claudine, arrepia, faz impressão, mexe connosco, leva-nos a julgá-la, provavelmente, com severidade. Mas Musil faz muito mais, torna-se de tal forma ela, no seu relato, que consegue expressar e transmitir sensações e ideias que não é normal conseguir encontrar assim, em palavras. E, por isso, a escrita de Musil me fascina tanto. Não é só em termos estéticos que ela é genial, é também na capacidade de exprimir o indizível.
 
J.M. Coetzee tem um texto sobre Musil, e sobre estas novelas, pode ser lido aqui: http://www.xs4all.nl/~jikje/Essay/coetzee.html
 
 
 
Obrigado, R, pelo Torless. Sem ti, talvez nunca tivesse descoberto Musil ;)

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