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É ver o primeiro post que deixei neste blog para perceber há quanto tempo eu andava para ler este livro. E também para perceber que esta foi a vez que me aventurei nesta autora que desconhecia antes do Nobel e que procurei conhecer (foi uma das atribuições mais polémicas dos últimos anos).
 
Primeiro há que reconhecer o essencial, este é um livro surpreendente e inimaginável depois de só ter lido A Fenda. Aqui, Doris Lessing revela-se uma grande escritora. Num certo sentido, a escrita é clássica e elegante, profundamente envolvente. Parece tratar-se de uma outra autora. Há histórias dentro de histórias, há algumas personagens com uma grande riqueza e profundidade, há todos os ingredientes para um grande romance. E é isso que Amar de Novo é, um romance, daqueles que dão sentido à própria palavra.
 
A história é de amor, de um amor tardio, que chega para Susan aos 65 anos, quando há mais de 20 anos que não o sentia, nem acreditava poder voltar a sentir. Os momentos iniciais do despontar da paixão, são descritos de forma magistral. Pequenos jogos de gestos e de emoções que tornam estes personagens tão credíveis como fascinantes. Mas há também contradições nos sentimentos, há euforia e há terror. Há regressos ao passado que deixam adivinhar raízes profundas que justificam actos futuros.
 
O interesse da obra vai-se dividindo por vários planos. Há a história de Julie Vairon, a qual dá origem a uma peça de teatro à volta da qual gira toda a acção deste livro. Há o homem apaixonado por esta Julie que já morreu há muito tempo, há a sensação de que Sarah se desforra da ausência de amor, acabando por se entregar a uma espécie de overdose deste. Todavia, nem sempre o amor, ainda que correspondido, pode ser realizável.
 
Também é verdade que este acaba por ser um livro algo desequilibrado. Tenta apontar para várias direcções e parece não ser capaz de chegar a nenhuma delas. Ainda assim, não deixa esse de ser um facto coerente num livro que é, antes de mais, uma longa viagem interior.
 
Um destaque para uma sequência perto do fim, envolvendo a observação de uma mãe e a forma desigual como trata os seus dois filhos. A literatura no feminino assume toda a força que Lessing é capaz de lhe dar. E, nesse sentido, ela eleva-se a uma categoria superior.
 
Não posso deixar de olhar para este livro como uma feliz experiência de leitura. Sei que vou esquecer com alguma facilidade o que nele se passa. Sei que algumas das muitas reflexões sobre o amor que ele contém, vão-se diluir noutras noções que já tenho – não traz grande coisa de novo, nesse campo. Porém, poucas vezes pude acompanhar tão por dentro a mente de alguém tão longe daquilo que sou. Conhecer o que está longe, é sempre uma experiência enriquecedora.
 
Numa última nota, diria que não é livro que aconselhe a ninguém. Longe de ser paradoxal, é simples: é longo, é intrincado, é demasiado interior. Proponho que se leiam as cinco primeiras páginas, são reveladoras do estilo e da substância da escrita de Lessing. Quem gostar, avance. Quem não gostar… bom, daqui a algum tempo, espero ler mais um livro e aqui deixar a minha impressão (As Avós).

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