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A certa altura, neste livro, pode ler-se que as pontes existem por causa do diabo. Ao que parece, este, para fazer mal aos homens, rasgou a terra com as suas unhas, criando assim os sulcos onde os rios separaram os homens uns dos outros. No entanto, os anjos resolveram o problema, unindo as margens separadas com as suas asas, criando, assim, as pontes.
 
Já Ivo Andric transformou uma ponte de pedra num monte de palavras e juntou-as construindo um livro admirável. Já o disse, a propósito do Templo Dourado de Mishima: gosto de quem se fascina com lugares ou, neste caso, com uma ponte. De certa forma, foi isso que aconteceu ao autor e que o levou a escrever, não a história de uma ponte, mas também a história de uma ponte.
 
Este livro, ao mesmo tempo que se torna inclassificável, cabe em diversas categorias, desde o romance aos contos, passando pelo romance histórico ou pelo manual de história.
 
No início, assistimos a uma descrição impressionante da ponte, como se estivéssemos a visitar alguém que, primeiro que tudo, nos mostra a casa. A partir daí, parte-se para a história, uma história sobre a construção de uma ponte, primeiro, e de tudo o que por ela (se) vai passando, por outro. Assim, conhecemos, ainda no século XVI, o menino que sonhou com a sua construção e que mais tarde a mandaria erguer. A partir daí, os capítulos vão dando saltos no tempo, mostrando os principais acontecimentos onde a ponte foi uma espécie de protagonista. Pelo menos, pode-se pensar que, sem a ponte, muito do que aconteceu naquela cidade, Visegrado, não teria passado por lá, ou talvez passasse mas mais tarde.
 
E como qualquer habitante da cidade, em cada uma das épocas retratadas, vamos ficando a saber das coisas como se elas acontecessem naturalmente. Ou seja, Andric não nos dá claramente o contexto, em vez disso, faz-nos vivê-lo. Se, de repente, soldados começam a chegar à cidade, podemos perceber que algo está acontecer. O próprio domínio do Império Austríaco surpreende os habitantes de Visegrado, ao aparecer divulgado em Edital.
 
Mais perto da Grande Guerra, quando já há estudantes que saem da cidade e lá voltam, passamos a ter essa outra fonte de informação. Em inflamados debates na ponte sobre o Drina, os jovens discutem as ideias, os desafios e os limites do tempo que estão a viver. E quem lê, consegue ver tudo a nascer, como se tivesse, também, lugar reservado na ponte.
 
A grande literatura pode ser incrivelmente simples na linguagem. Andric é um grande, um enorme, narrador, não precisa de virtuosismo, apenas de contar histórias. É isso que faz. Há espaço para actos de heroísmo e de cobardia, episódios cómicos e tristes, histórias de amor e de sofrimento. Tal como o Drina corre sob a ponte, transportando sempre algo diferente, também nas páginas de Andric há sempre mais para conhecer.
 
Uma última palavra para um aspecto curioso: quase todos os capítulos terminam de uma forma tão épica, tão intensa que se diria que o livro terminaria ali. A parte boa é que, para além daquilo, há mais.
 
 
P.S. A capa do livro é lindíssima, no entanto, não concebo como pode este livro ser lido sem se ver uma fotografia da verdadeira ponte. É uma pena que ela não esteja em lugar nenhum, nesta edição.

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